FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO
Imagem Daniel Martins de Barros
Colunista
Daniel Martins de Barros
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Queima da humanidade

O museu abrigava as únicas atividades que nos diferenciam de fato dos outros animais

Daniel Martins de Barros*, O Estado de S.Paulo

09 Setembro 2018 | 03h00

Todo mundo sabe apontar diferenças entre seres humanos e animais. Por mais inteligentes que sejam os golfinhos, nenhum deles chegou a sintetizar antibióticos. Mesmo outros grandes primatas, nossos parentes mais próximos, tão semelhantes em suas manifestações emocionais e comportamentais, não chegaram nem sequer a descobrir como assar um pãozinho. 

O desafio de explicar a origem dessa diferença, contudo, não é simples. Já se pensou que a chave do enigma era a linguagem. Nosso vocabulário e gramática seriam exclusivos. Até se descobrir que há macacos que usam chamados tão distintos como palavras e os cliques dos golfinhos servem para dar nomes uns aos outros e trocar informações sobre o dia no mar. Imaginou-se então que a diferença seria o uso de ferramentas, uma habilidade que seria só nossa. Basta ver alguns vídeos mostrando macacos usando varetas para pescar formigas ou corvos criando ganchos com arames para desfazer essa ilusão. 

Habilidades matemáticas, capacidade de contar, empatia, luto, traços culturais, a lista das características que compartilhamos com outros animais cresce a cada dia. E, ainda assim, só nós fomos capazes de pintar o teto da Capela Sistina. Depois de construí-la, claro. E de inventar pincéis. E tinta. E religião. A lista do que é exclusivo também não é pequena. Difícil é justificá-la.

Atualmente – ao menos por ora – acredita-se que a diferença esteja na mania que temos de compartilhar o conhecimento. Esse impulso de trocar ideias sem parar deve ter sido a força por trás da evolução da linguagem, que foi progressivamente se aperfeiçoando com a prática. Além disso, levou também a melhorarmos cada vez mais a forma de passar e receber as mensagens, alcançando uma precisão sem par no reino animal. O próprio pensamento complexo que nos caracteriza pode ter sido moldado dessa forma.

Vários bichos imitam os comportamentos uns dos outros. Mas até hoje não se tem registro de outro animal que pare para ensinar, de forma estruturada e sistemática, seus semelhantes. A não ser em desenhos animados, escola é coisa de humano.

Modernamente existem várias maneiras de ensinar. O famoso tripé universitário – composto por ensino, pesquisa e extensão – é uma boa forma de explicar algumas delas. Claro que o ensino é a instância por excelência para tanto. Professores que detêm o conhecimento e a experiência se unem a alunos, sequiosos do saber, para, usando os mais variados métodos, passar para frente tudo o que sabem. 

A pesquisa tem a função de criar o conhecimento a ser posteriormente ensinado. Cientistas e pesquisadores utilizam os instrumentos de sua área para aprofundar o que se sabe e descobrir mais sobre o mundo, permitindo ao homem manipular seu entorno. As pesquisas não são feitas por solitários cientistas em suas bancadas ou bibliotecas, contudo, e pós-graduandos e estagiários são ao mesmo tempo cientistas e alunos, aprendendo a pesquisar.

A extensão universitária, por fim, é uma forma de levar tudo isso para a sociedade. Trata-se de interagir com quem não está na universidade, transformando suas vidas. Pode ser por meio de prestação de serviços, consultorias, assistência médica. Mas é também levar informação, transferindo conhecimento para as pessoas. Por meio de divulgação científica, de cursos, palestras, exposições. Essas interações podem ser realmente transformadoras.

Muitos subestimaram o impacto do incêndio no Museu Nacional por erroneamente associarem a imagem dos museus apenas a exposições. Essa é uma parte importantíssima, na medida em que se presta à transferência de conhecimento, mas muito pequena de sua atividade. Museus são centros de pesquisa pulsantes, onde muitos cientistas são formados e muito conhecimento é criado antes de ser transmitido. Como a maioria dos brasileiros, eu nunca fui ao Museu Nacional. Mas isso não diz nada sobre sua importância. 

Ele era uma usina de geração e transmissão do conhecimento, de pesquisa e de ensino. Abrigava, portanto, as únicas atividades que nos diferenciam de fato dos outros animais. Queimá-lo, não deixo de pensar, é queimar parte do que nos faz humanos.

*É PSIQUIATRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.