Wilton J unior/Estadão
Wilton J unior/Estadão

Sem verba pública, desfile de escolas de samba do Rio exalta tom crítico

Com baixo patrocínio público e privado, não faltarão menções ao prefeito e ao presidente entre as escolas do Rio. E sobrará polêmica

Fábio Grellet/RIO, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2020 | 05h00

Praticamente sem verba pública e sem os enredos patrocinados comuns nos anos 2000, as escolas de samba do Rio poderiam estar em crise, mas conseguiram se reinventar e neste ano vão apresentar desfiles com menos luxo e mais criatividade e crítica social – características tão comuns nos miseráveis primórdios dessas agremiações. 

As verbas públicas comprometiam a disposição para criticar governantes, enquanto os patrocínios criavam enredos que se restringiam a exaltar o dono do dinheiro. Sem amarras e em guerra com o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), que se elegeu apoiado pelos dirigentes das principais escolas e acabou com a subvenção a elas, as agremiações desenvolveram enredos com explícitas críticas sociais para hoje e amanhã.

A exibição mais aguardada é a da Mangueira, atual campeã, que vai contar a saga de Jesus Cristo como se ele nascesse nos dias atuais, no morro da Mangueira (zona norte do Rio). “É o Jesus humano, a pessoa de família pobre que viveu na periferia, não aquele personagem consagrado, produto da veneração criada depois”, já avisou o carnavalesco Leandro Vieira, de 36 anos, que em quatro anos na escola conquistou dois títulos (em 2016 e 2019).

A cantora Alcione vai representar Maria, mãe de Jesus, e o cantor e compositor Nelson Sargento será José, o pai. O samba faz uma referência política no verso “Favela, pega a visão / Não tem futuro sem partilha / Nem messias de arma na mão”, menção ao presidente Jair Messias Bolsonaro.

A Mangueira será a terceira escola a desfilar hoje à noite. Antes dela, o público vai conferir a Estácio de Sá, que volta à elite falando sobre pedras. O enredo parece árido, mas foi desenvolvido pela experiente Rosa Magalhães, que aos 73 anos é a campeã de títulos no novo sambódromo: 1994, 1995, 1999, 2000, 2001 e 2013, além de um título anterior, em 1982. A partir das pedras, Rosa vai falar sobre Minas Gerais, a poesia de Carlos Drummond de Andrade, crenças indígenas e até sobre a Lua.

A segunda escola será a Unidos do Viradouro, atual vice-campeã, que vem sem o carnavalesco Paulo Barros – que agora está na Gaviões da Fiel, de São Paulo. No lugar dele, a escola contratou dois carnavalescos menos experientes, mas segue entre as favoritas e contará a história do grupo musical Ganhadeiras de Itapuã, criado por lavadeiras baianas. A partir do grupo, a Viradouro vai exaltar o empoderamento feminino. As últimas alas serão só de mulheres, e no último carro alegórico deve estar a matriarca e vocalista Tia Maria do Xindó, de 73 anos. 

Depois da Mangueira ainda haverá mais quatro escolas – ao todo, 13 compõem a elite, e neste ano duas devem ser rebaixadas e só uma subir da Série A, permitindo que em 2021 o grupo volte a ter 12 agremiações. Das 13, sete vão desfilar hoje.

Inspirada no poema O Rei que Mora no Mar, de Ferreira Gullar, a Paraíso do Tuiuti promove o encontro imaginário entre dom Sebastião (coroado rei de Portugal aos 3 anos, em 1557, e desapareceu durante uma batalha, aos 24 anos, criando lendas sobre seu ressurgimento) e são Sebastião, soldado romano martirizado e padroeiro do Rio.

A Grande Rio vai homenagear Joãozinho da Goméia, pai-de-santo baiano que em 1948, aos 34 anos, se mudou para Duque de Caxias. Embora negro e homossexual, Joãozinho superou preconceitos e fez muito sucesso: atendeu Getúlio Vargas (1882-1954), a sogra de Juscelino Kubitschek, a cantora Ângela Maria (1929-2018), entre outras personalidades, apresentou-se como dançarino no Cassino da Urca e chegou a participar de filme.

Já a União da Ilha vai discorrer sobre a dura rotina das favelas do Rio. E a primeira noite de desfiles termina com a exibição da Portela, que vai contar como era o Rio antes da chegada dos portugueses. “Nossa aldeia é sem partido ou facção / Não tem bispo nem se curva a capitão”, diz o samba, com menções ao prefeito Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal, e a Bolsonaro, capitão reformado.

Abordagem de drama social abre segundo dia 

O segundo dia será aberto pela São Clemente, que fará ampla crítica social em seu enredo Conto do Vigário, retratando como o povo brasileiro é historicamente enganado. Um dos autores do samba é o humorista Marcelo Adnet.

Em seguida, a Vila Isabel desfilará com Um índio chamado Brasil e o Salgueiro trará O rei negro do picadeiro. A escola de samba da favela da Tijuca, na zona norte do Rio, contará a história Benjamin Chaves, negro que se tornou artista circense ainda na época da escravidão.

A Unidos da Tijuca apresentará um desfile sobre a arquitetura e o urbanismo. O segundo dia dos desfiles no Rio terminará com as apresentações da Mocidade e da Beija-Flor. A escola de Padre Miguel levará para a Sapucaí a vida da cantora Elza Soares. Já a agremiação de Nilópolis apresentará o enredo Se essa rua fosse minha, levando o público a uma “jornada épica” por ruas e estradas que representam os caminhos da “natureza nômade” da humanidade.

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