Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Precisam explicar o que faziam em 'festa de bandido', diz Jungmann

Ministro defendeu megaoperação contra milícias em Santa Cruz; das 159 pessoas detidas, 139 não tinham antecedentes criminais

Constança Rezende e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2018 | 17h08

RIO - O ministro extraordinário da Segurança Pública, Raul Jungmann, afirmou nesta sexta-feira, 20, que as pessoas sem antecedentes criminais presas durante operação policial em sítio em Santa Cruz, na zona oeste da capital fluminense, devem explicar o que faziam em uma "festa de bandido". Segundo ele, não houve excesso, mas zelo, na ação policial que mandou para a cadeia quase todos os homens flagrados no evento, mesmo sem individualizar suas condutas supostamente criminosas.

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"Se você está numa festa de bandido, de milícia, com armas e drogas, e você vai preso, não há nenhum exagero nisso, pelo contrário, acho que é zelo", disse o ministro. Na audiência de custódia, a Justiça manteve todas as prisões.

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No último dia 7, quatro homens foram mortos a tiros pela polícia, e outros 159 foram presos, em uma megaoperação cujo objetivo era desbaratar uma das maiores milícias da zona oeste, a Liga da Justiça. Do total de presos, 139 não tinham antecedentes criminais. A polícia foi acusada de ter prendido aleatoriamente pessoas que participavam de um evento pago, sem separar os criminosos de quem apenas havia ido assistir ao show. 

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Jungmann participou da cerimônia de posse do novo superintendente regional da Polícia Federal no Rio, Ricardo Saadi, ao lado de toda a cúpula da segurança pública do Estado. 

"Para mim, não ter antecedentes criminais não quer dizer que possam ser liberados; eles precisam explicar o que estavam fazendo lá, numa festa de milícia, numa festa de bandido", disse. "Outra coisa que precisa ser observada é que, justamente por serem da milícia, eles se protegem; justamente por serem milicianos, eles estão, de uma maneira ou de outra, ligados a ex-policiais. Então é preciso ir com calma. De fato, o que aconteceu lá foi que conseguimos prender talvez a maior das milícias que tínhamos aqui (no Rio) e também um farto material, fuzis, pistolas, munição."

Até esta sexta, apenas um dos homens presos na festa, Pablo Dias Bessa Martins, de 23 anos, foi liberado. A decisão foi juiz Eduardo Marques Hablitschek, da 2ª Vara Criminal do Rio. Na quinta-feira, 19, o magistrado, em despacho, considerou que Martins "não possui antecedentes criminais, tem residência fixa e é profissional circense, conforme vasta documentação acostada aos autos" para ordenar a sua libertação.

O ministro afirmou ainda que a Polícia Federal vai abrir um inquérito para apurar o contrabando de armas, já que os fuzis apreendidos na festa seriam de origem estrangeira.

Dinheiro

Jungmann anunciou que uma nova medida provisória liberando verbas para segurança deverá ser assinada nos próximos dias pelo presidente Michel Temer (MDB). As verbas, explicou, a exemplo do que já acontece na saúde e na educação, serão carimbadas, ou seja, terão destinação especificada.

"Elas trarão recursos carimbados e, com isso, uma previsibilidade orçamentária para a segurança pública, como jamais houve", afirmou o ministro, que não revelou o valor dos recursos.

Jungmann explicou que as verbas serão liberadas para os Estados mediante contratos de gestão. E haverá contrapartidas. 

"Redução de índice de mortalidade, melhoria na formação dos policiais, criação de corregedorias independentes, dados", exemplificou. "Mas isso vai depender das demandas de cada Estado."

Durante discurso, o ministro criticou duramente o sistema penitenciário brasileiro, que tem hoje cerca de 700 mil presos, uma das maiores populações carcerárias do mundo. 

"Aproximadamente 520 mil deles foram presos pelos crimes de roubo e furto. Nós não estamos tendo capacidade de encontrar outros mecanismos de punição que não sejam efetivamente regime fechado", afirmou. Ainda segundo o ministro, a maior parte do crime é comandado de dentro das prisões.

PF

O novo superintendente da Polícia Federal no Rio, Ricardo Saadi, não citou nominalmente a Operação Lava Jato em seu discurso - um dos principais destaques da atuação da PF no Rio nos últimos anos. Porém, declarou que "o foco do trabalho será, sem dúvida nenhuma, o combate ao desvio de recursos públicos, o combate à corrupção e o combate ao tráfico de drogas e armas".

Ele afirmou que aceitou o convite depois que o diretor-geral da Polícia Federal, Rogério Galloro, lhe garantiu "total apoio" ao Rio e por querer fazer com que o Rio "volte a ser um local seguro e desejado por todos".

Já o delegado Jairo Souza da Silva, que antecedeu Saadi no cargo, não poupou menções à operação. Ele afirmou ter ampliado em "mais de três vezes" o número de equipes da Lava Jato, "que começou dar mais clareza sobre o submundo da corrupção".

"Nesse período de mais de um ano, foram presas inúmeras autoridades do Rio, entre conselheiros, governadores e secretários de Estado. A Operação Cadeia Velha culminou em três deputados presos incluindo ninguém menos fique presidente da Assembleia", disse o delegado da PF.

Galloro também discursou durante a cerimônia, exaltando a cooperação entre os órgãos de segurança. Durante o evento, foi assinado um acordo de cooperação entre a Polícia Federal, a Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro e o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) do Rio para incluir a PF como órgão participante do portal da segurança do Rio. A medida foi tomada para facilitar o intercâmbio de informações entre os órgãos.

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