Rua São Miguel

‘Como um prefeito não pode passar por uma rua de sua cidade? Após a UPP do Borel, devo ter sido o primeiro a passar por ali em pelo menos 20 anos’

Eduardo Paes, Prefeito do Rio

25 Novembro 2010 | 00h36

A Tijuca é um dos bairros mais aprazíveis do Rio. Entre as diversas ruas simpáticas e arborizadas daquele bairro, está a São Miguel. É por lá que se faz o trajeto mais curto entre a residência oficial do prefeito do Rio, na Gávea Pequena, e o Centro Administrativo São Sebastião, sede da prefeitura, na Cidade Nova.

No primeiro dia em que dormi na residência oficial, causou-me estranheza o fato de, na ida ao trabalho, o motorista ter evitado o caminho mais curto e escolhido ir pela Rua Conde de Bonfim, pelo menos 15 minutos a mais de viagem. Obviamente chamei sua atenção. E a resposta que recebi foi a de que a equipe de segurança do prefeito não permitia. Por questões de segurança, aquele que foi eleito pelo povo carioca para representá-lo não poderia passar pela Rua São Miguel porque ali ficava também a comunidade do Borel.

Naquele momento me dei conta mais do que nunca do absurdo da situação: como um prefeito não pode passar por uma rua de sua cidade? Esse relato mostra bem como determinadas regiões da cidade viviam e ainda vivem. E aqueles que moram lá? O prefeito e muita gente passam por ali apenas se puderem ou se desejarem correr riscos. Os moradores do Borel, não. Eles tinham de se submeter a um poder paralelo diariamente.

Mas, no início deste ano, foi instalada a UPP do Borel. Uma bela manhã, logo depois da ocupação daquela comunidade pelo Estado, passei orgulhosamente pela São Miguel. Devo ter sido o primeiro prefeito em pelo menos 20 anos.

Neste momento em que a cidade e a região metropolitana são atingidas por atos de barbárie de marginais, essa história nos ajuda a compreender um pouco mais do que estamos de fato vivendo. O Estado e a sociedade sabem que as coisas não podem e não precisam ser do jeito que vinham sendo. Melhor: esses delinquentes também percebem que as coisas não serão do jeito antigo.

A reação é natural: atos de terrorismo sem racionalidade econômica e que buscam colocar as autoridades constituídas no córner, com o objetivo de desacreditar as políticas públicas que vêm sendo implementadas com sucesso.

São situações difíceis e que nos assustam a todos. O que não podemos é esmorecer. Nunca se disse que seria uma tarefa fácil. Ao contrário, passou-se a acreditar pela primeira vez que ela era possível. A responsabilidade final é sempre dos governos, mas a compreensão e o apoio da população nesses momentos são fundamentais.

Teremos ainda, sob o comando do governo do Estado, um longo e doloroso percurso, mas que tem de ser percorrido. Todos nós, cariocas, queremos transitar livremente pelas ruas. Hoje passo todos os dias pela Rua São Miguel e posso ver ali a gente trabalhadora do Borel acordando cedo para o batente. A São Miguel é para mim o símbolo de um Rio de paz. De um Rio que volta a sorrir e ter perspectivas em direção ao futuro. E me atrevo a afirmar, em meu nome e do governador, que essa é uma guerra que vamos vencer.

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