'Sabemos que não temos um pingo de valor para a sociedade e para as autoridades'

Edson*, sargento, 44 anos, há 19 anos na PM do Rio, atualmente lotado numa Unidade de Polícia Pacificadora da capital

Depoimento dado a Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2017 | 12h39

*O nome foi trocado a pedido do policial

"A situação é aterradora. Sou vocacionado. Tem que ter coração pra trabalhar, é um ideal que não posso deixar para trás depois de quase 20 anos. Um ideal de consertar a sociedade, uma vontade de justiça. Ainda tenho essa esperança, mas na atual conjuntura sei que é difícil, por causa do descaso do Estado e da impunidade dos bandidos. No sábado passado, perdemos a cabo Elisângela (Cordeiro, assassinada na folga), que eu conhecia e que era uma excelente mãe de família. Eu chorei. Ela estava fazendo um extra (vendendo batata frita) para poder viver. Temos o segundo pior salário do país, só perdemos para Tocantins. É difícil envergar a farda ouvindo chacota da população. É uma situação ridícula: falam que Polícia não presta, que ganha mal. Mas todos precisam da Polícia. Sabemos que não temos um pingo de valor para a sociedade e para as autoridades. Não temos perspectivas. Trabalho num local violento como punição por não ter pago uma propina para um superior, mesmo sendo na época o melhor do batalhão. A UPP veio para dizimar o policial. Já levei um tiro na femoral e corri o risco de ter a perna amputada. Subo e desço o morro levando tiro, colegas já morreram assim. Os traficantes fazem 'tiro ao pato' com a gente, é assim que chamam. As Forças Armadas vêm e não resolvem, porque não têm prática alguma de guerrilha urbana. Se eu parar de ser policial, fico sem chão. Venho de uma família de quatro irmãos policiais. Perdi um deles há 20 anos, e mesmo assim fiz concurso, escondido da minha mãe. Meu irmão estava pegando o ônibus para chegar ao quartel às 6 horas. Foi rendido, sequestrado e executado. E mesmo assim a Polícia não reconheceu (como morte em serviço), e minha mãe até hoje não recebeu nada. Agora, meu irmão caçula também fez concurso, e, mais uma vez, escondido de todos. Ele passou, mas não foi chamado ainda por causa da crise do Estado. Tomara que não entre. Minha mãe tem os joelhos marcados, é o dia inteiro ajoelhada fazendo novena pela gente".

Procurada para se manifestar sobre a morte dos policiais, a Secretaria de Segurança Pública do Rio não se pronunciou.

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