Mauro Pimentel/AFP - 24/05/22
Mauro Pimentel/AFP - 24/05/22

Vila Cruzeiro: Política do confronto só traz mais insegurança; leia análise

'Como é que uma operação dita planejada provoca mais de 20 mortes?', questiona pesquisador Ignacio Cano

Ignacio Cano*, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2022 | 19h54

A megaoperação na Vila Cruzeiro é mais uma no modelo tradicional que se tem no Rio: a lógica da guerra e da incursão punitiva em "território inimigo". O governo diz que foi uma operação planejada e com inteligência. Planejamento e inteligência deveriam servir para reduzir confrontos e tiroteio. Como é que uma operação dita planejada provoca mais de 20 mortes?

É mais um passo na política bélica de segurança que se tem historicamente no Rio, que só cria insegurança para os moradores. A ação desta terça matou pelo menos uma moradora, que certamente não participou do crime, o que torna o saldo da operação absolutamente inaceitável. Mesmo se participasse, ela teria de ser presa e julgada – não exterminada.

A fala do chefe da PM que relaciona a migração de criminosos com a decisão do Supremo Tribunal Federal (que restringe operações policiais em favelas) só vem a confirmar que o governo do Rio nunca aceitou verdadeiramente nem cumpriu a decisão do STF. A polícia do Rio já disse que essa decisão a impedia de fazer o trabalho, eles foram sempre contrários e vão atribuir a ela qualquer resultado negativo.

É marcante que, em pré-campanha eleitoral, o governo decida fazer esse tipo de intervenção. Está apostando em um projeto de confronto.

Do ponto de vista político, esse governo, que busca reeleição, tem (uma proposta de) cidade segura, integrada, experiências mais semelhantes a UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora, criadas pela gestão Sergio Cabral em 2008, que entraram em crise após 2013), que tenta reduzir os confrontos. Por outro lado, megaoperações com muitos confrontos e mortes.

*É MEMBRO DO LABORATÓRIO DE ANÁLISE DA VIOLÊNCIA DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (UERJ).

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