Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

'Precisam criar um líder para criminalizar o movimento', diz Sininho

Em entrevista ao Estado, Elisa Quadros Sanzi disse que é 'libertária' e classificou processo contra acusados de 'abobrinha'

O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2014 | 18h52

Atualizada às 23h06

RIO - Acusada de liderar uma “quadrilha armada para a prática de atos violentos em protestos” no inquérito policial que fundamentou a denúncia do Ministério Público contra 23 militantes no Rio, a produtora cultural Elisa Quadros Sanzi, a Sininho, de 28 anos, afirma que “por mais que mirem em mim, estão destruindo uma pessoa, mas não vão destruir o movimento”.

Elisa foi presa na véspera da final da Copa do Mundo e ficou 13 dias em uma cela da Penitenciária de Bangu, na zona oeste do Rio, até ser beneficiada por habeas corpus, na última quinta-feira. “Durante a ocupação (da Câmara, iniciada em agosto de 2013), Elisa Sanzi foi vista comandando manifestantes para que levassem três galões de gasolina para a Câmara Municipal, passando a incitar os demais manifestantes a incendiar o prédio, objetivo não alcançado em razão da intervenção de outros participantes dos atos”, escreve o promotor.

" STYLE="FLOAT: LEFT; MARGIN: 10PX 10PX 10PX 0PX;

Sininho é acusada pela ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Ela relatou à polícia as articulações e os atos praticados pelos integrantes da Frente Independente Popular (FIP), que incluiriam uso de drogas. 

Movimento espontâneo. Indagada pelo Estado sobre a acusação de ser uma das líderes da FIP, ela afirma: “Historicamente, o Estado, o poder, precisa criar um líder para matar e criminalizar o movimento. É isso o que estão fazendo. E vão fazer com todos. Vão destruir as identidades por meio da mídia, para depois justificar prisão, tortura e assassinato. Eles precisam disso. Mas o movimento é espontâneo, não aceita esse tipo de coisa. Não adianta tentar criar o que não existe”.

Elisa classificou de “abobrinha e história surrealista” o conteúdo do processo de 15 volumes contra os 23 acusados. “Somos perseguidos políticos”, diz ela. “Vão fazer 5 mil, 20 mil páginas de abobrinhas, de história surrealista. Porque não existe, são 23 pessoas que mal se conhecem”, afirma. “Nunca falei com a maioria dessas pessoas. Que líder é esse que não fala com os seus? Não existe liderança.”

Orientada pelo advogado Marino D’Icarahy, Elisa não quis comentar trechos do inquérito policial, como o depoimento da testemunha que a acusa de ter incitado manifestantes a incendiar o prédio da Câmara.

Ela não se diz anarquista, mas “libertária”. “A polícia não sabe o que é anarquismo. Dentro de um movimento espontâneo, de massa, que a gente está vivendo no Brasil, existem várias linhas de pensamento político diferentes, e cada um atua da forma que acredita. É isso o que faz (o movimento) ser horizontal. Tem anarquista, tem comunista, tem socialista e tem até capitalista no meio desse povo querendo destruir o sistema, como, eu não sei. Sou uma libertária.”

‘Tortura psicológica’. Elisa afirmou ter presenciado “torturas psicológicas” e ter sido impedida por agentes penitenciárias de cantar músicas de Chico Buarque e Geraldo Vandré, entre outras, no período em que ficou presa em Bangu. “Elas (as agentes) falavam: ‘canta hino de louvor ou pagode’. Você ali é refém, aí não canta.”

Elisa recebeu a reportagem acompanhada da mãe, a psicóloga Rosoleta de Quadros Pinto Stadtlander, que declarou: “Deixem a minha filha em paz. Criaram um personagem, a Sininho, para demonizar os movimentos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.