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Rio 450: A rua mais fútil e culta do Rio

Que os turistas continuem pensando que o Cristo, o Pão de Açúcar, as praias de Copacabana e Ipanema são os principais marcos - ou as principais marcas - do Rio. Para quem conhece a história da “mui leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, o lugar que melhor a representa e por muito tempo a definiu sem concorrência não fica na praia ou contemplando o mar das alturas, mas bem no centro da cidade. É uma rua estreita, ligando o Largo de São Francisco à Praça 15 e singelamente chamada de Ouvidor. 

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 18h36


Esqueçam seu presente e seu passado mais recente, usurpados pela invasão serial de bancos, bibocas, farmácias, lanchonetes e camelôs mais ruidosos que os bufarinheiros da Belle Époque, e que, sobretudo no trecho entre a Avenida Rio Branco e a Rua Uruguaiana, lhe deram um certo ar de mercado persa, não de Faubourg Saint-Honoré, como em seus anos de esplendor e glória.


Surgida de uma “ruela achamboada”, que dava acesso aos trapiches do antigo porto carioca, ganhou nome sem pedigree (Desvio do Mar), a que se seguiram dez outros igualmente transitivos, até o batismo com que se fez famosa em meados do século 18, a Ouvidor, assim chamada por residir em seu perímetro o ouvidor-mor da cidade, impôs-se ao longo do século seguinte como a via mais cosmopolita do Rio de Janeiro, o que vale dizer do Brasil. Pois tudo que acontecia no País acontecia primeiro no Rio, e tudo que acontecia na então capital da República acontecia primeiro na Ouvidor. 


Aconteceu lá nossa primeira sessão de cinema, sete meses depois da histórica séance do cinematógrafo dos irmãos Lumière, em Paris. E também o primeiro encontro dos brasileiros com o fonógrafo, as lanternas mágicas, os cosmoramas e outras tantas engenhocas importadas da Europa. Trazido pelo imigrante italiano Paschoal Segreto, o cinematógrafo, entre nós lançado com outro nome (omniógrafo), instalou-se no antigo n.º 37. Na mesma calçada, no n.º 107, o imigrante checo Fred Figner abriu a legendária Casa Edison, a primeira loja (e a primeira fábrica) de discos do País.


Passarela de grã-finos e sibaristas, de moçoilas com complexo de francesas (para desgosto do Zé Dias de Dom Casmurro, que as desejava menos frenéticas, mais brasileiramente vagarosas), a Ouvidor não era apenas o nosso Faubourg Saint-Honoré. Com a maioria da imprensa carioca lá instalada (11 jornais e duas revistas, O Malho, uma delas), era também a nossa Fleet Street. Daí porque em seus cafés e confeitarias (notadamente na Pascoal e na Castelães) circulavam todos os dias e a qualquer hora a fina flor da intelectualidade estabelecida no Rio, saindo ou vindo de redações, sebos e editoras. 


Em sua diversificada fauna havia escritores, jornalistas, artistas, charlatões e inesperados inventores (como o “rei dos mágicos” Antonio Ribeiro Chaves, criador de um “telefone brasileiro”, que, acreditem, funcionava, em linha direta e exclusiva do Corpo de Bombeiros com a redação do Jornal do Commercio), uma mélange que possibilitou a Ouvidor cumprir papel ímpar na história social e cultural da cidade. 


Machado de Assis a ela se refere a torto e a direito em seus romances e crônicas. É “onde a vida passa em burburinho” e “onde todos moramos”, notou numa elegia ao mítico livreiro Garnier, que diariamente descia a pé do bairro de Santa Teresa até sua livraria, no 71 da Ouvidor. Joaquim Manuel de Macedo, consagrado romancista de A Moreninha e biógrafo informal da rua, enfeitou-a com uma corbelha de adjetivos: “a mais bonita, vaidosa, pimpona, passeada, concorrida, leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédia”. Quem, no entanto, melhor a analisou foi o bambambã dos cronistas da época, João do Rio, quase certamente seu mais implacável crítico. Para ele, era “a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo”, um “beco infernal de pose, de vaidade, de inveja, que tem a especialidade da bravata”, uma “irresponsável artéria da futilidade”. Embora afrancesada, uma rua espiritualmente bem brasileira.


Visitava-a com alguma frequência, quando garoto, porque meu pai trabalhava numa empresa de seguros, na esquina com a Quitanda. De seu comércio histórico peguei pouca coisa de pé: a Casa América e China, a livraria Crashley, a loja Sloper, a papelaria União. O Rio Minho, ainda no n.º 10, é exemplo de resistência. É o restaurante mais antigo da cidade (inaugurado em 1884 e frequentado até pelo Barão do Rio Branco), onde em décadas passadas algumas vezes almocei com Rubem Fonseca. Hoje, sua maior atração é uma livraria, Folha Seca, especializada em livros e coisas sobre o Rio. 


Sérgio Augusto, nascido no Rio em 1942, é colunista do Estado.

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