Fabio Motta
Fabio Motta

Rio tem trimestre mais violento em cinco anos

Nova crise na segurança altera rotina de cariocas e demonstra força do tráfico

Roberta Pennafort e Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

RIO DE JANEIRO - Às 23 horas de 1.º de maio, o motoboy Marcos Vinícius Gonçalves Monteiro, de 19 anos, saía de uma feijoada na casa de amigos de infância, na favela Cidade de Deus, na zona oeste. Mais cedo, acompanhara a mãe à igreja, transportara passageiros, passara em casa para dar um beijo na filha, de 3 anos. Ao deixar a festa, esbarrou em uma operação policial. Acabou baleado na barriga, em situação ainda não esclarecida. Morreria no dia seguinte, no Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra. Foi mais uma vítima da rotina violenta dos cariocas, que nos últimos meses piorou ainda mais. São assaltos, confrontos armados, balas perdidas, mortes.

“A violência triplicou. Sempre teve, mas agora não tem mais limite. E quem está pagando são os moradores, são trabalhadores. Os tiroteios não têm hora, são no horário de saída da escola, quando o povo chega ou sai do trabalho”, diz X., de 31 anos, amiga de Marcos. “Às vezes, volto do trabalho e não tenho como entrar na comunidade. Às vezes, alguém abriga a gente. Minha mãe já ficou à noite em uma escola, esperando passar o tiroteio”, conta ela. 

O último boletim do Instituto de Segurança Pública (ISP), braço estatístico da Secretaria de Segurança, mostra que os números da criminalidade no primeiro trimestre de 2017 foram os piores dos últimos cinco anos. Os registros da letalidade violenta – homicídios dolosos, roubos seguidos de morte, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de ação policial – chegaram a 1.867 em janeiro, fevereiro e março. Foi um aumento de 28,6% na comparação com o mesmo período do ano passado.

“Não é surpresa essa situação que se seguiu à morte das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Elas estão na cova, só falta botar a pá de cal. Foram importantes, mas não uma grande virada”, diz Daniel Cerqueira, economista e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), autor de estudos nesta área. “Agora temos uma situação caótica. Somos um barco à deriva.”

Críticas. Após os ataques da semana passada – quando traficantes tentaram invadir a Cidade Alta, em Cordovil, e ordenaram que ônibus e caminhões fossem incendiados –, o secretário de Segurança, Roberto Sá, criticou veladamente as UPPs. Ex-subsecretário de José Mariano Beltrame, idealizador do projeto, Sá admitiu que o programa, nascido para que a polícia se aproximasse dos moradores das comunidades e retirasse de circulação o armamento pesado dos traficantes, foi “ousado demais”. 

Segundo estudo liderado pela socióloga Maria Isabel Couto, da Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em dez anos a violência se espalhou pelo interior e se intensificou na Baixada Fluminense. 

“De 2006 a 2011, vimos a tendência de diminuição dos indicadores de criminalidade em todo o Estado. A partir de 2011, os índices se acentuam na Baixada e no interior, o que é um problema para a estratégia da segurança pública”, avalia Maria Isabel. “No caso das UPPs, as mortes violentas baixaram muito no início, mas 2013 foi um ponto de inflexão. A nossa hipótese é que houve um problema de gestão. Elas cresceram demais, e abandonaram o projeto inicial, de mudança de cultura do enfrentamento. É muito difícil reverter o quadro de perda de credibilidade das UPPs.”

Comandante da PM em 2014, o coronel da reserva Ibis Silva também aponta 2013 como marco negativo na história das UPPs. Foi naquele ano que PMs da UPP da Rocinha assassinaram o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, cujo corpo nunca foi achado. “A gente está vivenciando um colapso da política pública de segurança, sem que a secretaria consiga frear isso. O que está acontecendo tem relação com a crise financeira e política, mas as raízes têm que ser buscadas em 2012.”

Para entender a situação, é preciso olhar para a crise financeira e social pela qual o Estado e o País passa, explica Cerqueira. Segundo um estudo de sua autoria, a relação entre a taxa de desemprego e o aumento da violência é direta, quando se fala de jovens, faixa etária em que mais se mata e mais se morre. No grupo dos 18 aos 24 anos, um aumento de 1% no desemprego eleva em 2,1% a taxa de homicídios dessa população; entre 25 e 29 anos, aumenta em 3,8%. Nos últimos dois anos, foram perdidos 417 mil postos de trabalho com carteira assinada no Rio. 

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'Não tenho nada com a guerra', diz moradora

Na Cidade Alta, madrugada de intensos tiroteios entre facções criminosas apavora comunidade; desde o fim de 2016 ambiente ficou mais tenso no local, que é estratégico por causa da proximidade com vias expressas

Clarissa Thomé, O Estado de S.Paulo

07 Maio 2017 | 05h00

RIO DE JANEIRO - Mais ou menos ao mesmo tempo em que o motoboy Marcos Vinicius Gonçalves Monteiro era baleado na Cidade de Deus, um grupo de 130 criminosos ligados ao Comando Vermelho tentava tomar o controle do tráfico de drogas da Cidade Alta, comunidade da zona norte dominada pelo Terceiro Comando Puro.

A madrugada foi de intensos tiroteios entre as facções criminosas, com moradores apavorados, insones. Ainda assim, o marido de Maria – eles pediram para ter a identidade preservada –, de 30 anos, saiu cedo para o trabalho, às 7h30. Deixou a mulher em casa com os cinco filhos do casal, com idades entre 9 e 17 anos. Dez minutos depois, 26 homens invadiram o imóvel. Fugiam da Polícia Militar, que interviera, e dos rivais.

Os criminosos estavam armados com fuzis e pistolas. Um deles havia sido baleado no pé. Eles se espalharam pelos dois pisos da casa. Alguns trocaram de roupa. Maria encostou-se em um canto da casa, abraçada aos filhos. 

“Não foram agressivos. Só pediram pra gente calar a boca. Eu ficava tentando fingir para os meus filhos que estava tudo bem, você sabe como é mãe. Mesmo apavorada, eu tentava demonstrar que estava calma, mas meu corpo todo tremia”, contou.

A casa de Maria foi cercada pela polícia e os invasores acabaram se rendendo, após negociação. Dos 32 fuzis apreendidos na Cidade Alta naquela terça-feira passada, 17 estavam na casa dela. Maria e o marido compraram o imóvel há quatro anos.

“Nunca tinha acontecido nada ali. Nem viciado tem na minha rua. O pior de tudo é que não tenho para onde ir. Tenho medo de sair de casa e invadirem, acharem que está abandonada. Eu sou só uma trabalhadora. Não tenho nada com essa guerra”.

Do fim do ano passado para cá, o ambiente na Cidade Alta ficou mais tenso. Houve tentativas de invasão da comunidade, estratégica por causa da proximidade com vias expressas. É por elas que passa três vezes por dia o motorista de ônibus Marcelo (nome fictício), de 31 anos.

No trajeto, que corta a Linha Vermelha e a Avenida Brasil, ele passa pelas favelas do Complexo da Maré, Nova Holanda, Parque União e Maré. Depois passa pela Kelson’s, Parque das Missões. Por fim, pega a Rodovia Washington Luiz. Na terça-feira, o ônibus dirigido por Marcelo foi parado. “Roubaram minha mochila, meu celular. Mandaram as pessoas descerem e jogaram gasolina. Foi um desespero. Passageiros se jogavam por cima uns dos outros.” 

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