Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Zé Ninguém sai dos muros grafitado no Rio e vira livro

Alberto Serrano mudou de Nova York para o Rio após 11 de setembro e passou a deixar sua arte em todos as regiões da cidade

Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

03 Março 2015 | 19h08

RIO - Recém-chegado e ainda tentando se adaptar ao Rio, o quadrinista nova-iorquino Alberto Serrano, o Tito, decidiu levar sua arte para os muros cariocas. Não queria só grafitar, mas contar uma história com princípio, meio e fim, como as dos quadrinhos. Surgia o personagem Zé Ninguém, tipo moreno, de bigode, sempre sem camisa e de chinelos, que “percorria” bairros das zonas sul, norte e oeste em busca de sua Ana.

Foram sete anos de histórias incompletas; 150 grafites espalhados por aí. Da praia de Ipanema ao piscinão de Ramos, dava para saber que Zé Ninguém tinha a companhia de um cão, que havia sido “assaltado” por um pombo. Como cada quadrinho estava num canto da cidade, não se sabia de onde tinha vindo, como havia se perdido de Ana.


Os mais curiosos buscavam pistas da vida do personagem no perfil do “morador de rua” no Facebook - Zé Ninguém tem 15 mil seguidores. Na semana passada, os 150 grafites finalmente foram apresentados de forma ordenada: Zé Ninguém virou livro, lançado pela Edições de Janeiro.

“Eu era um estrangeiro tentando me adaptar. Em seis meses, já conseguia entrar numa lanchonete e pedir um joelho e um refresco. Mas estava tentando entender a cidade e queria um personagem que estivesse passando o mesmo que eu, um sujeito que está vindo de outro lugar”, conta Tito, de 36 anos, que se mudou para o Rio após os atentados de 11 de setembro de 2001, acompanhando a mulher  brasileira. 

Inspiração. Para fazer Zé Ninguém, se inspirou no próprio pai, um porto-riquenho. “Aqui vi pessoas iguais a meu pai: de bigode, short, sem camisa.”  Tito descreve Zé Ninguém como um otimista. “Ele está perdido, não se lembra do que aconteceu com ele, mas sabe que vai encontrar Ana.”

Tito começou a grafitar seus quadrinhos na zona sul - Gávea, Leblon, Ipanema, Copacabana. De lá, seguiu para a região central, zona norte, chegou à zona oeste: Pedra de Guaratiba, Jacarepaguá, Santa Cruz.

Semana passava, grafitava na zona portuária. “Cobri o máximo que pude da cidade.” O quadrinista só enfrentou dificuldades quando desenhou Malu, uma guarda ambiental. “Ela usa uma farda azul. Houve uma certa reação, um estranhamento. Mas fui bem recebido em todos os lugares. Na favela e no asfalto”, conta.

Zé Ninguém, o livro, custa R$ 39,90 e pode ser comprado nas livrarias Saraiva, Cultura, da Travessa, Timbre e Argumento. No fim do volume, mapa informa os bairros em que Tito grafitou, para os que quiserem ver a arte de perto. Mas com um alerta: “Pela própria natureza do grafite, algumas paredes podem não existir mais”. 

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