André Coelho/EFE
André Coelho/EFE

Vila Cruzeiro: favela alvo da polícia no Rio teve 8 mortos em operação de fevereiro e já abrigou UPP

Polícia diz que área é dominada por traficantes do Comando Vermelho; complexo de comunidade, onde havia um quilombo no século 19, tem cerca de 40 mil moradores

Rayanderson Guerra, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2022 | 19h45

Os 22 mortos na operação desta terça-feira, 24, no Complexo da Penha, na zona norte do Rio, representam quatro vezes o número de vítimas de tiroteios na mesma região em todo o ano passado, segundo o Instituto Fogo Cruzado. Em 2021, foram cinco mortos em ao menos 64 confrontos naquela área. A maior favela do complexo, a Vila Cruzeiro – cenário da ação desta terça – já fora alvo da maioria das incursões da polícia no ano passado e, há três meses, teve oito mortos em outra blitz.

O Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos e a Ouvidoria da Defensoria Pública do Rio disse que a "alta letalidade" da operação desta terça "levanta suspeita de que uma chacina possa ter sido cometida". O Ministério Público Federal (MPF) também investiga a ação da polícia fluminense. 

A pandemia contribuiu para a queda no número de mortes violentas naquela área. Neste ano, com  a retomada das atividades, a violência voltou a crescer. Os moradores da região já conviveram com pelo menos outras dezessete trocas de tiros na região, de acordo com o Fogo Cruzado.

Com cerca de 40 mil moradores, o Complexo da Penha abriga treze favelas. O território é considerado pela Polícia Militar um dos redutos dos chefes do tráfico do Comando Vermelho, facção que disputa espaço na venda de drogas, armas e roubo de cargas na cidade.

O perfil dos moradores reflete a história da Penha. A região onde hoje fica a Vila Cruzeiro e as demais favelas do Complexo da Penha abrigou, em sua origem, o Quilombo da Penha, no final do século XIX, próximo a Igreja Nossa Senhora da Penha. Com a Abolição da escravidão, os escravos e seus descendentes ocuparam os morros e arredores.

Governo do Estado lançou plano para substituir UPPs

A UPP chegou ao Complexo da Penha em 2012, durante a política de aproximação da Polícia Militar nos governos do ex-governador Sérgio Cabral, hoje preso. Há quatro unidades em funcionamento no complexo de favelas: UPP Fé e Sereno, UPP Chatuba, UPP Parque Proletário e UPP Vila Cruzeiro.

O ambiente de confronto é constante nas comunidades da região. Em fevereiro, oito pessoas morreram durante operação conjunta das Polícia Militar, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal. A ação conjunta tentava prender traficantes que estariam organizando um ataque a bases da PM no Jacarezinho,. Essa comunidade da zona norte que recentemente foi ocupada pelo programa Cidade Integrada, proposta do governador Cláudio Castro (PL) para substituir as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

A operação desta terça se aproxima, em número de mortos, da chacina do Jacarezinho. Na ocasião, uma operação policial deixou 28 mortos em maio do ano passado.

 

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