Vereador é preso por cobrar propina para liberar cadáveres no Rio

Fraude ficou conhecida como 'máfia dos papa-defuntos' e, segundo o MP, funciona, pelo menos, desde 2014

Constança Rezende e Fábio Grellet, O Estado de S. Paulo

08 Agosto 2017 | 13h23

RIO - O vereador do Rio Gilberto Lima de Oliveira Sobrinho (PMN) e dois dirigentes do Instituto Médico-Legal foram presos nesta terça-feira, 8, sob acusação de cobrar propina para liberar corpos do Instituto Médico-Legal (IML) de Campo Grande, na zona oeste carioca. A Polícia Civil estima que a quadrilha recebia cerca de R$ 150 mil por mês – em um ano, a chamada máfia dos “papa-defuntos” pode ter arrecadado R$ 1,8 milhão. 

Além do vereador, que é legista da Polícia Civil, foram presos o diretor-geral do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, Sérgio William Silva Miana, e o chefe de administração do posto regional de Polícia Técnica de Campo Grande, Franklin Silva da Paz. Os três foram denunciados por associação para prática criminosa e concussão (extorsão praticada por servidor).

A Operação Cérbero (cão de três cabeças que, segundo a mitologia grega, guardava a entrada do reino dos mortos) incluiu o cumprimento de mandados de busca e apreensão na Câmara Municipal do Rio e nas casas dos acusados. A liberação dos corpos pelo IML é gratuita. A suposta quadrilha, porém, dificultava ao máximo o processo, que acontecia apenas com propina de funerárias. Essas empresas repassavam a cobrança aos familiares dos mortos. 

Para expandir seus lucros, a suposta quadrilha conseguia que hospitais enviassem ao IML de Campo Grande corpos com morte natural, que não precisariam passar pela instituição. Com esse procedimento, aumentavam seu “mercado” – o número de famílias que poderiam ser vítimas das extorsões.

Funerárias. De acordo com as investigações da Polícia Civil, funerárias envolvidas no esquema eram autorizadas a trabalhar na preparação de corpos dentro do IML, o que é proibido. Para isso, os acusados também cobravam propina.

Segundo o MP, a máfia atuava pelo menos desde 2014. Envolvia cinco funerárias e quatro hospitais públicos: os municipais Pedro II, Rocha Faria e Albert Schweitzer e o estadual Eduardo Rabello.

“As investigações mostraram que até funcionários terceirizados, contratados originalmente para manutenção e limpeza, faziam trabalho de auxiliares de necropsia. Eles ajudavam em lavagem, arrumação, preenchimento e maquiagem dos cadáveres para entregá-los preparados, dentro dos esquifes”, informou o Ministério Público, por meio de nota. 

Ainda segundo o MP, recentemente os acusados expandiram o esquema de arrecadação de propina para os demais postos regionais de Polícia Técnica.

Outro lado. Assessores do vereador afirmaram ainda não ter conhecimento da denúncia. A defesa dos outros dois acusados não foi localizada. A Secretaria Municipal de Saúde disse, em nota, que “até o momento não há informações sobre o possível envolvimento de profissionais dos três hospitais municipais citados”. A Secretaria de Estado de Saúde informou que ainda não foi notificada.

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