Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Prefeitura do Rio pinta Rocinha de cinza

Reforma em fachadas é criticada por moradores

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

03 Maio 2018 | 03h00

RIO - O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (PRB), mandou pintar de cinza e bege todas as fachadas dos 150 prédios e casas da Rocinha, na zona sul, que ficam de frente para a Autoestrada Lagoa-Barra. Moradores reclamam que, além de apagar o colorido típico da comunidade, a intervenção é, literalmente, de fachada, porque não resolve problemas reais, como esgoto ao ar livre, acúmulo de lixo e falta de iluminação em muitos becos. Sem falar da guerra entre facções criminosas e polícia que, há nove meses, vem trazendo tiroteios à comunidade. 

Em setembro, em visita à Rocinha, o prefeito disse que a comunidade precisava de “um banho de loja”, causando revolta entre os moradores. Seis meses depois, em março, Crivella insistiu na analogia, ao justificar a intervenção municipal. “A ideia é que, quando passem pela Lagoa-Barra, as pessoas olhem para cá e tenham a ideia de uma comunidade arrumada, bonita, de um povo trabalhador. Hoje, ela está muito feinha. Então, nós vamos mudar tudo”, disse o prefeito, na ocasião, em entrevista à página Rocinha Alerta, de notícias da comunidade.

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Para o presidente da ONG Rocinha.org, Ocimar Santos, há problemas muito mais sérios na comunidade. “Não vou dizer que um ‘banho de loja’ na fachada que está suja é ruim, mas não é prioritário.”

Criador do Projeto FavelaDaRocinha.com, Leandro Lima, considera a situação “falta de respeito com os moradores”. O jornalista Eduardo Carvalho, que reside na Rocinha, concorda. “Beira a ingenuidade, mas, na verdade, é preconceituoso pensar que precisamos do aval de quem passa pela Autoestrada para sermos considerados trabalhadores, para não sermos vistos como bandidos.”

A prefeitura informou que as intervenções na comunidade tiveram início, na verdade, em 18 de março e fazem parte de um pacote mais amplo de medidas de melhoria que envolve várias secretarias. No caso específico da pintura das fachadas, o trabalho deve durar ainda seis meses e está orçado em R$1,2 milhão. “Não se trata apenas de embelezamento”, justificou a Secretaria Municipal de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação. “Atende a um pedido de ajuda dos moradores para reparar marquises e fachadas deterioradas com risco a pedestres.”

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