Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Rio 450 anos: Uma cidade em transformação

Às vésperas da Olimpíada, aniversário é festejado em meio a projetos ambiciosos, promessa de mudança e obras de revitalização

Luciana Nunes Leal, O Estado de S. Paulo

28 de fevereiro de 2015 | 18h39

RIO - Entre o centro e a zona portuária, a Praça Mauá simboliza o momento pelo qual passa o Rio, que hoje completa 450 anos. Tem um museu novo, outro em construção e máquinas que trabalham na mudança da paisagem após a derrubada do Viaduto da Perimetral. No cenário, porém, há um prédio histórico de mais de 80 anos escorado por estacas. 


Primeiro arranha-céu do País, de 22 andares, sede da Rádio Nacional, palco de célebres programas de auditório dos anos 1940 e 1950, o Edifício A Noite aguarda projeto e recursos da União, dona do imóvel, para uma restauração sem previsão de início. 



Homenageado com festejos neste fim de semana, dois deles com a prometida presença da presidente Dilma Rousseff, o Rio mistura projetos ambiciosos e edifícios abandonados, promessas de mudanças revolucionárias e ocupação desordenada do espaço público. 


Capital da Colônia, do Império e da República até 1960, a cidade passou por longo período de estagnação e intervenções pontuais até que, há sete anos, a parceria política de município, Estado e União permitiu retomada de investimentos, geração de empregos e ações conjuntas do poder público. A euforia chegou ao auge em outubro de 2009, quando o Rio foi escolhido sede da Olimpíada de 2016, em solenidade prestigiada pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB), reeleito em 2012, pelo então governador Sérgio Cabral (PMDB) e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). 


Passados seis anos, a recessão econômica, a crise da Petrobrás, com sede na cidade, e a paralisia de investidores exigem visão mais realista dos projetos de médio e longo prazos. A Olimpíada se tornou o ponto de referência de todas as obras. Autoridades dizem não haver motivo para preocupação com as obras em andamento, apesar de atrasos e da constatação de que a cidade ficará longe da meta de chegar a 80% de despoluição da Baía de Guanabara. 



Revitalização. Após o plano de ocupação da Barra da Tijuca, na zona oeste, implementado nos anos 1970 e 1980, que fez a população local subir de menos de 3 mil habitantes, em 1965, no quarto centenário da cidade, para quase 136 mil neste ano, a prefeitura aposta na revitalização da região central. 

O poder público planejou a modernização do centro e da zona portuária, de grande importância histórica, especialmente com a chegada da família real, em 1808, e a construção do Cais do Valongo, ponto de comércio de escravos na cidade. Em 2011, o sítio arqueológico do Valongo foi recuperado e virou atração turística. 


O presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), Sérgio Magalhães, ex-secretário municipal de Habitação, alerta para o risco de o plano ficar só na intenção. As obras da Olimpíada, critica, focaram majoritariamente na zona oeste, área da maior parte das competições. “Se as obras ficarem restritas ao que acontece hoje, vão reforçar a centralidade da Barra da Tijuca em detrimento do centro”, disse. 


Na visão do arquiteto, sem atenção para a melhoria de trens e metrô na zona norte, intervenções definitivas na baía, aproveitamento da área portuária e mais favelas urbanizadas, o Rio não chegará perto da mudança de há pouco mais de cem anos, na gestão do prefeito Pereira Passos (1902-1906). Na ocasião, a cidade foi alterada, com a expansão do sistema de trilhos para o subúrbio e a urbanização da orla, com a construção da Avenida Atlântica, em Copacabana. 


Diretora do Arquivo Geral da Cidade, a pesquisadora Beatriz Kushnir é otimista quanto ao resgate da região central. “O Rio tende a seguir a tendência de ter um centro borbulhante, característica de cidades europeias como Barcelona.” 



Bota Abaixo. Inspiradas nas reformas de Paris do início do século 20, as obras que marcaram a primeira grande transformação do Rio foram apelidadas de “Bota Abaixo”, por causa da demolição de casas e cortiços. Com isso, a população pobre intensificou a ocupação dos morros ou da periferia. 

Ao longo dos anos, houve mais derrubadas, como a do Morro do Castelo, no centro, escolhido por Mem de Sá, em 1567, como ponto de fundação da cidade, pela visão da baía. Dois anos antes, em 1.º de março, Estácio de Sá, sobrinho do governador, fundara o Rio na Urca. 


O Castelo foi destruído em 1921, sob o argumento de que impedia a circulação de ar e proliferava doenças. Deu lugar a pavilhões da exposição do centenário da Independência (1922) e à Esplanada do Castelo, onde, nos anos 1940, ergueram-se as monumentais sedes dos Ministérios da Fazenda e do Trabalho e o prédio do Ministério da Educação, marco da arquitetura modernista. Na época, a obra da Avenida Presidente Vargas, na ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945), demoliu casas e igrejas coloniais. 


“A derrubada do Morro do Castelo e a abertura da Presidente Vargas foram crimes contra a cidade”, afirmou o arquiteto Nireu Cavalcanti, especialista em história do Rio. Ele reage às intervenções urbanísticas. “O Rio sempre foi visto como cidade-negócio, o pensamento é dar lucro. É uma cidade linda, mas que tem apenas fragmentos dos diversos momentos de sua história.” 


Outro trauma aconteceu em 1976, com a derrubada do Palácio Monroe, no centro da cidade, erguido 70 anos antes, para obras do metrô. A demolição gerou discussões na ditadura militar, até o presidente Ernesto Geisel autorizá-la. 


Para o pesquisador do Núcleo de Estudos do Rio de Janeiro, da Fundação Getulio Vargas (FGV), Américo Freire, “por ter sido capital por tanto tempo, o Rio tem forte componente nacionalizador”. “Durante muito tempo, a cidade viveu a tensão entre a lógica local e a nacional. Políticos locais queriam mais influência e o poder central queria mandar.” Em 1960, o presidente Juscelino Kubitschek fundou Brasília e, de capital, o Rio passou à cidade-Estado da Guanabara, até a fusão com o Estado do Rio, em 1975. Perdeu relevância política e econômica. 



Atrativos. Apesar da retração econômica, Paes mantém o plano ousado para a zona portuária, com prédios comerciais e residenciais de até 50 andares. O interesse pelos empreendimentos ainda é tímido. Uma aposta para investir na área era o empresário Eike Batista, ex-bilionário que chegou a ser chamado de o “mecenas da Rio 2016”. Era dele o avião que levou Paes e Cabral à Dinamarca, quando o Rio foi eleito sede dos Jogos. Àquela altura, Eike comandava as reformas da Marina da Glória e do Hotel Glória, outro símbolo da cidade, inaugurado em 1922. Com a derrocada, ele se desfez dos empreendimentos. 


O secretário de Coordenação de Governo da prefeitura, Pedro Paulo, preferido de Paes para sucedê-lo em 2016, disse que o Rio ainda tem como atrair investimentos. Em oito anos, calcula, a cidade terá recebido R$ 36,3 bilhões de setores públicos e privados. “O Rio está em movimento. Estamos investindo, temos projeto. A cidade avança em saúde, em educação em horário integral. Comemoramos o aniversário de uma cidade que tem muito mais otimismo e visão de futuro do que aos 425 ou 430.” 


Curiosidade

Bondes

1965

A Companhia de Transportes Coletivos (CTC) encerra as atividades do que ainda restava das linhas de bonde.

2015

O centro do Rio é rasgado por obras para construção do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT).

Música

1965

Emilinha Borba estourou no carnaval com Mulata Iê-iê-iê, de João Roberto Kelly.

2015

MC Ludmilla e Anitta estão entre as mais tocadas.

Gíria

1965

"É uma brasa, mora!", "Bacana".

2015

"Novinha", "Já é?", "Bolado".

Inseto

1965

Lacerdinha (Thysanoptera). Pequeno inseto que, quando atingia o globo ocular, causava irritação.

2015

O Aedes aegypti, conhecido causador da dengue, ainda assusta cariocas. Passou a transmitir a chikungunya.

Campeã do carnaval

1965

Salgueiro, com o enredo História do Carnaval Carioca

2015

Beija-Flor, com o enredo Um Olhar sobre a África e o Despontar da Guiné Equatorial

Cultura

1965

Lançamento do musical Opinião, quando estreia a cantora Maria Bethânia

2015

Musicais homenageiam Wilson Simonal, Chacrinha e Cássia Eller

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