Wilton Junior / Estadão
Wilton Junior / Estadão

Quase inaugurado pela 3ª vez, hospital de campanha de São Gonçalo vira símbolo do fracasso

Contaminação do solo foi o motivo para mais um adiamento da obra na região metropolitana fluminense

Marcio Dolzan / Rio, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2020 | 15h19

Pela terceira vez, quase foi inaugurado nesta quinta-feira, 28, o hospital de campanha prometido pelo governador Wilson  Witzel (PSC) para São Gonçalo, na região metropolitana fluminense. Agora, uma contaminação do solo foi o motivo para mais um adiamento. Na véspera, o deputado estadual Filippe Poubel (PSL), com seguranças, envolvera-se  em uma confusão lá. Um dos homens que o escoltavam teria puxado uma arma. Acusado de invasão,o parlamentar alegou em nota que fora fazer uma fiscalização e, barrado, pedira auxílio à PM.

A inauguração frustrada e a confusão  são novos capítulos  do fracasso dos hospitais de campanha prometidos pelo Estado no Rio. São Gonçalo, segundo maior município do Rio em população (1,2 milhão de moradores),  era, até a quarta-feira, 27, a quarta cidade em mortes pelo novo coronavírus (118) e a quinta em infectados (1026). Também foram prometidos HCs para Nova Iguaçu (marcado para entrega nesta sexta, 29), Duque de Caxias, Nova Friburgo, Campos dos Goytacazes e Casimiro de Abreu.

Em 30 de março, quando o Rio de Janeiro contabilizava 657 casos do novo coronavírus e 18 mortes pela doença - um índice de 2,73% -, Witzel (PSC) convocou uma coletiva para anunciar oito hospitais de campanha com 1,8 mil leitos em até 30 dias. Passados 59 dias, o Rio de Janeiro chegou a 42,3 mil pessoas com covid-19, com 4,6 mil óbitos - uma taxa de mortalidade de 10,9%. Nesse período, menos da metade dos hospitais foram inaugurados, e eles operam sem suas capacidades máximas.

Há mais problemas. A construção das unidades está envolta em uma série de indícios de irregularidades, que rendeu duas ações policiais, as operações Favorito e Placebo. Na última delas, a Polícia Federal bateu à porta do Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador, para cumprir mandados de busca e apreensão. Um subsecretário de Saúde foi preso, e o seu chefe imediato, Edmar Santos, acabou exonerado duas vezes. As acusações envolvem o próprio chefe do executivo e a primeira-dama do Estado, Helena Witzel.Ambos alegam inocência e serem perseguidos pelo governo Jair Bolsonaro.

A principal unidade de campanha estadual é a do Maracanã, inaugurado no início deste mês e com capacidade para 400 leitos. Mas a unidade também tem operação bem aquém do esperado. Nesta quinta, havia apenas 117 pacientes internados. A Secretaria Estadual de Saúde (SES) informou que "a ocupação de leitos nos hospitais de campanha e em outras unidades de referência para a covid-19 é feita de forma gradativa, seguindo protocolos para garantir a segurança de profissionais e pacientes".

A unidade do Maracanã é alvo de muitas reclamações, tanto de familiares de pacientes quanto de profissionais que atuam no local. Já houve denúncias de enfermeiros tendo que descansar em colchões colocados no chão, depósito irregular de materiais e falta de insumos. Uma médica anestesista pediu demissão do hospital logo após seu primeiro dia de plantão.

"Tem muito profissional querendo trabalhar, mas infelizmente não dá pra ter estômago pra ver essa atrocidade. O médico, infelizmente, não faz milagre. Ele precisa ter o mínimo pra trabalhar. Aquilo é um CTI de fachada. Não tem nem o mínimo de um CTI", declarou a profissional em vídeo à TV Globo.

A própria SES admite que a unidade do Maracanã enfrenta problemas. Em nota, a secretaria declarou que "técnicos constataram, na última sexta-feira (22), a necessidade da chegada de diferentes medicamentos ao hospital do Maracanã". Acrescentou que "a OS Iabas informou que o desabastecimento não afetou o atendimento aos pacientes internados".

A Organização Social Iabas é a responsável pela construção, entrega e gestão dos hospitais de campanha do Rio. Também está sendo investigada. O Estadão pediu posicionamento à OS, mas  não teve retorno até o fim da tarde desta quinta.

A SES, por sua vez, declarou que "apura todas as denúncias e, quando comprovadas, notifica a Iabas". A secretaria acrescentou que, além de exigir esclarecimentos, "também cobra as adequações necessárias".

Sobre as unidades, a pasta afirmou que "trabalha com o último cronograma apresentado pela Iabas na semana passada" - que já não foi cumprido, considerando o adiamento da inauguração do hospital de São Gonçalo. A previsão, agora, é de que todos os hospitais sejam entregues até o próximo dia 18.

Além do Maracanã, foram inaugurados os hospitais de campanha Lagoa-Barra (Leblon) e Parque dos Atletas (Barra da Tijuca). A construção e a operação de ambos são responsabilidade da  Rede D'Or, uma empresa privada, embora as unidades estejam integradas ao sistema de regulação do Estado.  

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