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Prédio de MV Bill na Cidade de Deus tem 3 apartamentos arrombados

Rapper usou as redes sociais para criticar operação policial; delegado ressaltou que ação desta quarta-feira é respaldada por decisão judicial

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2016 | 14h09

RIO - O prédio em que o rapper MV Bill mora, na Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, teve três apartamentos arrombados pela polícia, na manhã desta quarta-feira, 23. Pelas redes sociais, Bill criticou a operação policial.

"A polícia arrombou três apartamentos no mesmo andar que o meu, no bloco onde também moro na Cidade de Deus. São moradores que conheço e sei que saíram para trabalhar", escreveu o artista, que usou a hashtag #CombataOCrimeMasRespeitemOMorador.

Bill escreveu ainda que tem outras residências fora da favela. "Se não, estaria me sentindo acuado, como em outras vezes."

Também pelas redes sociais, moradores se queixam de arrombamentos cometidos por policiais militares.

O titular da Delegacia de Combate às Drogas, Felipe Cury, responsável pelas operações desta quarta-feira, disse que a decisão judicial que autoriza mandado de busca e apreensão coletivo na Cidade de Deus só começou a ser cumprida nesta quarta-feira e que somente a Polícia Civil pode fazer as buscas.

"A PM não está autorizada a cumprir mandado de buscas. Se cumpriram ontem (terça-feira) ou hoje, eles não estão autorizados. Colocamos 25 delegados, divididos em quatro áreas, coordenando todas as ações para assegurar as garantias constitucionais dos moradores", disse Cury, em entrevista ao programa RJTV, da Rede Globo.

Cury afirmou que arrombamentos estão garantidos por lei, mas que os policiais o fazem com duas testemunhas, cujos nomes são registrados. "Em algumas residências que entramos e não havia ninguém, apreendemos fuzis, quatro pistolas, drogas. Já temos 14 presos ao longo da investigação", afirmou.

O delegado ainda fez uma provocação ao comentar a postagem de MV Bill. "Seria importante que o MV Bill também ajudasse a polícia e denunciasse onde estão os traficantes, em vez de fazer denúncias de reclamações, e onde estão as armas na Cidade de Deus, que a gente vai lá averiguar também."

Decisão judicial. A Justiça determinou mandado de busca e apreensão coletivo na Cidade de Deus. Moradores relataram invasões, arrombamento de portas e outras violações. Nas redes sociais, postaram vídeos de casas que foram abertas sem que houvesse moradores nos imóveis.

"Aqui não mora só bandido. Aqui mora trabalhador. Essa senhora está trabalhando", disse uma mulher em vídeo publicado no perfil CDD Acontece. "Olha o que fizeram com a porta da moradora que trabalha na feira. Até agora não chegou ninguém em casa. Eles não respeitaram. Gritaram com morador e quebraram as portas. Eles acham que Cidade de Deus é só bandido."

A plataforma DefeZap, criada pela associação Meu Rio para denunciar casos de violência do Estado (cometidas por policiais, guardas municipais, seguranças de concessionárias), recebeu vídeos, fotos e relatos de denúncia.

"Esse material passa por fase de apuração e será encaminhado. A inviolabilidade do lar só pode ser quebrada diante determinadas suspeitas. Essa situação é muito preocupante", afirmou o coorenador do DefeZap, Guilherme Braga.

O criminalista Breno Melaragno, presidente da Comissão de Segurança Pública da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), criticou o mandado de busca coletivo.

"Sob o ponto de vista jurídico essa medida é ilegal. Quando o judiciário determina busca e apreensão está quebrando garantia constitucional da inviolabilidade do lar excepcionalmente em função de uma investigação. Por se tratar de exceção tem de se ter garantia em relação ao local, as coisas que podem ser apreendidas e a pessoa que está sob investigação", afirmou Melaragno. "Essa juíza (Angélica Costa) legitima atitude ilegal da polícia de entrada em locais privados."

A Defensoria Pública prepara ação contra a decisão da juíza.

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