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Rio 450 anos: Minha cidade, minha casa, com a qual travo briga diária

Anos atrás, quando desci no aeroporto do Galeão, direto para o bafo que envolve o Rio de Janeiro, as primeiras borboletas começaram a revoar na barriga. Cá estava, a 8 mil quilômetros de casa, com duas malas, alguns livros, uma máquina de escrever Olivetti e nenhuma ideia do que me esperava.

Mac Margolis, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 18h33


Tinha à mão meu guia Fodor’s e um paiol de repelente. Graças às aulas noturnas na Associação Cristã de Moços, de Cambridge, Massachusetts, até arranhava umas frases de português. O Rio não fez cerimônia. Já na pista, gotículas de suor traçavam riachos pelo meu rosto e debaixo da camisa. Minhas meias eram grossas e as mangas cumpridas demais. A calça jeans grudava na coxa. Será Lagos de novo, o único outro porto tropical que conhecera até então? Despachei a fantasia tórrida já no controle de passaporte e passei pela alfândega, rumo ao centro do Rio e - mal desconfiava - a uma casa, carreira e vida novas, também.


Naquele momento, meu ano zero do Brasil, a cidade grife das Américas era para mim uma moça, faceira e febril, duas partes delicadeza, outras duas, espanto. Hoje, com 450 anos, ela ainda me assalta os sentidos, uma cidade onde tudo parece promessa, mesmo em meio a tantos entraves e desgraças. O Rio é minha casa, no sentido pleno da palavra: é o chão que escolhi e me acolheu, a cidade para qual adoro retornar (de preferência, via Santos Dumont) e com que travo briga diária e me exaspera sem fim. 


Viver no Rio e vivenciar seus absurdos - o flanela de rua que impera em pleno Choque de Ordem, os preços parisienses para serviços de rodoviária, o trambiqueiro carioca que se pensa Einstein, a blitz que trava as ruas da cidade para flagrar uma carteira vencida, a boca de fumo a poucos passos da Linha Vermelha - às vezes me parecem intoleráveis. 


Também fico pasmo pela burocracia obtusa que sufoca a iniciativa, a corrupção tão natural que parece condição congênita e a violência que deleta vidas, seja no Complexo da Maré, seja em Copacabana. Sim, o Rio derrubou pela metade a taxa de homicídios com sua corajosa, e corretíssima, política de ocupar os territórios fora de lei, mas a cidade ainda amarga 20 assassinatos por 100 mil habitantes. Isto é, um massacre à Charlie Hebdo por semana. 


Quando me encontrava desnorteado no Rio, meu primeiro instinto, talhado na pacata Nova Inglaterra, era pedir ajuda ao guarda. Aprendi que os cariocas não sempre faziam assim. É o que sugere a Pesquisa Nacional de Vitimização, do Ministério da Justiça, que em 2013 apontou a polícia do Rio como a mais corrupta do País. Sete em cada 100 pessoas abordadas pela Polícia Militar disseram ter sofrido extorsão. Pacificar a polícia é ainda um desafio carioca.


Ficar longe do Rio, afastado de seus contornos, da sua descontração, privado do seu jeito democrático de se vestir e se comportar, também me parece inconcebível. Claude Lévi-Strauss, o célebre antropólogo, que forniu seus pensamentos no Brasil, não aprovava forasteiros com passaportes. “Viajar e viajantes são duas coisas que detesto”, escreveu na abertura de seu livro mais famoso, Tristes Trópicos. Desdenhava os aventureiros de Louis Vuitton que sonhavam com a selva e dormiam no Hilton.


Mas viajar e conhecer um novo mundo era tudo que eu queria. O estudioso francês tampouco se encantou pelo Rio. Vista do alto do Corcovado, a cidade lhe parecia um canteiro de obras e a Baía de Guanabara, com suas erupções de granito, uma “boca banguela”, como Caetano Veloso lembrou na sua canção clássica. Como é que se diz dor de cotovelo em francês? 


Hoje, eu moro na Urca, à beira da boca banguela. Numa caminhada, vejo o Corcovado e, vez por outra, caminho na trilha que margeia o Morro da Urca, longe do canteiro. Nos melhores dias, sinto-me como Cole Porter e sua mulher e um amigo, que quando seu cruzeiro passava pela Baía de Guanabara, teriam exclamado, na sequência, “delightful”, “delicious” e “delovely”, dando asas à canção que se tornaria um clássico do repertório americano. Ok, outros contam a mesma história a partir da Ilha de Java, quando o mesmo trio soltou que teria saboreado a mangostim e falou o idêntico refrão. 


Apócrifa por apócrifa, prefiro a versão carioca. Não são as feições nem os sabores do Rio que me desapontam. Como muitos estrangeiros, encanto-me pela majestade de um povo que consegue sorrir na boca banguela de tragédia e abraçar todos os viajantes como o monumento art déco no cume do Corcovado - um ícone de sacrifício para os gringos.


Mac Margolis é colaborador da 'bloomberg View e colunista do Estado.

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