Rio tem primeira morte de militar do Exército após pacificação

Cabo Michel Augusto Mikami, de 21 anos, foi baleado na cabeça; Pezão diz que 'seguirá firme' na parceria com o governo na Maré

O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2014 | 19h15

Atualizada às 23h09

RIO - O cabo do Exército Michel Augusto Mikami, de 21 anos, foi baleado na cabeça na tarde desta sexta-feira, 28, durante confronto no Complexo da Maré, na zona norte do Rio, e morreu no hospital. Em nota, a Força de Pacificação, que ocupa a Maré desde abril, informou que o militar foi ferido por volta das 13h40, durante ação de patrulhamento na área da Vila dos Pinheiros, “por um tiro disparado por um suposto envolvido com facções criminosas”.

Mikami, que servia no 28.º Batalhão de Infantaria Leve, em Campinas (SP), foi socorrido e encaminhado primeiramente à Unidade de Pronto Atendimento da Vila do João, na Maré, e depois levado ao Hospital Central do Exército (HCE), mas não resistiu. É a primeira vez que um militar morre em confronto com criminosos desde o início da participação das Forças Armadas no processo de ocupação de favelas cariocas para a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) pelo governo do Estado, em novembro de 2010. Na ocasião, foi ocupado o Complexo do Alemão, também na zona norte, onde o Exército permaneceu por um ano e sete meses.

A presidente Dilma Rousseff lamentou a morte do oficial, por meio de nota. “É com pesar que recebi a notícia da morte. Ele morreu no cumprimento do dever, na missão de pacificação empreendida pelo Exército brasileiro. Quero expressar minha dor e minha solidariedade à família e aos amigos de Michel”, diz a nota.

O governador Luiz Fernando Pezão divulgou nota à noite em que lamenta a morte e presta solidariedade à família do militar, além de afirmar que “seguirá firme” na parceria com o governo federal na Maré. “Nada nos fará recuar", diz Pezão no fim do comunicado. Também por meio de nota, a Força de Pacificação informa que, “a despeito dos fatos, continuará no cumprimento de sua missão, a fim de contribuir para o restabelecimento da paz social no Complexo da Maré”. “O Exército Brasileiro se solidariza com a perda e informa que está prestando todo o apoio necessário aos familiares da vítima”, acrescenta a Força.

Blindado. Além da ação que resultou na morte do cabo, integrantes das Forças Armadas informaram ter participado nesta sexta de outro confronto na Maré em que um blindado caiu dentro de um canal na localidade conhecida como Conjunto Esperança. O motorista teria perdido o controle do tanque ao fazer uma manobra em alta velocidade. Ninguém foi preso.

Cerca de 130 mil pessoas vivem nas quinze comunidades da Maré. Uma semana após a entrada das Forças Armadas, em abril, um rapaz de 18 anos, suspeito de tráfico, foi morto com tiros de fuzil na comunidade. Na ocasião, a Força de Pacificação afirmou que o jovem havia trocado tiros com soldados e resistido à prisão. Desde então, confrontos têm sido frequentes. No fim de setembro, a Avenida Brasil foi interditada por tanques blindados durante tiroteio entre traficantes e fuzileiros navais. No início deste mês, escolas fecharam por causa dos tiros e mais de 4 mil alunos ficaram sem aulas. Cerca de 2.700 integrantes das Forças Armadas participam da operação na Maré, que fica entre a Avenida Brasil e a Linha Vermelha, duas das principais vias do Rio.

A ocupação da Maré foi solicitada pelo governo do Rio a dois meses da Copa do Mundo. Inicialmente ela ocorreria até julho, mas foi prorrogada até 31 de dezembro pela presidente Dilma Rousseff a pedido do governo estadual. Pezão pretende prorrogar novamente a ocupação militar, que é criticada por órgãos de defesa dos direitos humanos. Para a ONG Observatório de Favelas, que atua na Maré desde 2001, ela reforça a opção do governo pela militarização e acirra a lógica do confronto na comunidade. Pelo menos 80 civis já foram presos por crimes militares desde o início da ocupação - são acusações como desacato, desobediência e lesão corporal. Cerca de 350 foram detidos sob acusação de crimes que serão julgados pela Justiça comum. A reportagem não conseguiu contato na noite desta sexta com o Ministério da Defesa. 

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