Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Secretário de Segurança do Rio admite falha da polícia na Rocinha

Roberto Sá afirmou também que foi surpreendido pelas declarações do ministro da Defesa sobre comunicação com governo estadual

Constança Rezende e Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2017 | 13h53

RIO - Dois dias após um tiroteio que se estendeu por cinco horas na favela da Rocinha, na zona sul do Rio, onde traficantes da mesma facção criminosa disputam entre si o domínio sobre o comércio de drogas, o secretário estadual de Segurança do Rio, Roberto Sá, admitiu que a Polícia falhou ao não conseguir impedir a invasão da favela e o confronto, que deixou três suspeitos mortos e três moradores feridos.

 

"Se não foi possível evitar a entrada (de traficantes), houve equívoco. Foi reconhecido pelo comandante, o que não tira o mérito do que eles fazem no dia a dia para a proteção da sociedade", afirmou o secretário, em entrevista à TV Globo. A Polícia Civil informou ontem ter identificado oito traficantes que aparecem em vídeos circulando armados pela Rocinha, mas nenhum foi preso. Nesta terça ocorreram operações da PM na Rocinha e em outras favelas, e o Exército também se mobilizou nas favelas do Muquiço e da Palmeirinha, em Guadalupe (zona norte), para tentar recuperar uma pistola roubada de um sargento.

O secretário Roberto Sá disse ter cobrado do comandante geral da PM uma explicação para a falha. "Eu cobrei o que pode ter acontecido. Havia a notícia da inteligência sobre essa instabilidade, racha na facção. Houve reforço, mas ele confirmou que foi insuficiente, ou que houve falha na operacionalização. Isso já foi identificado por ele", disse o secretário.

 

Vídeos divulgados pelas redes sociais mostram viaturas da PM paradas, enquanto os bandidos fugiam. A PM informou na segunda-feira (18) que não agiu com mais força para acabar com o confronto porque a intervenção poderia vitimar moradores. O confronto foi entre bandidos da facção Amigo dos Amigos (ADA), que lutam pela hegemonia na favela. O secretário assegurou que a polícia não deixará a Rocinha. "Não vamos sair de lá enquanto a situação não for resolvida", afirmou.

Sobre o ministro da Defesa, Raul Jungmann, ter afirmado que estão ocorrendo problemas de comunicação entre as Forças Armadas e o governo do Estado do Rio, ele disse: "A declaração do ministro me surpreendeu. É óbvio que sempre precisa haver ajustes, mas não há nenhum ruído. A comunicação com o ministro é muito boa; com o comandante militar do Leste, melhor ainda, nos falamos quase diariamente. As Forças Armadas têm uma maneira de serem empregadas, e sempre respeitamos. Sempre que temos mandados de busca e apreensão, comunicamos. Fazemos reuniões para planejamento de outras operações. Quero deixar claro para a sociedade fluminense: a relação é a melhor possível." 

A reportagem tentou entrevistar Sá sobre as relações com o governo federal na sexta-feira, 15, e na segunda-feira, 18, mas a resposta foi negativa.

O Ministério da Defesa cogitou suspender a Operação O Rio Quer Segurança e Paz devido a desentendimentos com a Secretaria de Segurança do Rio. O chefe da Polícia Civil, Carlos Leba, chegou a dizer que as Forças Armadas estariam atrapalhando o sucesso das operações integradas, porque os militares atuam de forma diferente. Sá disse que preferia ajuda financeira à ação das forças federais. Essas falas foram mal recebidas pelos militares.

A última operação realizada em parceria entre as forças de segurança federais e as polícias Civil e Militar do Rio ocorreu em 21 de agosto. Durante as três ações realizadas até agora, não foi apreendido um fuzil sequer.

Ontem de manhã o Exército promoveu uma operação nas favelas do Muquiço e da Palmeirinha, em Guadalupe, depois que um sargento da 9ª Brigada de Infantaria Motorizada teve a arma roubada por criminosos que fugiram em direção a essas comunidades. A operação, em que foram usados até veículos blindados, não faz parte do Plano Nacional de Segurança. Um suspeito foi detido. No fim da tarde, a arma foi devolvida por "lideranças comunitárias", segundo o porta-voz do Comando Militar do Leste, coronel Roberto Itamar.

Rocinha. A Polícia Civil informou ter identificado oito criminosos que, em imagens gravadas nos últimos dias na Rocinha, circulavam armados pela favela. Até ontem, nenhum deles havia sido preso. Ontem de manhã o Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, realizou uma ação na Rocinha e no Vidigal, outra favela vizinha. Também houve operações da PM no Morro de São Carlos, no Estácio, no Morro dos Macacos, em Vila Isabel, e nas favelas Chapéu Mangueira e Babilônia, no Leme (zona sul). Dessas comunidades,  teriam saído traficantes que invadiram a Rocinha.

 

No Chapéu Mangueira foram apreendidos um fuzil, uma pistola e drogas. Um suspeito foi ferido durante confronto. Foi internado no Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon.

COLABOROU FABIO GRELLET.

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