FABIO MOTTA/ESTADÃO
FABIO MOTTA/ESTADÃO

‘São cruéis dos dois lados, estão ali para matar e morrer’

Moradora da Rocinha, na zona sul do Rio de Janeiro, relata rotina de medo e confrontos na favela

O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2017 | 03h00

O governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou nesta quarta-feira, 20, que soube antes da possibilidade de confronto entre traficantes na favela da Rocinha, na zona sul do Rio. Ele contou que ordenou que a polícia não interviesse, para evitar mortes de inocentes. Mas o conflito deixou três mortos e três feridos e a comunidade se mantém receosa como se vê abaixo no depoimento de Lúcia (nome fíctício).

“Desde a quinta-feira passada a gente foi avisado que a qualquer momento teria confronto. O Nem (o traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, preso em Rondônia) mandou recado dizendo que o Rogério (Avelino, o Rogério 157, chefe do tráfico na comunidade) tinha de sair da Rocinha até domingo. Rogério não saiu e disse que o Nem teria de vir da cadeia até o morro, para tirá-lo.

No domingo, às 6 horas, começaram os fogos, para avisar que ninguém poderia sair de casa. Umas 9h30 começou o tiro, muito tiro mesmo, correria, pessoas fechando seus comércios rapidamente. A gente em casa, sem luz nem água, sem poder sair. Os PMs nem se mexiam. Os bandidos passavam por eles e gritavam: “Fiquem quietos que não é com vocês, é entre nós.”

Aqui, tanto bandido quanto policial pega o nosso celular para ver o que tem. O bandido quer saber se tem vídeos com imagens deles. O policial quer ver se estamos ajudando traficante. Os vídeos que filmam da janela e espalham são aterrorizantes: olho arrancado, gente queimada viva, cabeça cortada, pernas espalhadas. São cruéis dos dois lados, estão ali para matar e morrer.

A vida ficou muito cara na Rocinha por causa do Rogério. O pessoal dele cobra R$ 90 pelo botijão de gás. Eles cobram taxa dos donos de supermercados, da água mineral. E passou a ter roubo, estupro, violência doméstica. A gente não pode reclamar com a polícia, até porque a UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) não existe, fica só na rua principal.

Como mãe, fico muito nervosa. Meu filho menor se treme todo quando tem tiro. Segunda e terça-feira não teve aula, só hoje (quarta). Trabalho com o coração apertado, com medo de o mais velho, que cuida dos menores, me ligar para dizer que o tiro voltou. A polícia entra nas casas. Imagina se entram e pegam meus três meninos lá... Tem patrão que não entende, então as pessoas se arriscam a sair, mesmo proibidas, para não serem demitidas. Na segunda-feira, tinha toque de recolher às 17 horas, e meu irmão saiu às 18 horas para o trabalho. Foi obrigado a voltar. Nessas horas, não tem o que fazer.”

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