Wilson Tosta/Estadão
Wilson Tosta/Estadão

Vinte homens armados com fuzis explodem agência bancária no Rio e fogem

Uso desse tipo de arma em crimes comuns tem assustado os cariocas; tiro é capaz de matar uma pessoa a 600 metros

Constança Rezende e Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

18 Agosto 2017 | 11h53

RIO - Armas tradicionalmente usadas por criminosos em áreas dominadas pelo tráfico, os fuzis viraram lugar-comum em crimes de rua no Rio, apesar da operação das Forças Armadas contra a criminalidade. Na madrugada desta sexta-feira, 18, uma agência do Banco do Brasil no bairro da Abolição (zona norte), foi atacada por 20 homens com essas armas, além de explosivos. A quadrilha explodiu os caixas eletrônicos, recolheu dinheiro e fugiu antes da chegada da polícia. O valor roubado não foi informado. A porta e áreas internas da agência ficaram completamente destruídas.

Durante a ação, os criminosos bloquearam as ruas Macedo Braga e da Abolição, onde fica a agência. De acordo com testemunhas, eles gritaram para que ninguém chegasse às janelas para ver o que acontecia. Eles ameaçavam alvejar quem descumprisse a ordem. O assalto, rápido, aconteceu por volta de 3h30. Não há relatos de feridos.

Em 27 de julho, outra agência bancária, do banco Santander, foi alvo de ação idêntica. Pelo menos dez assaltantes armados com fuzis invadiram o estabelecimento na Praça das Nações, em Bonsucesso (zona norte), e explodiram os caixas. Mas, temendo a chegada da polícia, fugiram sem levar o dinheiro. Na fuga, renderam dois motoristas que passavam e usaram seus carros para bloquear as vias por onde escaparam. A porta e uma área interna da agência ficaram destruídas.

Fuzis. O uso de fuzis em crimes comuns tem assustado os cariocas. Esse tipo de arma custa, no mercado negro, de R$ 40 mil a R$ 70 mil, e é capaz de matar uma pessoa a 600 metros. Seus tiros percorrem quase quatro quilômetros - o potencial de estrago é muito maior do que de um revólver, portanto. Se conservado adequadamente, dura cerca de 50 anos.

“Tradicionalmente o fuzil era usado em favelas, em áreas dominadas pelo crime organizado, para defender seu território”, conta o sociólogo Ignacio Cano, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). “Esse tipo de arma é facilmente visualizado e tem longo alcance, por isso é usado nessas áreas onde a polícia não entra”, diz. “Para assaltos no ‘asfalto’, normalmente os criminosos preferiam armas pequenas, que podem ser escondidas. Ninguém anda pelas ruas do Centro da cidade portando um fuzil”, afirma.

Em ações planejadas, porém, quadrilhas têm usado fuzis. No fim da madrugada de 26 de maio, por exemplo, uma quadrilha com esse tipo de arma interditou a Estrada do Joá, que liga São Conrado (zona sul) à Barra da Tijuca (zona oeste), para assaltar motoristas. Um homem que dirigia um utilitário blindado decidiu fugir da abordagem e acelerou. Seu veículo foi atingido por 17 tiros. Dois perfuraram a lataria, mas não feriram ninguém.

“O uso do fuzil foi banalizado porque as facções criminosas têm essas armas em estoque e alugam. O criminoso comum não tem dinheiro para comprar um fuzil, mas consegue alugar, e hoje não tem medo de circular pela cidade com esse tipo de arma”, diz Paulo Storani. Ele é ex-integrante do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da PM do Rio e mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Outro indicativo de que os fuzis têm sido mais usados que as demais armas de fogo no Rio é o significativo aumento no número de apreensões pela polícia. Segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP), órgão da Secretaria Estadual de Segurança, no primeiro semestre deste ano foram apreendidos 305 fuzis em todo o Estado. Trata-se de aumento de 108% em relação ao mesmo período do ano anterior, quando foram recolhidas 146 armas desse tipo, e crescimento de 263% em comparação com os 84 fuzis apreendidos no primeiro semestre de 2009. Foi quando se registrou o menor número de apreensões desse tipo no primeiro semestre, considerada a série histórica iniciada em 2007.

Uma única investigação realizada pela Polícia Civil do Rio resultou na apreensão de 60 fuzis, no aeroporto do Galeão, na Ilha do Governador (zona norte), em 1º de junho passado. As armas haviam sido importadas de Miami, escondidas em embalagens de aquecedores de piscina, por uma quadrilha brasileira já identificada.

A apreensão dos outros tipos de armas, por sua vez, tem caído no Estado do Rio. Foram 4.095 peças, como pistolas, revólveres e espingardas, no primeiro semestre de 2017, queda de 9,2% em relação às 4.539 armas apreendidas no mesmo período do ano passado. Também significou redução de 28% em relação ao primeiro semestre de 2007, menor índice para esse período, na série histórica iniciada em 2007. /COLABOROU WILSON TOSTA

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