Fabio Motta / Estadão
Fabio Motta / Estadão

Surfista que morreu pegando onda pode virar santo católico

Jovem seminarista era conhecido em toda a zona sul do Rio pelo trabalho de atendimento aos mais pobres e pela pregação religiosa

Roberta Jansen, O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 03h00

RIO - Um surfista que morreu pegando onda pode se tornar o primeiro santo carioca. Já corre no Vaticano o processo de beatificação de Guido Schäffer (1974-2009), o jovem médico e seminarista que adorava o mar e era conhecido em toda a zona sul do Rio de Janeiro por seu trabalho de atendimento aos mais pobres e sua pregação religiosa.

No último dia primeiro de maio - data que marcou os nove anos de sua morte -, uma missa rezada na Praia do Recreio dos Bandeirantes pelo cardeal arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, comprovou a crescente popularidade da candidatura de Guido ao concorrido panteão dos santos católicos. A bênção das pranchas e uma oração à beira do mar foram os pontos altos do evento, que reuniu mais de mil pessoas na manhã do feriado.

"Entregamos cinco volumes ao Vaticano, mais de 600 páginas, com testemunhos, documentação, material produzido pelo próprio Guido, como seu diário espiritual e suas pregações, e também livros escritos sobre ele", contou o delegado da Causa dos Santos da Arquidiocese do Rio, dom Roberto Lopes, responsável pelo processo de Guido. "Nesta primeira fase, os oficiais do Vaticano estão checando se todo o processo foi realizado de forma correta."

Para que Guido Schäffer seja proclamado beato, será necessária a comprovação de um milagre; no caso, de uma cura que não possa ser explicada pela ciência. Para a canonização, é necessária a comprovação de um segundo milagre, também com o devido aval dos médicos. Este processo é muito minucioso, como explica dom Roberto, e costuma ser lento. Mas no que depender dos seguidores do "santo surfista", como ele já é chamado, não haverá maiores dificuldades.

Quem entra na Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, na zona sul, consegue ter uma noção da importância de Guido na comunidade. Desde que os restos mortais do surfista foram transferidos para a igreja, em 2015, os fiéis se reúnem ali para agradecer as graças alcançadas e render homenagens. A quantidade de velas, flores e ex-votos dão a dimensão da popularidade de Guido.

"Eu sou um dos grandes milagres de Guido", disse Tatiana Ribeiro, de 35 anos, em testemunho prestado na missa rezada na praia do Recreio, no último feriado.

Ela contou que, há três anos, se submeteu a uma cirurgia bariátrica e apresentou uma complicação que, por pouco, não a mata. Chegou a ser levada em estado grave para a UTI, sem que os médicos conseguissem descobrir qual era o problema. Sua mãe sonhou com um jovem que apontava, num exame de imagem, o lugar exato onde havia uma fístula. A mãe de Tatiana não conhecia Guido e só muito tempo depois, vendo um santinho do surfista, reconheceu o jovem que havia lhe aparecido em sonhos.

"Guido era um São Francisco do Rio de Janeiro", compara padre Jorjão, da paróquia da Nossa Senhora da Paz, amigo pessoal de Guido e autor do livro "O santo surfista". "Depois do surfe, nos domingos pela manhã, Guido ia a hospitais de pobres levar pasta de dente, sabonete; ele reuniu um grande grupo de jovens médicos de todas as especialidades para atender os pobres gratuitamente; resgatava a dignidade de pessoas que moravam na rua; atendia os drogados, transformava a vida das pessoas."

História. Guido nasceu em 22 de maio de 1974, em Volta Redonda, filho do meio do médico Guido Manoel Vidal Schäffer e da dona de casa Maria Nazareth França Schaffer. Desde que Guido era muito pequeno, a família de classe média se mudou para Copacabana, na zona sul do Rio. O rapaz passou a juventude entre a escola, a praia e a igreja.

"Eu e meu marido somos católicos praticantes e educamos os nossos três filhos assim; eles sempre seguiram a religião, sempre foram atuantes na igreja", conta Nazareth. "Mas o Guido foi o que mais se destacou. Sempre o vi como uma pessoa especial, muito caridosa, muito atenta às necessidades dos outros, muito diferenciado, sobretudo para a idade que tinha."

Embora tivesse uma participação muito ativa na igreja, Guido seguia uma vida típica de um jovem de classe média criado na zona sul do Rio nos anos 90: se formou em medicina, começou a trabalhar e, namorando sério há alguns anos, chegou a marcar a data do casamento. Foi somente no ano 2000, durante uma excursão religiosa com a família a Roma, que Guido percebeu que deveria seguir o sacerdócio.

O jovem passou os anos seguintes estudando filosofia e teologia. Ele já cursava o quarto ano do seminário e estava prestes a ser ordenado padre, quando morreu pegando onda com amigos no Recreio, no feriado de primeiro de maio de 2009, aos 34 anos. Guido foi atingido na parte de trás do pescoço por uma prancha desgovernada. O golpe o fez desmaiar e ele acabou morrendo afogado. 

"Todo mundo ficou muito espantado com a multidão que apareceu na missa de corpo presente; eram milhares de pessoas, ônibus de todas as partes", relembra padre Jorjão. A missa, na Igreja Nossa Senhora de Copacabana, foi rezada pelo próprio arcebispo do Rio, dom Orani Tempesta, que colocou sobre o corpo do jovem uma estola de padre.  

A manifestação da santidade, explica dom Roberto Lopes, é revelada pelo próprio povo. O bispo só faz acatá-la. 

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