Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Rio em clima de guerra é ‘exagero midiático’

Para porta-voz do Estado-Maior da operação militar, não se vive ‘guerra’ na capital

Entrevista com

Roberto Itamar Cardoso Plump

Luiz Maklouf Carvalho, O Estado de S.Paulo

30 Agosto 2017 | 03h00

O coronel da reserva Roberto Itamar Cardoso Plump, porta-voz do Estado Maior da operação massiva das Forças Armadas no Rio de Janeiro, disse ao Estado que é "um exagero meio midiático" a imagem de que a cidade vive em clima de guerra. "Não é bem assim, não quer dizer que o morador não possa ter uma vida normal", explicou. "Eu mesmo sou morador de Copacabana, e levo uma vida tranquila, como a maioria dos moradores das zonas não controladas pelo tráfico".

O coronel, de 59 anos e avô de dois netos, é pós-graduado em comunicação e marketing. Quando foi para a reserva, em 2011, já somava 37 anos de Exército - onde entrou, com 16, na escola de cadetes de Campinas. Especializou-se na área de comunicações - para a qual acabou voltando, a convite, para atuar, por exemplo, nos Jogos Olímpicos.

Ele recebeu o Estado na manhã da quarta-feira, 23, no 8º andar do sempre monumental Palácio Duque de Caxias, sede do Comando Militar do Leste, na região central. À paisana - calça vinho e blazer cinza, sem gravata - fez um balanço da megaoperação, que nesta segunda-feira completa um mês. Contou, por exemplo, que não houve deslocamento para o Rio de Janeiro de nenhum militar de outras praças. "São todos lotados no Rio", disse. O contingente militar no Estado é de 40 mil integrantes - e daí é que foram deslocados os quase quinze mil usados nas quatro operações realizadas até aqui. Na próxima - mantida em sigilo -, será a mesma coisa.

O Estado está há dez dias circulando a pé, de metrô, de VLT, em horários diversos, incluindo a noite, por parte da zona sul do Rio - Catete, Flamengo, Largo do Machado, Botafogo, Copacabana, Centro. Não vimos nenhuma cena de violência, muito menos de guerra, e sim um clima de tranquilidade. 

A verdade é que qualquer coisa que acontece no Rio, às vezes de menor gravidade, acaba ressoando para o Brasil e para o mundo. A impressão das pessoas que estão fora é que a cidade tem um assalto a cada esquina, que você anda se esquivando de balas perdidas pela cidade, que você não possa sair, andar pelas ruas, que não possa sair e ir a uma boate, a um cinema. Fica a impressão de que o Rio de Janeiro vive uma guerra - e não é bem assim. Essa imagem de guerra é um exagero meio midiático, não corresponde à realidade.

E qual é a realidade?

Existem sim algumas áreas de maior risco, de maior perigo, dominadas pelo tráfico, dominadas pela bandidagem. Existe moleque de rua, como existe em toda a cidade, existem moradores de rua - que tem aumentado muito, consequência talvez da crise social e econômica -, existem assaltos, roubos de carro, como existem em toda cidade do mundo. Mas quando acontece no Rio de Janeiro, ganha uma repercussão maior. Em consequência até disso, as organizações criminosas ganharam uma visibilidade que para elas é uma demonstração de poder quando aparecem na mídia nacional e internacional. 

Como é que o sr. definiria, geograficamente, o Rio tranquilo, e o Rio dominado?

Toda a cidade do Rio de Janeiro pode ser considerada uma cidade normal, exceto nas áreas dominadas pelo tráfico, as comunidades, os morros, que as facções ocuparam, e impedem o acesso às ações do Estado. Aí eu incluo, além das facções criminosas, eventuais milícias, que fazem a mesma coisa. 

Que balanço o sr. faz desse primeiro mês de atuação das Forças Armadas, com suas quatro megaoperações? 

Houve uma primeira ação, em toda a área metropolitana do Rio de Janeiro, com 8.500 homens, que fizeram uma ação de presença, para marcar o início da operação e dizer "as Forças Armadas agora vão apoiar as forças policiais". Durou cinco dias. Depois houve três operações: Lins de Vasconcelos, 3.600 homens; depois Niterói, com 2.500, e agora a terceira, no complexo do Jacarezinho e adjacências, com 5.500 homens. São números das FFAA, sem contar as forças policiais.

Qual é a diferença da intervenção de agora para as anteriores - muito criticadas?

Nos grandes eventos anteriores - complexo do Alemão, favela da Maré - foram ações permanentes, ostensivas e duradouras. O Plano Nacional de Segurança Pública, que está sendo aplicado agora, tem uma nova proposta. São ações pontuais, e com objetivos bem definidos, de forma a apoiar os órgãos de segurança pública estaduais.

Com que objetivo?

Para que eles possam, com segurança, realizar as ações ou executarem os mandados de justiça que existem pendentes, como mandados de prisão, ou de busca e apreensão. 

Como é que se define cada ação?

O Estado Maior Conjunto, que foi criado e está sediado aqui, no Comando Militar do Leste, faz um trabalho de inteligência que integra os conhecimentos das forças policiais e militares. Esse trabalho integrado, de inteligência e de planejamento, é que define as ações onde mais houver necessidade. 

Está adiantando alguma coisa?

Não vai ter resultados imediatos. Não será apenas liberando uma área, ou duas, ou três, que se vai resolver o problema da segurança pública em todo o Rio de Janeiro. O que se pretende é, com várias ações, em vários pontos, tentar minimizar ou enfraquecer a criminalidade. Só ações policiais não vão resolver. É necessário que o Estado atue com as ações sociais e educacionais. Toda essa complexidade de medidas é que pretende levar a um resultado ao final aí de um, dois anos, ou talvez até mais, para que o problema de tantos anos possa ser pelo menos minimizado.

Ações que empregam milhares de milhares têm de ter algum resultado imediato, não?

Esse é sempre um parâmetro que se busca, comparar resultados. Mas a gente não pode fazer uma proporcionalidade entre o número de efetivos empregados por forças militares e os resultados obtidos numa certa operação.

Por que não?

Porque existem vários fatores que são utilizados para se chegar a uma conclusão sobre qual efetivo empregar em cada operação dessas. 

Porque as Forças Armadas colocam tanta gente? 

Porque trabalham com um princípio tradicional da guerra, desde a antiguidade, que é o princípio da massa: se um soldado é atingido, cem vão em cima de quem atingiu. É assim que os exércitos trabalham. O princípio da massa e o princípio da manobra, ou seja, a maneira como vai ser empregada, são fundamentais em qualquer operação militar. A massa e a manobra.

Qual é a diferença para os órgãos policiais?

Os órgãos policiais não trabalham com massa. Trabalham com equipe, dois, três, cinco, dez, uma grande operação às vezes vai ter cem. É diferente.

O tamanho da área a ser ocupada também obriga ao emprego da massa, não?

A outra razão de ser desse grande número é o perímetro ser ocupado de modo eficiente. Tem que ter gente para revistar, para identificar, para checar se aquela pessoa é realmente o que  está dizendo, para revistar os carros, os porta-malas. Nessa última operação (no Jacarezinho) até o caminhão do lixo foi revistado. Porque o caminhão do lixo é um excelente meio para a bandidagem sair com material ilícito. Se a tarefa das Forças Armadas for bloquear, cercar, pode ter certeza que isso vai ser feito. Não vai passar ninguém. Então esse trabalho está sendo bem feito. 

O fato de o militar ser treinado para a guerra não potencializa a ocorrência de conflitos?

Essa visão não é correta. A destinação constitucional das Forças Armadas - artigo 42 - prevê o emprego das FFAA na defesa da pátria e na garantia da lei e da ordem. As FFAA brasileiras tem experiências anteriores nesse tipo de operação. Além disso, existiu e ainda acontece, está terminando agora, a experiência do Haiti. Grande parte desses soldados que está sendo empregada aqui passou pelo Haiti. Outro aspecto a considerar é que o treinamento militar é realmente intenso no que diz respeito à guerra, e, também, no que diz respeito aos protocolos de abordagem, aos protocolos de contato com o inimigo. 

Como assim?

Por uma questão de treinamento, de adestramento militar, o militar não atira a esmo. Só atira em alvos. Ele identifica como alvo o agressor e aí é que ele vai atirar. Só aí a redução de risco de bala perdida é muito grande. 

Valeu a pena usar um efetivo tão grande para resultados julgados tão pequenos?

Foram pouquíssimos os casos de tiroteios ou trocas  de tiro nas três operações realizadas até agora. Então, só a presença das Forças Armadas inibe, não há praticamente tiroteio. A bandidagem sentiu-se acuada. A bandidagem entendeu que não existe local onde ao poder de polícia não possa ser exercido. Então os valores que se busca já estão acima dos valores que se pode mensurar com o número de armas apreendidas ou quanto se gastou na operação.

A bandidagem aqui do Rio é muito profissional, tem uma bagagem de velhos carnavais. Nesses momentos em que a repressão fica ostensiva, a bandidagem se retrai inteiramente, os fuzis somem inteiramente, não porque ela se sinta inibida, mas porque não quer confronto. 

Mas inibe temporariamente, embora não resolva o problema.

Esse recuo é uma estratégia da bandidagem - não por uma inibição diante da operação, mas porque decidiu recuar. Quando vocês saem, reaparece a bandidagem, reaparecem os fuzis... Como é que se enfrenta isso? 

É isso que justifica uma forma diferente de enfrentamento do problema, como estamos fazendo agora com o Plano Nacional de Segurança Pública. É diferente das estratégias anteriores. O que se quer é atingir as organizações criminosas na sua infraestrutura de sustentação, na sua organização, na sua articulação, na sua capacidade de se armar, na sua sustentação financeira.

Nessa última operação vocês tiveram uma baixa, não?

Houve um tiro na mão de um soldado, de uma pistola, atiraram mesmo. Mas em três operações, com média de quatro mil homens, um soldado ser atingido na mão não significa praticamente nada. Ele já está medicado, não houve dano maior. 

Qual é a origem dos efetivos que estão sendo usados nas operações?

Todos os efetivos estão localizados no Rio de Janeiro. Não veio ninguém de fora. As Forças Armadas tem 40 mil homens e mulheres aqui no Rio de Janeiro. Empregar 8.500 pessoas para nós é normal.

O sr. está otimista? Acha que agora vai?

O militar tem que acreditar no cumprimento da sua missão. Quem não acreditar, desiste e vai embora. 

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