WILTON JUNIOR/ESTADÃO
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Real Gabinete sofre com superlotação

Com 350 mil volumes, maior biblioteca de autores portugueses fora daquele país depende da reforma de anexo para acomodar novas obras

Danielle Villela, O Estado de S. Paulo

20 de junho de 2015 | 18h47

RIO DE JANEIRO - Mesmo com a aquisição de um prédio contíguo, em 1992, para abrigar o acervo em crescimento, não há mais espaço livre no Real Gabinete Português de Leitura, a maior biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal, localizada no centro do Rio. Para acomodar novos livros à coleção de cerca de 350 mil volumes, a instituição filantrópica agora depende da reforma do segundo anexo, adquirido há quatro anos, ao lado da imponente sede na Rua Luís de Camões. 

São tempos, porém, de austeridade no Real Gabinete, listado entre as mais belas bibliotecas do mundo pela Forbes Brasil neste mês. As obras do novo anexo só começarão após o término da reforma da claraboia do Salão de Leitura, previsto para daqui a seis meses. “Não recebemos recursos financeiros do governo, nos mantemos com recursos próprios”, diz Antonio Gomes da Costa, presidente do Gabinete. Apesar das obras, o local segue aberto ao público. 

As despesas mensais, entre R$ 80 mil e R$ 100 mil, são cobertas com o dinheiro das mensalidades dos cerca de 2 mil associados, doações e recursos arrecadados com a cessão de espaços para filmagens de comerciais e programas de televisão. Segundo Costa, a instituição costumava receber mais recursos da elite da colônia portuguesa. “Os grandes homens ricos que mantinham isso aqui.”

Também têm minguado os leitores. “Agora vêm muito mais turistas. Os guias e as agências nos descobriram”, diz Costa. Em 2014, foram cerca de 40 mil visitantes, atraídos pela beleza do prédio em estilo neomanuelino, do português Raphael da Silva e Castro. A fachada, em pedra de lioz, foi importada e talhada no Alentejo, em Portugal. Estátuas de Luís de Camões, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e do infante d. Henrique também compõem a fachada. “Há quem passe e se benze, pensando que é uma igreja”. No interior, impressionam as paredes repletas de livros em três patamares do Salão de Leitura e seu enorme lustre, rebaixado pela reforma na claraboia.

Origem. Fundado por advogados e comerciantes portugueses em 14 de maio de 1837, o Real Gabinete passou por vários endereços no centro antes de ter a pedra fundamental da atual sede lançada por d. Pedro II, em 10 de junho de 1880. O prédio foi inaugurado em setembro de 1887, com presença da princesa Isabel. O empréstimo gratuito de livros era restrito aos patrícios.

A biblioteca abriu ao público em 1900. Hoje, os principais frequentadores são professores e estudantes das áreas de Letras e História. “Venho em busca de documentos e obras das antigas colônias portuguesas, o que não encontro nas universidades”, diz Maurício da Silva, de 32 anos, natural de Guiné-Bissau, morador do Rio há oito anos, mestrando em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em Sociologia pela Federal Fluminense (UFF).

O acervo da biblioteca inclui raridades, como um exemplar da primeira edição de Os Lusíadas, de 1572, de Luís Vaz de Camões, e manuscritos de Eça de Queiroz e Machado de Assis.

Exemplares de novas publicações continuam sendo enviados pela Biblioteca Nacional de Portugal por meio do estatuto do “depósito legal”, pelo qual todo livro publicado em território português é remetido para o Gabinete. Sinal de que mais espaço será preciso.

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