FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO
FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

Roberta Pennafort e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 05h32

RIO - Um mês depois de a vereadora Marielle Franco (PSOL) ser assassinada, com quatro tiros, aos 38 anos, em uma rua do Estácio, perto do centro carioca, sua memória é cultivada por sua família em um apartamento em Bonsucesso, na zona norte do Rio. Ali, é possível ver os vestígios da curta vida da parlamentar, das brincadeiras da afilhada, Mariah, de 2 anos, muito jovem para entender o que aconteceu à madrinha, aos porta-retratos com as fotos em que a ativista aparece sorridente, espalhados pelas estantes. Sua família continua sem a resposta que espera desde 14 de março. Querem saber quem matou Marielle.

“A gente precisa saber quem foi. Faz um mês, dá muita angústia e preocupação. A família quer essa resposta e a sociedade também”, diz o pai, seu Antônio. Ele ainda está voltando à rotina na vendinha na Baixa do Sapateiro, no Complexo de Favelas da Maré, perto dali, onde vende doces, cerveja e refrigerantes para se manter ocupado. 

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O ataque também matou o motorista do carro em que Marielle estava, Anderson Gomes, de 39 anos. Única sobrevivente, a assessora que acompanhava a vereadora deixou o País. Segundo integrantes do PSOL, ela tomou a decisão com receio de sofrer retaliações de criminosos. Em depoimento, ela relatou não ter notado a aproximação dos atiradores. A sobrevivente se abaixou para tentar se proteger e Marielle, que usava cinto de segurança, tombou sobre ela. O veículo, que trafegava devagar, seguiu desgovernado até que a própria assessora conseguiu se esticar e acionar o freio de mão.

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“Quem fez isso não imaginou a repercussão que teria e planejou tão bem que a polícia está tendo muita dificuldade para resolver. Se foi milícia (principal linha de investigação atualmente), cria muita revolta. Se não tiver medida de contenção, eles vão dominar o Rio futuramente”, acrescenta seu Antônio. A quarta-feira (quando o Estado esteve na residência) é o momento mais dolorido da semana, aponta a irmã, Anielle. Foi o dia em que, de caçula, ela passou a filha única. Professora, Anielle estaria com Marielle no evento na Casa das Pretas, depois do qual, no caminho para casa, ocorreu o assassinato. Luyara, a filha da vereadora, de 19 anos, também iria. 

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“Só não fomos porque estávamos as duas com conjuntivite e não queríamos passar para ela, que iria para (a universidade norte-americana de) Harvard para uma palestra em abril. Poderíamos ter morrido também”, lembra Anielle. “Eu e minha mãe fomos depor semana passada, e me pareceu que a polícia está fazendo um trabalho sério. Ninguém imaginava o que aconteceu. Uma bala que matasse o (deputado Marcelo) Freixo (PSOL) seria esperada. A luta tem sido o meu luto.”

Freixo está jurado de morte há dez anos - desde que presidiu a CPI da Assembleia Legislativa do Rio sobre as milícias, que resultou em mais de 200 indiciados e na prisão de algumas das principais lideranças milicianas. Trabalhou com Marielle depois, em seu gabinete e na Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que preside. Socióloga, ela nunca fora ameaçada, nem antes nem depois de se eleger vereadora, em 2016. Foi a quinta mais votada (com 46 mil votos) da Câmara Municipal, que agora vai aprovar seus projetos pendentes, uma homenagem póstuma.

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“Foi uma ação muito bem planejada. Um dos crimes contra a democracia mais graves da história do Rio, é impossível não ser solucionado”, acredita Freixo. Ele perdeu, além de um quadro importante para seu partido, que seria candidata a vice-governadora em outubro, uma amiga próxima, a quem tinha como filha. “Hoje (anteontem) é meu aniversário, e Marielle planejou todas as minhas últimas festas. O tempo da nossa angústia não é o da investigação, da razão. Talvez não seja esclarecido nem em dois meses.”

O vereador Tarcísio Motta (PSOL), cujo gabinete fica ao lado do que era ocupado por Marielle, diz que o clima entre os vereadores também é de muita angústia. “Quem matou Marielle? Quem mandou matar e por quê? Essas perguntas não saem da nossa cabeça e essa falta de respostas é de uma angústia dilacerante; essas indefinições nos deixam todos com medo”, diz. 

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A família não pensa em processar o Estado, até por não saber de quem partiram os tiros. Ainda está retomando a vida, paralisada há um mês. “É muito pouco tempo e, ao mesmo tempo, mudou tudo. Catorze de março parece que vai ser sempre o dia anterior. Não consigo pensar no próximo passo, não sei dizer ‘sim’ ou ‘não’ para nada, tudo é ‘não sei’”, conta Anielle. 

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A irmã da vereadora vem se mantendo à frente da tomada de decisões, com a viúva, a arquiteta Monica Benício, para poupar os pais e a sobrinha. O domingo de Páscoa foi um dia especialmente penoso. Era um hábito da família toda ir - todos juntos - à missa na Igreja Nossa Senhora de Bonsucesso, perto da casa dos pais, ou na Santa Afonso, mais próxima de onde Marielle morava com Monica e Luyara. “Já estávamos pensando onde iríamos almoçar depois”, rememora seu Antônio. “Fomos aqui perto mesmo e rezamos por ela.”

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Roberta Pennafort e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 05h29

RIO - Grupos paramilitares em expansão no Estado são o principal foco da investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. A polícia investiga se dois homens executados esta semana em áreas dominadas por milícias estariam envolvidos diretamente com o crime. Também apura se teriam sido mortos como queima de arquivo.

Oficialmente, a Secretaria de Segurança diz que as investigações continuam em sigilo. Muitas informações, porém, vazaram. Elas apontam para o envolvimento de milicianos no crime. A polícia vai comparar fragmentos de impressões digitais encontradas nas cápsulas achadas no local das mortes com as de dois homens assassinados esta semana.

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Um deles era o líder comunitário Carlos Alexandre Pereira Maria, de 37 anos. Foi morto no domingo passado na zona oeste, um reduto de milicianos. Conhecido como Alexandre Cabeça, era colaborador no gabinete do vereador Marcello Siciliano (PHS). O parlamentar foi ouvido na semana passada como testemunha do caso.

O outro homem era Anderson Claudio da Silva. Era um subtenente reformado da PM, morto na terça passada, na mesma região. Também era suspeito de manter relações estreitas com as milícias. 

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Desde o fim da CPI das Milícias, o número de grupos paramilitares no Estado mais do que dobrou, segundo o Ministério Público. As comunidades carentes sob o comando de milícias passaram de 41 para 88. Eles exploram serviços como gás, internet, transporte, entre outros, e promovem extorsões. 

“Há um crescimento econômico e territorial evidente das milícias”, sustenta o especialista em segurança pública Vinícius George, policial que participou da CPI. “Nos últimos anos, com o recrudescimento da violência no Rio, a ação das milícias recrudesceu também. E agora, com a saída dos caras que foram presos lá atrás, isso tende a piorar porque vai ter mais briga e disputa.”

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O sociólogo Inácio Cano, do Laboratório de Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), concorda. “Temos sinais de que o tráfico internacional de drogas está se enfraquecendo por sua pouca capacidade de produzir lucros. Por outro lado, delegados e promotores dizem que a extensão das milícias tem aumentado, sobretudo fora de suas áreas tradicionais.” Até agora, pelo menos oito vereadores foram ouvidos como testemunhas do caso.

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Constança Rezende e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

14 Abril 2018 | 05h31

A Comissão de Defesa da Mulher, que era presidida por Marielle Franco (PSOL), ainda está sem presidente, e o trabalho político que ela fazia está parado. Em contraste, a maioria dos projetos da vereadora será aprovada em sessão extraordinária em homenagem à parlamentar.

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Pelo Regimento da Câmara Municipal, o vereador Babá (PSOL), que era suplente da vereadora e assumiu seu posto na Casa, deveria ocupar o lugar dela na comissão das mulheres. Mas não foi bem vista no Legislativo municipal a possibilidade de um homem presidir uma comissão destinada a defender os direitos femininos.

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A Câmara informou oficialmente que Babá assumiu a vaga deixada por Marielle na comissão, mas não ocupou a presidência. Segundo o órgão, os três membros da comissão devem deliberar quem exercerá a função de presidente. 

Assessoras de Marielle que trabalhavam na comissão disseram que suas atividades estão suspensas. A comissão não tinha uma equipe própria, e o trabalho era realizado por assessores do próprio gabinete. Neste mês, a equipe apresentaria um relatório sobre os trabalhos desenvolvidos da comissão. O trabalho já estava em fase de diagramação, mas foi adiado por causa do assassinato.

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O documento mostraria que, em um ano, o gabinete da vereadora fez 40 atendimentos, sendo 50% relacionados à violência contra mulheres. Outras demandas atendidas, segundo as assessoras, foram a busca de acesso a direitos como creche e ao aborto legal.

Outros casos registrados foram os de violência estatal, como atendimento a mães e companheiras de homens mortos pela polícia ou racismo institucional. O perfil da população atendida era 90% de mulheres, mas também eram recebidos homens que buscavam orientações para suas mães, irmãs e companheiras.

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Pelo menos 37% dos atendidos no gabinete de Marielle eram negros. Segundo outra assessora que atuava na comissão, Julia Igreja, muitas jovens negras procuravam assistência no gabinete de Marielle por se identificar com a vereadora. 

Uma sessão extraordinária da Câmara entre o fim de abril e o começo de maio vai homenagear a vereadora com a aprovação de boa parte de seus projetos de lei. Alguns são relacionados à denúncia de casos de assédio sexual, à criação do Dia da Mulher Negra e do Dia da Luta Contra a LGBTfobia, entre tantos outros.

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