Fabio Teixeira / AP
Fabio Teixeira / AP

Policiais 'ficaram de deboche', diz mulher de músico morto em carro metralhado no Rio

Luciana Nogueira disse que não teve ainda coragem para contar ao filho mais novo que o pai morreu

Roberta Jansen e Márcio Dolzan, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2019 | 14h56

RIO - A mulher do músico Evaldo Rosa dos Santos, de 46 anos, morto na tarde de domingo, 7, quando o carro da família foi metralhado por militares do Exército no Rio, esteve no início da tarde desta segunda-feira, 8, no Instituto Médico Legal (IML) para reconhecer o corpo do marido. Luciana Nogueira, de 41 anos, técnica de enfermagem, também estava no carro que foi metralhado, juntamente com o padrasto, que ficou ferido, o filho de 7 anos e uma amiga.

Luciana chegou ao IML amparada por parentes e amigos. Ela contou que não teve ainda coragem de contar ao menino que o pai morreu. E disse apenas que ele está no hospital.

"Por que o quartel fez isso, meu Deus?", questionou ela, muito emocionada. "Os vizinhos começaram a socorrer (o meu marido), mas eles continuaram atirando. Eu botei a mão na cabeça, pedi socorro, disse pra eles que era meu marido, mas eles não fizeram nada, ficaram de deboche."

Luciana contou que estava casada com Evaldo há 27 anos. "Eu perdi o meu marido, o meu melhor amigo", disse aos prantos.

Ela diz ter ficado com medo de militares plantarem alguma coisa no veículo. "Não deixei chegar perto do carro para não botar nada lá", afirmou. "Falei pra eles que não desejo nada de ruim para a família deles, mas que vão ter que pagar. A Justiça aqui é uma m., mas eu vou correr atrás, eles precisam ser punidos."

A amiga de Luciana que estava no banco de trás do carro, Michelle da Silva Leite Neves, de 39 anos, também técnica de enfermagem, disse que não havia nada acontecendo naquele local, nem blitz nem arrastão. E que os militares não tentaram parar o carro ou conversar, simplesmente começaram a disparar contra o veículo. 

A família ia para um chá de bebê quando o carro foi interceptado por militares e alvejado. Um transeunte que passava no local e tentou ajudar a família também foi alvejado.

"Eu vi os militares, mas eu não ia imaginar que eles iam atirar em nós", confirmou Luciana.

Michelle contou que depois que Evaldo caiu sobre o volante, o padrasto de Luciana, Sérgio, que ia no banco do carona, conseguiu segurar o volante e parar o carro. Mesmo assim, disseran as duas, os tiros continuaram. As mulheres, que estavam no banco de trás com a criança de 7 anos, saíram de dentro do carro e se abrigaram na casa de uma vizinha. Só saíram de lá quando os tiros cessaram.

O filho mais velho da família, Daniel Rosa da Silva, de 29 anos, que não estava no carro, contou que além dos 80 tiros disparados contra o carro de sua família, foram encontradas mais de 200 cápsulas no chão. "Para mim, isso é uma execução", afirmou Silva. "Foram 80 tiros no carro, mais 200 cápsulas de munição pelo chão. Vão botar o exército na rua para garantir a segurança? Que segurança foi essa? Acabaram com uma família."

Ele diz que seu irmão mais novo, que testemunhou o fuzilamento, não para de perguntar do pai. "Imagina uma criança perguntando o tempo todo pra você: 'onde está meu pai?'"

Investigação

Pelo menos dez militares do Exército foram presos em flagrante pelo envolvimento no fuzilamento do carro

O Ministério Público Militar está acompanhando as investigações sobre a ação. "O promotor de Justiça Militar Fernando Hugo Miranda Teles, da Procuradoria de Justiça Militar no Rio de Janeiro, está em contato permanente com o general de Divisão Antonio Manoel de Barros, comandante da 1ª Divisão de Exército, unidade militar responsável pela apuração dos fatos”, informou o MPM em nota.

“A perícia do local foi feita ontem pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Também já foram ouvidos os militares envolvidos, assim como algumas testemunhas civis. O Inquérito Policial Militar foi instaurado, está em curso e, tão logo o fato seja elucidado, o MPM fará a sua manifestação.”

 

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