FABIO MOTTA/ESTADAO
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Rio terá novo apoio da Força Nacional; operações de ajuda chegam a 2 por ano

Desde 2004, apenas o Pará recebeu mais vezes as tropas federais em seu território do que o Estado fluminense, que também lidera no número de recusas

Constança Rezende, Roberta Pennafort, Anne Warth e Marco Antônio Carvalho, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2017 | 03h00

RIO, SÃO PAULO E BRASÍLIA - No que classificou com uma “participação mais incisiva e direta” do governo federal diante da mais recente crise de segurança pública no Rio, o ministro da Justiça, Osmar Serraglio, confirmou nesta quarta-feira, 3, que atenderá ao pedido do Estado e enviará mais cem homens da Força Nacional, além de agentes da Polícia Rodoviária Federal. O reforço consolida o Rio como um dos Estados que mais solicitaram o reforço desde a criação da tropa, em 2004, com média de duas operações por ano.

A capital e cidades da região metropolitana viveram momentos de tensão nesta terça, após uma ação da polícia contra o tráfico de drogas motivar a reação de criminosos, que terminou com o incêndio de 11 veículos. Diante da situação, Pezão voltou ao governo federal com o pedido de ajuda, respondido nesta terça. “Há uma preocupação do governo com os eventos no Rio de Janeiro, o que motivou uma participação mais incisiva e direta da Presidência da República, ainda que a segurança sejam uma atividade primordialmente dos Estados”, afirmou o ministro Serraglio.

O Rio perde apenas para o Pará no número de vezes que teve tropas da Força Nacional em seu território. Desde 2004, ano de criação da força federal, foram ao menos 22 operações desenvolvidas no Estado. O Rio também ocupa posição de destaque entre as unidades que tiveram pedido de apoio negado nos últimos dois anos: o Estado lidera com sete recusas.

Apesar da indicação de apoio, a quantidade de policiais que serão enviados foi alvo de críticas de especialistas em segurança pública; 125 já estão no Estado atuando na segurança do Palácio da Guanabara e na Assembleia Legislativa, após a sequência de protestos de servidores públicos no fim de 2016. 

“Qual é o tamanho dessa ajuda em relação ao tamanho do Rio? Não é disso que precisamos. Este reforço não vai resolver nenhum problema. Precisamos é de uma política de segurança pública articulada e de um trabalho de prevenção e inteligência, que não está acontecendo hoje”, criticou Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Candido Mendes.

Julita argumentou que a ajuda do governo federal seria mais útil se resultasse no pagamento de salários dos policiais militares, do 13.º salário e de outras contas da polícia em atraso. “Hoje, com o caos financeiro do Estado, a polícia não tem dinheiro nem para pagar a gasolina das viaturas e as delegacias estão sem papel. Também não estão sendo pagas as gratificações dos policiais”, lembrou a especialista.

Para Paulo Storani, antropólogo e ex-oficial do Batalhão de Operações Especiais (Bope), o número é insuficiente para resultar em algum benefício no policiamento. Ele sustenta que o melhor seria que o governo federal fiscalizasse as fronteiras para coibir a entrada de armamento.

“Hoje, o governo não fiscaliza. As armas entram com facilidade pelo Centro-Oeste do País. Este é o nosso problema principal. Deve ser feito um trabalho de inteligência para resolver isso. Apenas na terça-feira, na operação na Cidade Alta, foram apreendidos 32 fuzis. Isso não é aceitável”, disse.

Invasão. A facção criminosa Comando Vermelho (CV) reuniu cerca de 150 traficantes pra invadir a Cidade Alta, na zona norte do Rio, na noite de segunda-feira, revelou a polícia nesta quarta. O objetivo da quadrilha era retomar o controle da venda de drogas dos rivais do Terceiro Comando Puro (TCP).

A investida, que apavorou os moradores da comunidade e desencadeou a queima de onze veículos e o bloqueio de vias importantes da cidade, já havia sido tentada “cinco ou seis vezes” pelos bandidos desde o fim do ano passado, afirmou o Departamento de Polícia Especializada do Estado. Nessas ocasiões, a polícia se antecipou aos criminosos e conseguiu impedi-los.

“Eles foram preparados para chegar com vantagem numérica, para derrotar rivais que estão vigilantes e tomar uma área grande. O número de 150 homens pode parecer absurdo, mas não me surpreende”, disse Geovan Omena, delegado assistente da delegacia da Penha.

Quando o setor de inteligência da Polícia Civil recebe esse tipo de informe de movimentação de criminosos, seja em meio a investigações ou via denúncia, ele é repassado imediatamente ao Estado Maior da Polícia Militar, disse o diretor de Polícia Especializada, Marcelo Martins. A PM então desencadeia uma operação, em geral de madrugada, para que os bandidos sejam levados a desistir da invasão.

“Esse trabalho de inteligência não aparece quando (a invasão) está 100% abortada, ninguém fica sabendo”, explicou o delegado.

A Cidade Alta é cobiçada pelo tráfico por estar localizada em área estratégica, próxima das rodovias Presidente Dutra e Washington Luiz, que levam a São Paulo e Minas Gerais, e também às margens da Avenida Brasil e perto da Linha Vermelha. Ou seja, uma região com vias importantes que servem ao transporte de armas e drogas. Nesta terça, as vias amanheceram com o policiamento reforçado.

Cinco mil crianças não foram à escola por causa da violência no Rio, sendo 1.858 na Cidade Alta e Vigário Geral, na mesma região.

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Jacqueline Muniz, O Estado de S.Paulo

04 Maio 2017 | 03h00

RIO - A chegada anunciada de cem novos integrantes da Força Nacional ao Rio, onde já estavam cerca de 125, se mostra mais como um aceno político sem consistência estratégica e tática do que uma reação adequada ao problema da segurança pública. Isso ocorre se notarmos, primeiro, que o número representa, na prática, que em torno de 50 homens e mulheres estariam à disposição, em razão das escalas de pessoal e material.

O número pode significar, por exemplo, a composição de dez grupos táticos, com cada equipe tática contando com cinco ou seis indivíduos. Para que esse contingente possa produzir algum efeito é necessário a designação de uma missão específica e de curto alcance. Um exemplo seria o suporte tático a uma atividade de cumprimento de mandados de prisão e apreensão em curso pelas polícias estaduais. É uma medida pontual para a qual a tropa funcionaria.

Para o policiamento convencional, há limitações. Se notarmos, a Avenida Brasil, só ela, tem cerca de 60 quilômetros de extensão e corta 26 bairros, com mais de 70 entradas e saídas. Com cada grupo tático cobrindo de seis a sete quilômetros, a pronta-resposta da tropa ficaria reduzida somente à extensão da avenida. Mas o problema que assistimos recentemente acontece no arco metropolitano e se estende a outros bairros e rodovias. Nota-se que é um recurso caro, porque o custo com deslocamento e manutenção é elevado, e pode não ser efetivo.

Como esse contingente, que mal teria condições de cobrir toda a Avenida Brasil pode fazer diferença faria efeito na segurança? A resposta é a sua aplicação em operações especializadas, deflagradas pela atividade de inteligência. É fantasia acreditar que a tropa será capaz de cumprir a missão que está sendo dada a ela nessa circunstância. A sua aplicação ocorre agora muito mais para produzir um efeito moral e simbólico de que alguma coisa está sendo feita do que diante de estratégia clara de policiamento. 

O Rio vive de crises e as fabrica como um modo de escamotear o fato de que não desenha políticas públicas para a área, políticas que enfrente a realidade à luz de um diagnóstico constituído. Há um problema de planejamento e de gestão em que é mais fácil para o governante insistir na crise, porque é nela que qualquer remédio serve, até os com prazo de validade vencido, como é a Força neste caso.

*JACQUELINE MUNIZ É PROFESSORA DO DEPARTAMENTO DE SEGURANÇA PÚBLICA DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE (UFF)

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