André Coelho/EFE
André Coelho/EFE

Vila Cruzeiro: Alta letalidade em operação aumenta sensação de insegurança, avalia especialista

Ação realizada na terça-feira deixou ao menos 22 mortos e sete feridos no Complexo da Penha, zona norte do Rio. Caso será investigado pelo Ministério Público

Renata Okumura, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2022 | 11h08

A operação policial que deixou ao menos 22 mortos e sete feridos na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, zona norte do Rio, na manhã de terça-feira, 24, apenas aumenta a sensação de insegurança da população com as ações policiais e não colaboram para acabar com o tráfico de drogas. A análise é de Pablo Nunes, coordenador de pesquisa da Rede de Observatórios da Segurança. 

Considerada a terceira operação mais letal da polícia na história do Rio de Janeiro, durante a ação, uma bala matou Gabriele Ferreira da Cunha, de 41 anos. Ela foi atingida dentro de casa, na comunidade da Chatuba, vizinha da Vila Cruzeiro. Todos os demais mortos, de acordo com a polícia, seriam suspeitos. Seus nomes não foram divulgados. Entre os feridos, quatro estão em estado grave. Outros três têm quadro estável, incluindo um policial atingido por estilhaços. Foi o único agente ferido.

Em entrevista à Rádio Eldorado, nesta quarta-feira, 25, Nunes disse que a operação realizada  matou pessoas que supostamente fazem parte do elo mais fraco da cadeia de tráfico de drogas, indivíduos que poderão ser facilmente substituídos nas próximas semanas.

"Essa operação em nada colabora para a resolução dos nosso problemas de segurança pública. Essas operações que deixam dezenas de mortos só servem para aumentar a sensação de insegurança na população que vai se sentir também insegura em relação a atuação policial. Esse é cotidiano de violação de direitos que vai se somando  sobre esses territórios e fazendo que a relação com a polícia também seja bastante complicada. É bom que se atente que operar e fazer esses confrontos, que vão mirar basicamente nos elos mais fracos da cadeia criminosa, que são os traficantes que vão fazer o trabalho de varejo, não colabora em nada", criticou o especialista.

Segundo ele, a cadeia principal de traficantes permanece atuando de forma impune. "Existe toda uma cadeia que não é investigada, que não é responsabiliza e não é desmantelada. E fazendo isso, a gente não colabora para destituir essas cadeias criminosas e, na verdade, só tira o elo mais fraco, que será substituído de forma fácil daqui há algumas semanas", afirmou Nunes.

Apesar da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de limitar operações em comunidades do Estado durante a pandemia, o secretário da Polícia Militar, coronel Luiz Henrique Marinho, justificou que a operação ainda estava em planejamento, mas surgiu a suspeita de que os traficantes estariam preparando a invasão de outra comunidade. Por isso, decidiu-se pela “operação emergencial”. O secretário disse que a migração de traficantes de outros Estados e de outras favelas, como Jacarezinho, Mangueira, Providência e Salgueiro, estaria ligada à decisão do Supremo.

"A decisão do STF de limitar operações policiais no Rio de Janeiro, na verdade, é uma consequência de um sintoma que é exatamente essa ideia de que as operações policiais não devem ser violentas, pois no fim das contas não solucionam os problemas de segurança. O Rio tem histórico de operações truculentas, não baseadas em inteligência, mas baseadas apenas em armas, troca de tiros e confrontos com grupos criminosos. Um combate que não seja baseado em inteligência e em uma menor letalidade realmente não nos leva ao caminho de controle e de construção de uma segurança pública que promova direitos e não leve à violência para territórios de favelas", avaliou o especialista.

No entanto, ele avalia que observa-se que as forças de segurança estão claramente se posicionando de maneira afrontosa. "Não estão cumprindo decisões judiciais, quase como criando uma forma e própria legalidade para a condução de suas ações. A gente coloca toda a população em risco à medida em que sem levar em consideração decisões judiciais, a polícia vai decidir o que vai fazer ou não durante suas ações. Isso é algo muito preocupante. Mostra que temos desafios muito maiores do que necessariamente lidar com ações diárias que deixam a população com essa sensação de insegurança", avaliou o especialista.

Para Nunes, a Policia Rodoviária Federal, que estava envolvida na operação de terça-feira, poderia ter o papel muito importante em evitar que esses grupos criminosos (de outros Estados) chegassem ao Rio de Janeiro. "Fazendo um controle das vias de acesso, que é algo que a gente sabe que é muito eficaz no controle da criminalidade. Criminalidade que se dá pela circulação de armas e munições que também se utilizam dessas vias para fazer o abastecimento de comunidades e territórios de favelas no Rio de Janeiro. Essas operações em rodovias não há uso de violência, por isso, a Policia Rodoviária Federal poderia ter agido de maneira mais precavida e inteligente no controle dessas vias de acesso", acrescentou ele.

O Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Estado do Rio (MP-RJ) abriram procedimentos investigatórios para apurar a conduta dos policiais na operação. Defensores públicos estiveram na comunidade. No entanto, Nunes cobra uma participação mais efetiva dos órgãos.

"Além das ações policiais violentas que acontecem dia após dia, é importante que o Ministério Público se debruce sobre qual é o plano de segurança pública do Rio de Janeiro e porque essas mortes continuam acontecendo sem que haja a responsabilização dos agentes que produzem essas ações", cobrou Nunes.

 

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