UPP deve acabar com domínio de 30 anos do tráfico na Rocinha, dizem analistas

Considerada estratégica por sua localização geográfica, favela foi dominada por chefes do tráfico desde o início dos anos 1980

Rafael Spuldar, BBC

14 Novembro 2011 | 14h48

A ocupação da Rocinha pela polícia do Rio de Janeiro, realizada no último domingo, deve colocar fim a 30 anos de domínio territorial imposto por diferentes chefes do tráfico de drogas sobre a favela.

Considerada estratégica por sua localização próxima aos bairros da Zona Sul, a Rocinha passou a ser controlada pelos criminosos no início dos anos 1980, quando Denir Leandro da Silva, o Dênis da Rocinha, assumiu a chefia do tráfico no local.

Dênis foi o primeiro traficante a adotar uma lógica "empresarial" para a venda de drogas na Rocinha, ampliando suas atividades e aumentando o lucro. Ele também alternava o uso da força para eliminar seus rivais com ações de assistência aos moradores da comunidade, com a doação de cestas básicas e remédios, entre outros.

Dênis continuou influenciando os rumos do tráfico na Rocinha mesmo depois de sua prisão, em 1987. De dentro da penitenciária de Bangu 1, ele indicava quais criminosos chefiariam as atividades na favela - como em 1988, quando colocou pôs fim a uma disputa de poder ao indicar Ednaldo de Souza, o Naldo, como líder do tráfico.

Guerra do tráfico

A disputa pelo controle do tráfico levou a violentos confrontos entre criminosos ao longo dos anos na Rocinha. Desde a ascensão de Dênis, o comando das operações na favela passou pelas mãos de pelo menos 16 traficantes.

Em 2001, Dênis foi encontrado morto dentro de sua cela em Bangu 1. Neste período, a guerra do tráfico no Rio já estava polarizada entre grandes facções criminosas, as principais sendo o Comando Vermelho (CV) e a Amigos dos Amigos (ADA).

Um dos episódios mais sangrentos da Rocinha foi a disputa entre as quadrilhas de Luciano Barbosa da Silva, o Lulu, e Eduíno Eustáquio de Araújo, o Dudu, ocorrida em abril de 2004. Dudu, ligado ao CV, convocou cerca de 60 homens em diversos morros do Rio para tomar a favela, que estava sob controle de Lulu, aliado da ADA.

O confronto terminou com 15 mortos, incluindo civis e homens do Batalhão de Operações Especiais da PM (Bope). Lulu acabou sendo morto por uma ação do Bope, enquanto Dudu voltou para a cadeia, de onde havia fugido.

Mesmo com a morte de Lulu, a Rocinha continuou controlada pela ADA, desta vez sob a chefia de Erismar Rodrigues, o Bem-Te-Vi. A morte do traficante, ocorrida em 2005 durante uma operação da Polícia Civil, fez com que João Rafael da Silva, o Joca, e Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, dividissem o comando do morro.

A prisão de Joca, em 2007, fez com que Nem controlasse sozinho o tráfico na Rocinha. No entanto, o traficante acabou detido na madrugada da última quinta-feira (10), por policiais militares na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio.

Segundo a PM, Nem tentava fugir escondido no porta-malas de um carro. Mais dois homens foram detidos junto do traficante.

 

 

 

Controle territorial

Especialistas ouvidos pela BBC Brasil consideram que, com a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o tráfico de drogas nas favelas do Rio já está perdendo a característica de controle territorial, imposto com o uso de armamento pesado.

Segundo o sociólogo e professor da UFRJ Michel Misse, o tráfico nas favelas do Rio assumiu este formato devido à pobreza inicial de seus integrantes, o que impede que eles adotem o mesmo modelo usado no resto do mundo, onde as drogas são vendidas, nas palavras do especialista, como um serviço de "delivery".

"(Os traficantes) são camelôs, são ambulantes. Eles não têm capital financeiro, nem capital social para formar uma rede de clientela, então eles são obrigados a montar um ponto de venda fixo, e isso implica em se armar até os dentes para controlar o ponto de venda da ambição de outros", diz Misse.

De acordo com o sociólogo, as UPPs tendem a acabar com este modelo, mas não com o tráfico de drogas. "O grande sucesso das UPPs é o desarmamento (dos criminosos). Já o tráfico continua existindo, em escala muito menor, muito mais discreto", afirma.

A especialista em direitos humanos e integrante do projeto Observatório de Favelas Raquel Willadino também acredita que a retirada do armamento pesado das comunidades é o grande ganho trazido pelas UPPs, assim como o fim da lógica de confronto entre a polícia e os criminosos, que leva, segundo ela, insegurança aos moradores.

No entanto, Raquel diz que a ocupação das favelas pela polícia não será eficaz caso elas não abra espaço para projetos sociais, possibilitando aos moradores definir as prioridades em termos de políticas públicas para suas comunidades.

"A ocupação não pode ser só da polícia, senão isso gera apenas outro nível de controle da vida cotidiana dos moradores", diz a especialista. "Não interessa trocar o controle do tráfico por um estado policial."

 

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