WILTON JUNIOR/ ESTADÃO
WILTON JUNIOR/ ESTADÃO

Rio tem primeiro dia de desfiles neste domingo

Um dos destaques é a representação de Jesus pela tradicional Mangueira; tom crítico marca apresentações

Fábio Grellet e Daniel Silveira, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 20h28
Atualizado 24 de fevereiro de 2020 | 06h59

RIO - Sete escolas de samba se apresentam na noite deste domingo, 23, e madrugada de segunda-feira, 24, na Marquês de Sapucaí, no Rio.

O espetáculo começou às 21h30, com o desfile da Estácio de Sá, que reestreou na elite do carnaval carioca neste ano com um enredo sobre pedras.  O tema foi desenvolvido pela experiente Rosa Magalhães, que, aos 73 anos, é a carnavalesca campeã de títulos no Sambódromo (o período a partir de 1984, quando ele foi inaugurado). Venceu 1994, 1995, 1999, 2000, 2001 e 2013, além de um título anterior, em 1982. A partir das pedras, Rosa abordou o ciclo do ouro em Minas Gerais, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, crenças indígenas e até a lua.

Antes das 23 horas, teve início a apresentação da segunda escola a desfilar: a Unidos de Viradouro, atual vice-campeã do carnaval.  Sediada em Niterói (Região Metropolitana do Rio), a Viradouro estava na segunda divisão até 2018, quando venceu. Em seu retorno à elite, com o carnavalesco Paulo Barros, só perdeu para a Mangueira. Barros saiu, e a escola contratou dois carnavalescos menos experientes, mas permanece entre as favoritas e contar a história das Ganhadeiras de Itapuã.

Eram mulheres escravizadas que no século XIX vendiam comida e lavavam roupas na lagoa do Abaeté, em Salvador. Com o dinheiro arrecadado, elas compravam a liberdade de outras mulheres submetidas ao cativeiro. A partir dessa narrativa, a escola exalta o empoderamento feminino. As últimas alas serão só de mulheres. O último carro alegórico fará uma homenagem ao grupo musical Ganhadeiras de Itapuã, criado em 2004 para resgatar canções de suas antepassadas.

Em seguida, será a vez da Estação Primeira de Mangueira, vai contou a saga de Jesus Cristo como se ele nascesse nos dias atuais, no morro da Mangueira (zona norte do Rio), onde fica a escola. “É o Jesus humano, a pessoa de família pobre que viveu na periferia, não aquele personagem consagrado, produto da veneração criada depois”, avisou o carnavalesco Leandro Vieira, de 36 anos. Em quatro anos na escola, ele conquistou dois títulos (em 2016 e 2019), um quarto e um quinto lugares.

Jesus foi representado de várias maneiras, com atores como Humberto Carrão, um pastor (Henrique Vieira) e uma mulher, a rainha da bateria Evelyn Bastos, que estava com grande parte do corpo coberto e não sambou durante o desfile. No quarto carro alegórico, Jesus foi representado numa escultura de dez metros de altura em que um menino negro pobre aparece crucificado. A alegoria desfila 31 anos depois que o Cristo Redentor caracterizado como mendigo foi proibido de ser exibido e fez sucesso coberto com um plástico preto onde se lia “Mesmo proibido, olhai por nós”, em desfile histórico da Beija-Flor do carnavalesco Joãosinho Trinta. 

A cantora Alcione representou Maria, mãe de Jesus, e o cantor e compositor Nelson Sargento foi José, o pai. O samba fez uma referência política no verso “Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem messias de arma na mão”. É uma menção ao presidente Jair Messias Bolsonaro (sem partido), que adotou como símbolo de sua campanha à Presidência a arma simbólica, com a mão de dedo indicador esticado.

Inspirada no poema “O Rei que Mora no Mar”, de Ferreira Gullar, a Paraíso do Tuiuti promoveu um encontro imaginário entre Dom Sebastião - coroado rei de Portugal aos 3 anos, em 1557, e desaparecido em uma batalha contra os mouros, aos 24 anos, gerando lendas sobre seu ressurgimento - e são Sebastião, soldado romano martirizado e padroeiro do Rio.

A escola mostrou lendas que envolvem o desaparecimento do rei de Portugal e seu possível aparecimento no Maranhão, em forma de  um boi que aparece em noites de lua cheia. E também contou um pouco da  história do santo católico que é padroeiro da cidade do Rio de Janeiro.

A Grande Rio foi a quinta escola a desfilar e fez uma homenagem a Joãozinho da Goméia, pai-de-santo baiano que em 1948, aos 34 anos, se mudou para Duque de Caxias, na Baixada Fluminense onde fica a escola. Negro e homossexual, Joãozinho superou preconceitos e fez muito sucesso. Atendeu Getúlio Vargas (1882-1954), a sogra de Juscelino Kubitschek, a cantora Ângela Maria (1929-2018), entre outras personalidades. Também se apresentou como dançarino no Cassino da Urca e chegou a participar de filme.

A escola defendeu o samba-enredo "Tata Londirá: O canto do caboclo no quilombo de Caxias" e fez um desfile em defesa da tolerância religiosa. À medida que cantava a história de Joãozinho, desde seu nascimento em Inhambupe, interior da Bahia até sua chegada em Caxias, mostrou sua relação com entidades religiosas do culto afro-brasileiro. Além disso, fez uma passagem por sua vida artística.

Famosa desde o fim dos anos 70 do século passado por tratar de temas leves e divertidos, hoje a União da Ilha mudou radicalmente. Na estreia de Laíla como diretor de carnaval, a escola da Ilha do Governador (zona norte) falou sobre a dura rotina das favelas do Rio. A escola enfrentou a dificuldade de ter um carro emperrado durante o desfile, que teve que ser empurrado pelos componentes da escola, o que fez a União ter problemas na evolução e harmonia, atrasando um minuto no fechamento do desfile, que deve refletir em punição. 

O enredo partiu de uma mulher negra, moradora de uma comunidade pobre e grávida que imagina os desafios que seu filho enfrentará ao longo da vida. O carro abre-alas retratou uma favela, e os ritmistas da bateria da escola foram vestidos como alunos da rede pública. Estudantes são alvos recorrentes de balas perdidas durante tiroteios nas comunidades.

A escola apostou no realismo e levou um ônibus de verdade como alegoria, que teve uma encenação de sequestro durante a passagem pela passarela do samba. Outros aspectos que demostram a dificuldade de populações mais pobres também apareceram como pessoas vivendo nas ruas e desempregados, em contraste com a riqueza de  políticos e poderosos. No fim das contas a União da Ilha apostou na educação como saída para as mazelas da vida.

A primeira noite de desfiles terminou com a exibição da Portela, que contou um pouco de como era o Rio antes da chegada dos portugueses. A escola também retratou a degradação ambiental a que foi submetida a antes paradisíaca baía de Guanabara. O samba da agremiação de Madureira faz uma referência velada a dois governantes: “Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo nem se curva a capitão”. São menções ao prefeito Marcelo  Crivella (Republicanos), que é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus, e ao presidente Bolsonaro, capitão reformado do Exército.

A escola entrou na passarela do samba com o dia começando a nascer e, por conta disso, abusou das cores ao invés de efeitos de luz, muito comuns em outras agremiações. A águia da Portela veio no carro abre-alas com um mecanismo nas asas inspirado na robótica. 

Domingo (23 de fevereiro)

Previsão de horário do início dos desfiles

21h30 – Estácio de Sá

Enredo: "Pedra"

22h30 / 22h40 – Viradouro

Enredo: “Viradouro de Alma Lavada”

23h30 / 23h50 – Mangueira

Enredo: “A Verdade Vos Fará Livre”

0h30 / 1h – Paraíso do Tuiuti 

Enredo: “O Santo e o Rei: Encantarias de Sebastião”

1h30 / 2h10 – Grande Rio

Enredo: “Tata Londirá – O canto do caboclo no quilombo de Caxias”

2h30 / 3h20 – União da Ilha

Enredo: “Nas encruzilhadas da vida; entre becos, ruas e vielas, a sorte está lançada: Salve-se quem puder!”

3h30min / 4h30min - Portela

Enredo: “Guajupiá, Terra Sem Males”

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