Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Projeto de restauração do Museu Nacional alertava sobre risco de incêndio

Documentos apresentados ao Ministério da Cultura pela Associação Amigos do Museu Nacional visavam a obter liberação para captação de verba. Itens inflamáveis seriam transferidos

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 20h31

BRASÍLIA - A Associação Amigos do Museu Nacional incluiu, em dois projetos encaminhados ao Ministério da Cultura, alertas sobre o funcionamento inadequado do sistema de prevenção a incêndios e riscos associados à grande quantidade de material inflamável guardado no palácio tombado, consumido pelo fogo neste domingo, 2, no Rio. A entidade, uma ONG ligada ao Museu Nacional, tentava levantar neste ano R$ 11,4 milhões por meio da Lei Rouanet para restauração e ampliação da sede do museu, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Os projetos tiveram aprovação para captar menos dinheiro do que o pretendido - R$ 7,9 milhões, após análises de técnicos do MinC. Eles foram apresentados em 2016 e 2017 pela associação. Prorrogados, poderiam receber patrocínio e doações por meio de renúncia fiscal até o fim deste ano. Nenhum atraiu o interesse de incentivadores antes do incêndio.

Nesta segunda-feira, o presidente Michel Temer anunciou em nota à imprensa ter articulado com bancos privados e públicos, além da Vale e da Petrobrás, a criação de uma “rede de apoio econômico para viabilizar a reconstrução do museu”. O mecanismo apontado pelo governo como alternativa para o financiamento é a Lei Rouanet. A busca do patrocínio é feita pela entidade que propôs o projeto após autorização do Ministério da Cultura, que apenas gerencia o processo de renúncia fiscal.

Desde 1995, o Paço de São Cristóvão passava por reformas estruturais – a última iniciada em 2003. O projeto para restauração do telhado do torreão Sul e das pinturas decorativas das salas históricas vinculadas ao período da família imperial listou estruturas com grau avançado de deterioração e que precisavam de obras emergenciais. Entre eles, estava a “implementação do projeto de segurança e prevenção de incêndio e pânico”. O prazo de execução era de 3 meses.

Fumaça

O museu informava que era necessário modernizar e ampliar os equipamentos de detecção de fumaça, com sensores inteligentes e por infravermelho, além de alarmes. Os detectores não funcionavam por causa da altura do prédio. “Entre outras demandas, verificou-se que o atual sistema, não garante a detecção de fumaça a tempo adequado, dado aos altos pés-direitos das salas do palácio, que chegam a 7,3m de altura”, diz o documento.

De acordo com documento protocolado, o museu tinha extintores de incêndios adequados e periodicamente atualizados, mas deveria remodelar o sistema seguindo padrões do Corpo de Bombeiros do Rio para “prevenir ocorrências de maior monta”. O museu pretendia contratar uma empresa para adequar o sistema a normas locais e internacionais.

O plano alertava para a existência, dentro do palácio imperial, “de pontos de estrangulamento em suas circulações horizontais e o restrito número e a localização de escadas para a sua circulação vertical”. Recomendava também a construção de um bunker para armazenar e descartar material químico, de controle ambiental e dos laboratórios, além de guarda de coleções científicas.

Inflamáveis

O outro projeto pretendia expandir a área de exposição em 2.360 m², abrindo ao público pela primeira vez o Quarto do Imperador e o Jardim das Princesas. Para garantir a ampliação, um dos objetivos era transferir os itens inflamáveis guardados dentro do palácio, o que era considerado um risco. Eles faziam parte da coleção zoológica, uma das mais numerosas, com animais preservados totalmente. Parte das espécies era conservada imersa em álcool ou formol.

“A despeito do extremo cuidado com que as coleções em meio líquido são guardadas e manipuladas, as mesmas representam um risco intrínseco, pela quantidade de líquido inflamável que concentram”, justifica a associação. “Dessa forma, uma das ações programadas é a retirada dessas coleções em meio líquido (e os estoques de álcool associados) do prédio histórico que abriga o Museu Nacional. A solução encontrada para essa realocação foi a transferência de todas essas coleções para o prédio anexo à sede.” A remoção demoraria cerca de seis meses.

Desde 2010, o Museu Nacional lançou outros quatro projetos por meio da Lei Rouanet. Dois já encerrados também não tiveram sucesso: um para disponibilizar o acervo no site (R$ 150 mil) e outro para realizar uma exposição de vertebrados, restaurando nove salas e atualizando o acervo (R$ 639 mil).

Atualmente, mais dois estavam em andamento. Um pretendia instalar, em comemoração aos 200 anos da instituição, um labirinto interativo digital contando a história do museu, além de projeções de vídeo na fachada, ao custo de R$ 3,4 milhões.

O único a captar recursos foi uma exposição permanente futura do acervo de minerais, composto de mais de 7.500 peças – que pertenceram, entre outros, a D. Pedro II, Imperatriz Leopoldina e José Bonifácio. Havia também a previsão de aquisição de novos exemplares. A exposição Mineralogia-Geologia Econômica recebeu R$ 1,07 milhão de um total de R$ 1,9 milhão pretendido. O apoio veio da empresa Minerações Brasileiras Reunidas S.A..

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