Geniton Vieira/ IOC/Fiocruz
Geniton Vieira/ IOC/Fiocruz

Rio de Janeiro enfrenta surto de chikungunya

Enquanto o número de casos no país apresenta queda, a alta no Rio d Janeiro foi de 26,7% em relação ao mesmo período do ano passado; Estado também registra circulação do vírus mayaro

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2019 | 10h09

RIO DE JANEIRO - Na contramão da tendência nacional, o Rio de Janeiro enfrenta um grave surto de chikungunya e registra a circulação de um vírus até então inédito na Região Sudeste, o mayaro. Os dois provocam sintomas semelhantes: fortes dores nas articulações, que podem se prolongar por meses. Cientistas suspeitam de casos concomitantes das duas doenças.

De acordo com os últimos dados do Ministério da Saúde, os números de chickungunya no País estão 23% abaixo dos registrados no mesmo período do ano passado. No Rio, no entanto, foram registrados até meados deste mês 25.459 casos da doença, com seis mortes. É um aumento de 26,7% em relação ao mesmo período do ano passado.

Segundo especialistas, os números do Rio pode estar sendo inflados por casos de mayaro identificados erroneamente como chikungunya. Estudo divulgado neste mês pelo Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) analisou 300 amostras de sangue de pacientes que tinham apresentado sintomas de chikungunya, mas cujos exames não deram positivo para o vírus.

O resultado foi a constatação, em Niterói, na região metropolitana, de três casos de mayaro. É um vírus de circulação silvestre, oriundo das Regiões Norte e Centro-Oeste, cuja presença nunca tinha sido registrada no Rio.  O mayaro é originalmente transmitido pelo mosquito Haemagogos, mas os especialistas temem uma urbanização do vírus. Estudos feitos em laboratório já demostraram que o Aedes aegypti (transmissor da dengue, da zika e da chikungunya) seria capaz de também transmitir o mayaro.

“Já nos reunimos com o pessoal da Fiocruz e da Secretaria de Saúde”, explicou o epidemiologista Roberto Medronho, da UFRJ. “Queremos fazer um trabalho conjunto de pesquisa para saber se o mayaro já se estabeleceu no Rio. Temos esses três casos em Niterói, mas ainda não sabemos se foi apenas uma visita ou uma vinda em definitivo. Tendo em vista os sintomas semelhantes, existe essa possibilidade. Kits de diagnóstico já foram solicitados.”

Outro vírus raro, que provoca sintomas semelhantes aos do chikungunya e do mayaro, também está sendo pesquisado pelo Laboratório de Virologia, embora não tenha ainda sido identificado no Rio. Trata-se do oropouche, com ampla distribuição nas Américas do Sul e Central.

“Na verdade, originalmente, todos esses vírus vivem nas florestas e são transmitidos entre primatas não humanos, num ciclo restrito a ambientes silvestres”, explica o virologista Renato Santana Aguiar, do departamento de genética da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “O nosso grande medo é quando eles começam a vir para as zonas urbanas. Isso ocorre à medida em que os homens adentram as florestas, são infectados e trazem os vírus para as cidades, onde passam a ser transmitidos por outros mosquitos, de circulação urbana.”

Embora tenham letalidade muito baixa, os vírus são extremamente debilitantes. Causam dores nas articulações que pode se prolongar por meses. Não há tratamento específico nem vacinas disponíveis.

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