Marcos Arcoverde/Estadão
Marcos Arcoverde/Estadão

Realengo, da dor à superação

Escola do Rio alvo de ataque em 2011 mudou desde recepção até as aulas

Gilberto Amendola, Enviado especial

15 de março de 2019 | 03h00

RIO - Ao acompanhar o noticiário sobre o massacre de Suzano, Tainá Bispo, de 23 anos, reviveu o que passou em 7 de abril de 2011. Naquele dia, Wellington Menezes entrou na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio, onde ela estudava, e matou 12 crianças a tiros. Uma das vítimas foi a irmã dela, Milena, de 15 anos. “Sei o que aquelas crianças sentiram. Sei do desespero. Posso ouvir o que elas ouviram e me colocar no lugar delas”, contou. “É impossível esquecer. Mas a gente aprende a conviver com a dor. Felizmente, a escola mudou bastante.”

Desde a tragédia, o colégio tem trabalhado conceitos como inclusão, diversidade e bullying em sala de aula e tomou medidas para reforçar a segurança e melhorar o ambiente escolar. A tragédia não é um tabu na unidade. Pelo menos uma vez por ano, as vítimas são homenageadas pelos próprios alunos, para que o massacre não seja esquecido. Os alunos também participam da manutenção da Praça Anjos da Paz, ao lado do colégio, onde foi erguido um memorial. Não é raro Tainá voltar lá, para observar a estátua da irmã, uma das 12 erguidas em homenagem às vítimas.

As mudanças não são só curriculares. Os muros altos e cinzentos do passado foram substituídos por uma grade. O reforço da segurança foi feito sem criar constrangimento. Dois profissionais do setor atuam no local, controlando a entrada e a saída, mas de modo educado. Antes de chegar ao pátio externo, há duas portas pequenas, o que facilita o controle.

A comunidade parece se conhecer (e se reconhecer). Um dos seguranças trabalha na unidade desde julho de 2011 e trata alunos pelo nome. “Antes, logo depois da tragédia, as pessoas do bairro tinham até medo de matricular os filhos aqui. Hoje, a história é outra. A gente vê nas crianças a mudança, sabe? Aqui, os estudantes têm um entendimento diferente do que é conviver em sociedade”, comentou o barbeiro Márcio Gerbatim, de 43 anos, cujo filho de 13 anos estuda no Tasso da Silveira.

Ontem, Tainá e pelo menos cinco mães de vítimas do massacre de Realengo se reuniram na Praça Anjos da Paz. Estavam lá para conversar sobre as homenagens que a escola deve prestar aos filhos no dia 7 de abril, colaborarem em mutirão para a manutenção da praça/memorial e, principalmente, para se abraçarem e se consolarem. As más lembranças foram reavivadas pelo caso de Suzano.

Assassinatos. Às 8h30 de 7 de abril de 2011, um ex-aluno da Tasso, Wellington Menezes, de 23 anos, entrou ali com a desculpa de que iria dar uma palestra sobre os 40 anos da unidade. Como era conhecido e estava bem-vestido, entrou facilmente. Menezes estava armado com dois revólveres, com os quais matou e feriu estudantes com idades entre 13 e 16 anos. A maioria fugiu em desespero.

Acuado por policiais e baleado por um agente, Menezes se suicidou. Entre os mortos, dez meninas e dois meninos. Na ocasião, parentes do atirador disseram que ele era um jovem reservado e teria sido vítima de bullying.

“O que aconteceu em São Paulo é muito parecido com que aconteceu com a gente”, disse Nilza da Cruz, de 69 anos, avô de Karine de Oliveira, outra vítima de 2011. Emocionada, ela confessou que o único jeito de amenizar a dor é falar sobre o que houve. “Estou aqui para abraçar e falar de minha neta. Espero que as avós de Suzano tenham a mesma oportunidade.”

Adriana Silveira, de 47 anos, mãe de Luiza Paula (vítima do massacre), também esteve na praça e contou ainda estar em choque. “Quando soube de Suzano, voltei para o dia em que perdi minha filha. Mexeu muito comigo”, fala. “Não sei o que eu posso dizer para essas mães que perderam suas crianças. Só queria que elas soubessem que eu estou rezando por elas. Estou sentindo e sofrendo com elas.”

Outra mãe, Maria José Dumont, de 55 anos (que perdeu Laryssa Martins), expressou o mesmo sentimento. “Seria bom se a gente pudesse falar com essas mães de Suzano, dividir com elas o que a gente passou.” Já Inês Moraes, de 55 anos, escolheu o silêncio. Com dificuldades para expressar seus sentimentos desde que perdeu o filho Igor, ela preferiu apenas torcer (e rezar) para que algo parecido com o que aconteceu em Realengo ou Suzano não volte a se repetir.

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