Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Rio 450 anos: Mas, afinal, o que é a 'carioquice'?

Pesquisa derruba mitos e mostra que cidadão típico não gosta tanto assim de praia, adora shopping e é menos agregador do que parece

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 18h30

RIO - Já se cantou que cariocas são bonitos, bacanas e sacanas. Que são suingue, sangue bom. Que mulher carioca não é brincadeira, nem ninguém tem carinho assim para dar. Mas o que, afinal, é essa carioquice que a prefeitura propõe comemorar no aniversário de 450 anos da cidade? Há um traço comum que ligue os que moram na zona sul, na zona norte e na zona oeste?


“Carioca quando se encontra é tudo a mesma coisa. Depois que sai o churrasquinho, rola o pagode, é tudo igual, tá tudo em casa”, sentencia o cantor Zeca Pagodinho, carioca de Irajá, na zona norte, hoje morador da Barra da Tijuca, na zona oeste. 


Zeca foi apontado como o carioca típico numa pesquisa feita pela antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com moradores da cidade, no ano passado. “Eu gosto de andar de bermuda, chinelo e tomar cerveja na praia. Não gosto de aporrinhação, resolvo tudo no bom papo. Falou, tá falado. Se carioca é ser isso...”, reagiu Zeca, ao ser informado do resultado do trabalho. 


Para além dos estereótipos, a pesquisa de Mirian desmente alguns mitos. O primeiro deles: o carioca adora a praia. “Grande parte dos cariocas não vai à praia, não gosta de praia e vai muito ao shopping, que é uma imagem mais ligada aos paulistas. Eles vão ao shopping como um passeio de fim de semana. Tem esse carioca que vai à praia, cuida do corpo, a menina com biquininho. Mas não é maioria nem entre os jovens”, diz a antropóloga. Ao perguntar sobre o perfil dos cariocas, Mirian ouviu que são malandros, gostam de dar um jeitinho, vivem para curtir o prazer. 


Também é o que diz a estudante de Comunicação Larissa Bush, eleita Carioca 2015, no concurso Retrato Ideal e Otimista da Carioquice Autêntica, do blog RIO Etc. “O carioca é malandro, está sempre de bom humor, querendo fazer amizade com todo mundo. A gente não tem muito horário, né? Se atrasa pra caramba.” Os entrevistados ouvidos por Mirian disseram, no entanto, que nada disso os descreve. “As representações são mais fortes do que o comportamento efetivo”, diz a antropóloga. 


O jogador Jair Ventura Filho, o Jairzinho, um dos heróis da Copa de 70, defende que “malandro é aquele que estuda, trabalha, acha motivação e vence na vida”. “O carioca típico sou eu. Malandro é quem trabalha duro e melhora de vida. Cresci sem pai, fui criado por mãe, batalhei muito. Isso é que é saber viver”, diz o jogador, que mantém uma escolinha de futebol para crianças da Favela da Varginha, em Manguinhos, zona norte. 


O economista carioca Sérgio Besserman concorda com a tese de que de malandro o carioca não tem nada. Mas defende que ele se torne “mais paulista” para se tornar competitivo. “O carioca é muito trabalhador, mais do que os paulistas. A Pesquisa Mensal de Emprego mostra isso há mais de 25 anos: o carioca trabalha mais horas”, diz Besserman.


“Mas não temos na nossa cultura de trabalho a ideia de valorizar a excelência - de fazer o melhor possível, no menor prazo, ao menor custo. Isso aconteceu em São Paulo porque o mercado é mais competitivo. E ao mesmo tempo temos uma cultura burocrática, de balneário, e temos uma rebeldia em relação aos donos do poder. A gente elege o cara e dois dias depois a gente está baixando o cacete. Aqui o que pesa mais são as relações pessoais.”


Foi essa informalidade, essa “cultura de balneário”, que impressionou de cara o quadrinista nova-iorquino Alberto Serrano, conhecido como Tito, quando ele se mudou para o Rio, há oito anos. “Quando tinha uma entrevista, uma reunião para apresentar um storyboard, chegava cedo, arrumado, calçando sapatos. E aí eu via que, às vezes, a pessoa com quem eu ia me encontrar chegava atrasada, de chinelos, os pés sujos de areia. E estava tudo bem. Acho que o carioca sabe aproveitar a vida. E eu acabei pegando um pouco isso, de diminuir a tensão com que eu estava acostumado”, diz Tito, criador do personagem Zé Ninguém, morador de rua, que ele grafitou em muros das zonas sul, norte e oeste. 



Carioquice. Para o prefeito Eduardo Paes (PMDB), a carioquice é um estado de espírito. “O verdadeiro carioca é aquele que adota a cidade como sua. A carioquice está na hospitalidade e no jeito afetuoso com que recebemos a todos e fazemos com que se sintam em casa no Rio.” Mas para a antropóloga Julia O’Donnel, professora da UFRJ, o carioca “não é tão gregário assim”. “A gente tem a imagem de que o carioca é democrático, se congraça com cores, idades, que todos convivem em harmonia. Mas, quando a gente recorre à história, vê que não é bem assim”, afirma Julia.


“E não precisa ir tão longe, é só olhar o que aconteceu há um mês (revista da PM em ônibus que seguiam para as praias da zona sul, numa tentativa de coibir arrastões) que a gente percebe que o carioca é bem mais complexo do que isso. Os limites estão muito claros onde as pessoas são bem-vindas e onde não são bem-vindas.”


O geógrafo Jaílson de Souza e Silva, fundador da ONG Observatório de Favelas, ressalta que a “violência foi um ponto que uniu os cariocas”. “A questão do tráfico, dos interditos e o sentimento de ser vítima da violência uniram muito os cariocas, embora existam formas diferenciadas de prestar atenção nessa violência.”

Tudo o que sabemos sobre:
Rio 450 anos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.