Rio da Paz / Divulgação
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Primas de 4 e 7 anos são mortas na porta de casa em tiroteio no RJ

Meninas foram atingidas na cabeça e no abdômen; 22 crianças foram atingidas por bala perdida na região metropolitana do Rio em 2020

Roberta Jansen e Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2020 | 13h29
Atualizado 05 de dezembro de 2020 | 21h15

RIO - Duas meninas, de 4 e 7 anos, foram mortas durante um tiroteio em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, na noite da última sexta-feira. As crianças eram primas e estavam brincando juntas na porta de casa quando foram baleadas - uma na cabeça e a outra no abdômen. Emily Victória Silva dos Santos e Rebeca Beatriz Rodrigues dos Santos, moradoras da comunidade do Barro Vermelho, em Jardim Gramacho, chegaram a ser levadas para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sarapuí, mas não resistiram aos ferimentos.

 

Vizinhos relataram que um carro da Polícia Militar foi visto disparando vários tiros. A PM confirmou que uma equipe do 15º Batalhão (Duque de Caxias) estava fazendo um patrulhamento na comunidade do Sapinho e teria ouvido disparos de arma de fogo. A corporação alega, no entanto, que os agentes não atiraram de volta.

Já a Polícia Civil informou que a Delegacia de Homicídios da Baixada instaurou inquérito para apurar as mortes e está investigando o caso. Os cinco militares que estavam na região já foram ouvidos e tiveram cinco fuzis e cinco pistolas apreendidos para que a análise balística seja feita.

 

"Estamos enterrando mais uma vítima da violência na nossa comunidade. Duas crianças. Minha filha e minha sobrinha. Estão aí os governadores que só querem ganhar dinheiro nas costas dos outros. Tô enterrando a minha filha, que não viveu nada”, disse, no sepultamento, o ajudante de pedreiro Alexsandro dos Santos, pai de Emily e tio de Rebeca. As duas crianças foram sepultadas, uma ao lado da outra, na tarde de ontem, também em Caxias. Alexsandro fechou o túmulo com as próprias mãos.

A avó de Rebecca e tia de Emily chegou a se deparar com o cenário desastroso das mortes logo depois dele acontecer. Em entrevista à imprensa, Lídia da Silva Moreira Santos disse que havia acabado de descer do ônibus quando ouviu barulhos de tiro. “Quando entro na minha rua, me deparo com a Emily com metade do rosto estourado com um tiro de fuzil.  Fui afagar minha irmã. Quando fui, chega minha nora e fala que mataram a filha dela”, contou. Ela alega ainda que a polícia não prestou socorro às crianças.

Emily faria 5 anos no dia 23 de dezembro e teria sua primeira festa de aniversário da vida. O tema da comemoração seria voltado para a princesa Moana, da Disney. Ela foi sepultada com a roupa que usaria na festinha.

Presidente da ONG Rio de Paz, que monitora esse tipo de caso, Antonio Carlos Costa acha chocante como a alta incidência de crianças mortas não basta para fazer as coisas mudarem no Rio. “Sempre que essas mortes ocorrem pensamos que tudo vai mudar, uma vez que a face mais hedionda da criminalidade no Rio é a morte por bala perdida desses meninos e meninas”, apontou.

“Contudo, nada muda. As famílias permanecem desamparadas, a autoria dos homicídios não é elucidada, os assassinos não são punidos e nenhuma transformação ocorre na política de Segurança Pública. Vale lembrar que quem morre são crianças pobres. Nisso reside a razão da indiferença por parte das autoridades públicas.”

De acordo com a plataforma Fogo Cruzado, 22 crianças - com menos de 12 anos - foram baleadas na região metropolitana do Rio desde o início deste ano. Oito delas morreram.

Casos em que policiais são suspeitos de terem envolvimento costumam ter investigações marcadas pela falta de conclusões. Em 2016, por exemplo, a CPI dos Autos de Resistência na Assembleia Legislativa do Rio mostrou que 98% das mortes que agentes registraram como auto de resistência foram arquivadas. 

“Isso mostra uma falha do sistema. Não é só a polícia que é violenta, mas todo o sistema favorece essa violência”, afirmou o então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), relator da comissão, quando o relatório foi aprovado.

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