Segundo dia de desfiles na Sapucaí é de polêmica na Beija-Flor e Rio ‘surreal’ na Portela

Escola de Nilópolis recebeu R$ 5 mi para falar da Guiné Equatorial; Águia da agremiação de Madureira virá de Cristo Redentor

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2015 | 03h00

 RIO - Alexandre Louzada estreou como carnavalesco aos 27 anos, exatos 30 anos atrás, e já na Portela, a escola de sua devoção. Em 1984, o jovem de Niterói havia visto a azul e branca ser campeã, junto com a Mangueira, na épica inauguração do sambódromo. De lá para cá, a águia, símbolo da agremiação, voou mais baixo. Nesta segunda, 16, a Portela chega para desfilar entre as favoritas, e Louzada quer a redenção.

“Sou portelense e virei carnavalesco aqui. São várias datas. Faz 30 anos que comecei e 45 que a Portela não ganha sozinha. Se eu tiver essa sorte, entro para a história também, seria o único carnavalesco a vencer em quatro escolas diferentes”, afirmou o carnavalesco.

Já campeão pela Mangueira, Vila Isabel e Beija-Flor, Louzada fez os últimos dois carnavais da Portela. A expectativa para 2015 tem três fatores: a boa fase da escola, sob nova direção desde 2013, com mais unidade e melhor gestão financeira (o 3.º lugar de 2014, depois de uma sequência de colocações ruins, é reflexo disso); o samba, considerado um dos melhores do ano; e o enredo, o único das escolas da elite a exaltar os 450 anos de fundação do Rio. 

A homenagem não será tradicional. Louzada imaginou o olhar do mestre do surrealismo, o artista plástico espanhol Salvador Dalí (1904-1989), sobre as belezas e costumes cariocas. “O Rio é surreal de tão bonito”, afirmou o carnavalesco, que transformará a águia no ícone maior do Rio, o Cristo Redentor - será a maior águia da história da Portela, com 23 metros de altura e 22 metros de envergadura -, e mostrará cartões-postais, como o Pão de Açúcar, as praias e o relógio da Central do Brasil. 

O favoritismo da Portela rivaliza com o da Mocidade Independente de Padre Miguel, que desfilou ontem e tem o inovador Paulo Barros, e o das gigantes Beija-Flor e Salgueiro, sempre nos primeiros lugares. Mas à Portela tem sido creditado um trunfo único: a torcida do prefeito Eduardo Paes (PMDB).

Entusiasta do carnaval, Paes, que termina o mandato no fim de 2016, já declarou que não sai da prefeitura - organizadora da festa - sem ver a Portela campeã. A piada gerou desconforto nas outras escolas. Depois, explicou que qualquer suspeição é “uma besteira”, lembrando que é prefeito desde 2009 e nunca viu o sonho realizado. A prefeitura não patrocina a Portela, apesar do enredo sobre a cidade.

Polêmica na Beija-Flor. Neste ano, a escassez de recursos foi generalizada, com o corte dos R$ 500 mil dados pelo governo do Estado a cada agremiação do Grupo Especial, e o atraso nas verbas de patrocínio da Petrobrás, de R$ 1 milhão. Em crise, a empresa prometeu cumprir com o compromisso que mantém desde 2008, mas não havia repassado tudo até sexta-feira. Procurada pelo Estado, a estatal não comentou o assunto.

“Todas as escolas sofreram com isso. A Petrobrás deixou todos na mão”, reclamou um diretor da Beija-Flor, a única que recebeu um patrocínio de peso: R$ 5 milhões, segundo divulgou (R$ 10 milhões, conforme publicado em O Globo). O dinheiro veio do governo ditatorial da Guiné Equatorial, na África Ocidental. O país é comandado há 35 anos pelo bilionário Teodoro Obiang Nguema Mbasogo. Teodorin Obiang, seu filho e um dos vice-presidentes, assistirá ao desfile na Sapucaí.

Pai e filho são acusados de cometer crimes financeiros e oprimir violentamente seus opositores.

“Vamos falar da África como um todo, e não só de um país. No Brasil tem muito ladrão e nenhuma escola fala disso”, afirmou Luiz Fernando do Carmo, o Laíla, à frente do carnaval da escola da Baixada Fluminense, reclamando das cobranças por causa do tema, até mesmo de defensores dos direitos humanos. 

Tijuca sem Barros. A noite é também da União da Ilha, que fará um tributo à beleza; da Imperatriz, que traz a figura de Nelson Mandela para a Sapucaí para falar de liberdade e racismo; e da Unidos da Tijuca, sem Paulo Barros, o carnavalesco mais premiado da atualidade, depois de cinco anos (e três vitórias). 

Com cinco integrantes, a comissão que substituiu Barros fez uma ligação entre a Suíça e Clóvis Bornay (1916-2005), personalidade do carnaval carioca, cujo pai era suíço. Os carnavalescos não se dizem intimidados. “Vamos falar do tempo, do relógio, da precisão, do leite, do queijo, do chocolate. A gente não tem mais a criatividade do Paulo, mas aprendemos muito com ele”, disse o carnavalesco Helcio Paim.

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