Guarda Municipal do RJ
Guarda Municipal do RJ

Doze ficam feridos em confusão entre fiéis e guardas municipais no Rio

Fiéis foram acusados pelos guardas de fazer pichações no Parque Garota de Ipanema, no Arpoador e conduzidos à delegacia

Fábio Grellet, Daniela Amorim e Jéssica Otoboni, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2018 | 11h59

RIO - Doze pessoas ficaram feridas durante um tumulto entre guardas municipais do Rio de Janeiro e fiéis da Igreja Pentecostal Geração Jesus Cristo na frente da 13ª Delegacia de Polícia, em Copacabana (zona sul do Rio), durante a madrugada desta quinta-feira, 26.

Os fiéis foram acusados pelos guardas de fazer pichações no Parque Garota de Ipanema, no Arpoador (entre Copacabana e Ipanema), e conduzidos à delegacia por conta disso. Enquanto aguardavam para prestar depoimento, os religiosos se desentenderam com os guardas, que atacaram o grupo com cassetetes. Das 12 pessoas levadas ao hospital, 11 foram atendidas e liberadas em seguida, mas um homem de 60 anos continua internado em estado grave, com traumatismo craniano. A Guarda Municipal afastou agentes envolvidos no tumulto e informou que investiga o caso.

+ Quem faz isso não gosta da cidade, diz Doria sobre tinta em estátua

O grupo religioso, cuja sede fica no Santo Cristo, no centro do Rio, é o mesmo que em agosto de 2017 realizou passeata pela zona sul do Rio chamando muçulmanos de "assassinos", "pedófilos" e "terroristas". Nos últimos meses os fiéis têm feito pichações com a inscrição "2070 Jesus voltará. Bíblia sim, Constituição não" por toda a cidade. Na madrugada do dia 21, fiéis foram flagrados e detidos enquanto pichavam essas frases em muros e escultura do Parque Garota de Ipanema. Na ocasião, foram apreendidos dez sprays usados nas pichações.

Nesta quarta-feira, um grupo de aproximadamente 50 fiéis encerrou um culto às 21h30 e decidiu caminhar pela orla de Ipanema. Os fiéis negam ter feito qualquer pichação, e contam terem sido abordados pela Guarda Municipal sob a mesma acusação feita no dia 21. O grupo foi conduzido à 13º DP, que fica em Copacabana mas atende o vizinho bairro de Ipanema.

+ Juízes pedem providências sobre pichações em prédios da Justiça no Rio

Vídeos gravados e divulgados inclusive pelos próprios fiéis mostram que, na calçada em frente à delegacia, o pastor Tupirani da Hora Lores fez um discurso bastante exaltado em que, entre vários xingamentos, criticou os agentes de segurança. Acusado de desacato, ele afirmou que "o (traficante) Fernandinho Beira-Mar já foi acusado de desacato alguma vez? Mas quantas vezes ele já não meteu bala pra cima da porra da polícia? Eu, que sustento a porra da nação, é que desacato, quando sou um pouco mais áspero? Eu não conheço essa porra de desacato não, conheço dignidade, honra, moral e vergonha na cara", afirmou.

Depois disso, segundo os fiéis, os guardas municipais teriam feito provocações, a confusão se espalhou e os religiosos foram atacados com cassetetes. Dos 12 que foram atendidos no Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon (zona sul), o único que permanecia internado até a noite desta quinta-feira era Jorge Alves de Souza, de 60 anos. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, o paciente apresenta "quadro estável" e permanece internado, sem indicação cirúrgica, "em acompanhamento pela neurocirurgia".

+ Mais dois suspeitos de pichar Pátio do Colégio são ouvidos pela polícia

Em nota, a Guarda Municipal afirmou que o grupo "foi flagrado pichando o Parque de Ipanema" e que "Diego Luiz Ribeiro de Figueiredo foi autuado por crime ambiental". "Na delegacia, um grupo de cerca de 40 pessoas questionou a prisão e a ação da Guarda Municipal, e houve confusão". A instituição afirmou ainda que afastou os guardas envolvidos e determinou a abertura de sindicância "para apurar com rigor a postura e as agressões flagradas no vídeo, que não condizem de forma alguma com os preceitos, orientação e os procedimentos operacionais da instituição".

+ Pichadores do Pátio do Colégio são multados em R$10 mil

Também em nota, a Polícia Civil informou que "um grupo foi flagrado pichando o interior do parque (Garota de Ipanema), momento em que foram abordados pela Guarda Municipal. Para auxiliar na condução da ocorrência, os guardas solicitaram apoio da Polícia Militar, que conduziu todos os envolvidos até a delegacia. Ao chegar na unidade policial, o grupo entrou em conflito com os guardas municipais presentes, sendo lavrado o termo circunstanciado de dano e lesão corporal". O caso será investigado pela 14ª DP (Leblon).

Relembre: 'O certo seria explodir', diz pichador do Monumento às Bandeiras

Outros casos. Além da passeata em 2017, o pastor Tupirani da Hora Lores já se envolveu em vários outros atos relacionados à intolerância religiosa. Ele foi condenado a três anos de prisão, em regime aberto, por ter publicado na internet, em 2009, vídeos e postagens que ofendiam autoridades públicas e seguidores de crenças religiosas diversas - católica, judaica, islâmica, espírita, wicca, umbandista e outras -, pregando o fim de algumas delas e ofendendo devotos e sacerdotes. Ele recorreu e o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal, que em março passado negou habeas corpus ao pastor.

A reportagem procurou Lores na tarde desta quinta-feira para se manifestasse sobre os episódios, mas não conseguiu localizá-lo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.