Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Rio 450 anos: Olimpíada ofusca a festa de aniversário da cidade

Verdadeira reinvenção da cidade é feita para os Jogos

Roberta Pennafort, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 18h30

RIO - As comemorações dos 450 anos do Rio não entrarão para a história da cidade, diferentemente do que aconteceu com o 4.º centenário, em 1965, acredita o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho. Ofuscada pelos Jogos Olímpicos de 2016, a data não mobilizou esforços que deixassem legado profundo nem simbólico, segundo ele.


“As obras em curso não foram pensadas para os 450 anos. As da região do porto são um ganho para a cidade, mas aconteceriam de qualquer jeito, por causa da Olimpíada. Os jogos, sim, entram para a história. O que estão fazendo é aproveitar a coincidência das datas. O resto é foguetório”, diz Carvalho, especialista em História do Brasil e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). 


Reduzir a efeméride a um “foguetório” é o que a prefeitura não queria ao criar o Comitê Rio450, em 2013, segundo o encarregado do trabalho, o diplomata Marcelo Calero. Hoje, acumulando o cargo de presidente do comitê e o de secretário de Cultura, ele crê que o aniversário sirva tanto à mobilização popular positiva quanto à produção intelectual sobre a cidade. 


Publicações. Por meio de incentivos da secretaria e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio (Faperj), estão sendo publicados, até o fim do ano, cerca de 80 volumes que tratam de diferentes aspectos da formação do Rio. “A gente queria que a Biblioteca Rio450 tivesse tanta importância quanto a de 1965, e conseguiu. As efemérides se prestam a pensar a cidade”, afirma Calero. 


Em 1965, segundo lista a compilação Rio 400 + 50 - Comemorações e Percursos de uma Cidade, de Maria Inez Turazzi, Cláudia Mesquita e João de Souza Leite, foram publicados mais de cem títulos, entre livros de poesia e de história, guias e romances; uma produção sólida que se tornou importante para pesquisadores das gerações seguintes. 


A historiadora Marly Silva da Motta diz que a coleção atual tem cunho mais acadêmico, enquanto a de 1965 incluiu os poetas Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira e o dramaturgo Artur Azevedo. “O Rio tinha deixado apenas cinco anos antes de ser a capital do País. Vivia essa dificuldade, essa melancolia”, recorda Marly. 


Para ela, só esse caráter já distingue as duas comemorações. Além do fato de o governador da então cidade-Estado da Guanabara, Carlos Lacerda, usar obras públicas para articular a sua candidatura à Presidência da República - aspiração frustrada pela ditadura militar. Celebrar os 400 anos tinha um peso político para além de um mero festejo popular. 


Obras. Se a principal realização à época foi o Parque do Flamengo, o marco dos 450 anos será a inauguração de um prédio administrativo, na zona norte, e de um túnel, na zona portuária, região que, desde 2012, passa por revitalização. As duas obras foram batizadas de Rio 450. 


O Parque do Flamengo não ficou pronto para o dia 1.º de março; só foi inaugurado em 12 de outubro de 1965. O que também acontece com o Museu do Amanhã, na zona portuária. O prédio futurista seria o cenário do Parabéns a Você, mas está atrasado. Deve abrir apenas no segundo semestre. 


“O que está sendo feito não é para os 450 anos nem para a Olimpíada, é para a cidade. A gente acaba usando a Olimpíada como desculpa para pressionar as empresas a cumprir as datas”, diz Alberto Silva, presidente da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio (Cdurp).


Embora nunca tenha sido vinculado aos 450 anos, por ser do governo do Estado, o Museu da Imagem e do Som (MIS), que está sendo reconstruído, é outra inauguração que teria tudo a ver com o aniversário. Isso porque o MIS foi inaugurado em 1965. Mas a nova sede, na Praia de Copacabana, ainda está em construção, e também é prometida para o segundo semestre. 


Presidente do museu, a historiadora Rosa Maria Barboza de Araújo viveu o 4.º centenário como estudante. Ela acredita que o sentimento ufanista que deu o tom dos festejos se mantenha, ainda que os 450 anos não estejam “na boca do povo”. 


Para o economista Carlos Lessa, que se dedica a refletir sobre o Rio, tanto a cidade quanto os habitantes “continuam sendo”, citando versos de Gilberto Gil em Aquele Abraço. “Até no paraíso as pessoas reclamam, mas o Rio manteve o amor próprio. A alma da cidade é muito grande, e os 450 anos chegam como mais um carnaval.”

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