WILTON JUNIOR/ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ESTADÃO

'Quero confiar nas investigações da polícia', diz irmã de Marielle

Família tem evitado entrar na internet para não se deparar com calúnias disseminadas

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

20 Março 2018 | 01h48

RIO - Irmã mais nova da vereadora Marielle Franco (PSOL), a professora Anielle Silva, de 33 anos, disse que “quer confiar” nas investigações policiais sobre o assassinato dela na quarta-feira, 14

A família tem evitado responder na internet aos ataques à memória da parlamentar e se mantém unida para lidar com o luto e a revolta. “Se fosse o contrário, se invadissem a Maré (favela na zona norte carioca, onde a vereadora nasceu) e matassem meu pai, Marielle estaria lá falando, mesmo na dor”, acredita Anielle, que tinha na irmã, cinco anos mais velha, uma referência.

Como a família está encarando a campanha de difamação de Marielle nas redes sociais?

A gente está se segurando ao máximo para não responder. Quer colocar a boca no trombone, mas tenta evitar ficar ligada na internet, porque magoa. A gente sabe quem ela foi, sabe da verdade. Mas tem um comentário ou outro que não aguento e respondo. 

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Por que, em sua opinião, as pessoas estão compartilhando notícias falsas que depreciam Marielle?

É triste. As pessoas têm muita dificuldade de entender o que é feminismo, o que são direitos humanos. Marielle nunca escondeu as suas causas de ninguém. É um retrocesso dizer ‘defender direitos humanos é coisa de bandido’. 

 

Vocês têm recebido manifestações de solidariedade de policiais também, não?

Sim, ela ajudou muitas famílias de policiais. A gente recebeu mensagens de parentes de policiais mortos que estavam com ela no último protesto que teve na Praia de Copacabana. Eram mensagens para agradecer. Não é mentira que a Marielle batia muito na polícia, mas ela batia num lado da polícia, não toda a polícia.

 

Vocês confiam na  investigações policiais do assassinato?

Eu quero confiar. Quando querem, eles fazem. A gente não sabe quem fez. Será que vai ser mais um caso impune no Brasil? E se quem mandou for alguém muito grande? Eu não sei, não sou investigadora para dar opinião sobre isso. Que eles descubram e se faça justiça. Marielle era minha irmã mais velha, um espelho, exemplo, parceira, uma inspiração. Sempre tive orgulho de falar dela.

 

De onde vem a força de vocês neste momento?

A gente tem tido nossos momentos de desabar. Preferi tomar a frente, por ela e por eles, para poupar minha mãe, meu pai e Luyara (filha de Marielle). Tomar p (*) e receber carrinho. Se fosse o contrário, se invadissem a Maré e matassem meu pai, Marielle estaria lá falando, mesmo na dor. A força vem da família, da união, do que a gente defende. Minha mãe está arrasada, tem picos, diz ‘por que fizeram isso com minha filha?’ Meu pai internaliza muito. Não está fácil.

 

O que a morte dela representa para a causas que ela defendia?

Só tinha essa maneira de calarem. Toda vez que tem um líder que fala pelas minorias é assim, tentam calar. Ela defendia as mulheres com muita garra, estava cotada para vir como vice-governadora com apenas um ano de mandato. Incomodou demais alguém, a gente não sabe quem. Ela estava ganhando voz, espaço, visibilidade, crescendo muito.

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Vocês se sentem seguros agora?

Ela não tinha medo. Nunca passou nada para gente sobre ameaça. Nunca pediu segurança. Agora rola um medo, porque a gente não sabe de onde veio. Mas quem eles queriam já conseguiram. A gente não acha que a próxima será a filha, a mãe. O foco deles era a Marielle. Ninguém aqui tem envolvimento com política. Não vou me filiar ao PSOL, como publicaram, não tenho o menor cacife para a política.

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