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WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Rio e Niterói anunciam fechamento de comércio não essencial para combater a covid-19

Novo decreto, orientado pelos comitês científicos dos dois municípios, valerá de 26 de março a 4 de abril

Caio Sartori, Fabio Grellet e Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

22 de março de 2021 | 18h10

RIO - Todos os serviços não essenciais dos municípios do Rio e de Niterói, na região metropolitana fluminense, ficarão fechados por dez dias, a partir da próxima sexta-feira, 26, até 4 de abril. Nesse período, deverá vigorar um superferiado prolongado em todo o Estado. O fechamento dos serviços não essenciais vale só para as duas cidades e foi anunciado nesta segunda-feira, 22, pelos prefeitos do Rio, Eduardo Paes (DEM), e de Niterói, Axel Grael (PDT). As restrições, orientadas pelos comitês científicos dos dois municípios, são uma tentativa de combater a  expansão da covid-19. Para os dois mandatários – que praticamente romperam com o governo estadual no combate à pandemia -, o ritmo de expansão da doença é alarmante e ameaça inviabilizar o atendimento médico.

A capital e Niterói têm 42% da população do Estado. Os dois prefeitos tentaram convencer o governador interino, Cláudio Castro (PSC), a adotar as restrições no Estado inteiro ou ao menos em toda a região metropolitana. Mas Castro, aliado do presidente Jair Bolsonaro, é contra o fechamento do comércio. No sábado, 20, o governador se reuniu na residência oficial do Palácio Laranjeiras com empresários e fechou uma proposta mais branda de feriadão. Ela prevê que comércio, bares, restaurantes e shopping centers funcionem, com horários mais reduzidos e público restrito. A iniciativa irritou Paes que no domingo, 21, em nova reunião com Castro e Axel, deixou claro que se sentia traído pelo que considerou uma manobra do governador para emparedá-lo e também ao prefeito de Niterói.

Nesta segunda, o governador chegou a dizer que vai recorrer à Justiça contra as restrições adotadas na capital e em Niterói. Paes disse acreditar que o governador vai mudar de ideia. No início da noite, Castro enviou à Assembleia Legislativa projeto de lei, que deve ser votado nesta terça, 23, para criar três novos feriados. Somados a dois fins de semana, à antecipação dos feriados de 21 e 23 de abril para 29 e 30 de março e à Semana Santa, completarão o “folgão” de dez dias.

Os decretos dos dois municípios determinam que bares, restaurantes e quiosques só podem atender por meio de entrega, sem consumo no local. O comércio não essencial de rua, as lojas não essenciais de shoppings, clubes, boates, salões de beleza, cinemas e parques de diversão devem ficar fechados. Será permitido o funcionamento de supermercados, padarias, farmácias, igrejas, transportes, consultórios médicos, serviços funerários, pet shops, lojas de material de construção, entre outros.

“Esses dez dias não são uma festa, não são para comemorar nada. É a única forma de evitar mortes por covid-19”, afirmou Paes. “Se pudesse fazer média com todo mundo seria ótimo, mas às vezes é preciso tomar medidas duras, e não tenho problemas em fazer isso, principalmente se for para salvar vidas.” O prefeito  lamentou a postura do governador. “Respeito a posição dele, o problema é que ela impacta os meus munícipes”, disse.

A discordância sobre as medidas de restrição causaram o primeiro atrito público entre Paes e Castro desde o início da gestão do prefeito, em janeiro. O Estado mantém pelo menos até o próximo dia 26 a regra que obriga bares e restaurantes a fechar às 23h e a proibição de permanecer em espaços públicos das 23h às 5h.

Castro não quer impor novas medidas de isolamento e é contra o fechar bares e restaurantes. Isso gerou críticas de Paes e de especialistas. Estes avaliam que a ideia de antecipar feriados com bares abertos e praias liberadas em outras regiões do Estado pode incentivar aglomerações. À TV Globo, o governador em exercício ameaçou até ir à Justiça contra prefeituras que determinarem o fechamento desses locais.

Mais cedo, à tarde, Paes compartilhou essa notícia no Twitter, ironizando a postura do governador: “CastroFolia!  A micareta do governador!  Definitivamente ele não entendeu nada do objetivo de certas medidas”, escreveu o prefeito. 

A discordância entre Castro e Paes vinha crescendo nos últimos dias. Na reunião no domingo, eles chegaram a conversar em tom tenso. Paes chegou a chamar o governador de “Excelência” (o que em geral é sinal que está irritado) e disse que Castro criara uma “sinuca de bico” para ele e Axel. Na prática, o governador interino - que substitui Wilson Witzel (PSC), afastado por corrupção e enfrentando processo de impeachment- se cacifou junto a empresários. Queria chegar forte ao encontro e tentar impor sua posição,  na avaliação de  Paes.

Desde a ´posse, o governador se aproximou dos Bolsonaros na tentativa de se fortalecer. Agora, se alinha ao presidente, reproduzindo, no Estado, o confronto do presidente com o Rio Grande do Sul, Bahia e Distrito Federal, que processa no Supremo Tribunal Federal (STF). Em entrevista ao Estadão publicada na sexta, Castro deu sinais claros de seu alinhamento ao governo federal. Ele tenta se equilibrar entre o discurso de quem segue “a técnica” no combate à pandemia e a lealdade ao presidente, crítico ferrenho das medidas de isolamento. 

Quando anunciou o fechamento das praias da capital, na sexta, Paes disse que gostaria de criar um “consenso metropolitano” antes de proibir locais de maior contágio, como shoppings e academias, Lembrou que a cidade conta com expressiva mão de obra de moradores de municípios vizinhos. Começou, ali, a mandar indiretas sutis ao governador, antes de perder a paciência nesta segunda. 

O prefeito também demonstrou insatisfação com a falta de iniciativas econômicas do governo federal para permitir que as pessoas fiquem em casa. Apesar de ter perfil político marcado pelo pragmatismo e por não gostar de conflitos, Paes chegou a rebater, pelo Twitter, Bolsonaro, que havia criticado o fechamento das praias.

Especialistas defendem medidas enérgica sde isolamento

As medidas mais restritivas anunciadas por Paes, e de Niterói, Axel Grael, para o combate à covid-19 foram bem recebidas por especialistas. Já o governador pretendia manter fechadas praias e escolas, mas permitir o funcionamento de comércio, bares, restaurantes e shoppings em horários reduzidos e com público limitado. Para epidemiologistas, essa é a pior solução, porque estimula as aglomerações e a circulação do vírus. Ainda assim, dizem os especialistas, dez dias de fechamento total é pouco. O mínimo considerado ideal é de 14 dias, para que a lotação dos hospitais comece a baixar. Paes e Axel pretendem examinar os efeitos da parada total no fim do feriadão, para avaliar o que farão.

“Feriadão com tudo aberto não ajuda em nada; só concentra os casos positivos dentro de casa no fim de semana em família”, garantiu o infectologista Alexandre Naime Barbosa, da Unesp. “Ou fecha tudo por três a quatro semanas ou não adianta a gambiarra.”

O infectologista Fernando Bozza manifestou-se em linha semelhante. “O mínimo ideal é duas semanas, mas dez dias é melhor do que nada”, afirmou. "Enquanto o processo de vacinação não for acelerado, não tem jeito, tem de restringir a circulação mesmo.” 

O epidemiologista Daniel Villela, da Fiocruz, concorda com os colegas. “A situação do momento requer medidas mais enérgicas. Medidas de supressão e bloqueio da transmissão, uma combinação de medidas de restrição de atividades não essenciais”, afirmou.  “Essas medidas têm de ser sustentadas por um tempo. E com auxílio para setores afetados, como o auxílio emergencial e para pequenos negócios. O ideal é que as ações sejam coordenadas entre esferas de governo", defende. 

 

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