Tiago Queiroz
Tiago Queiroz

Descoberta de imagem de Nossa Senhora Aparecida completa 300 anos

Santuário Nacional de Aparecida, maior centro mariano do mundo, se prepara para receber fiéis

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

Há 300 anos, uma pescaria se transformou num dos fatos mais importantes do catolicismo brasileiro. Atentos à ordem da Câmara de Guaratinguetá de obter o máximo possível de peixes para recepção do novo governador, três pescadores – Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves – jogaram as redes no Rio Paraíba. Passaram horas sem nada conseguir até que, no Porto Itaguaçu, pescaram uma imagem de barro decapitada. Em seguida, encontraram a cabeça de Nossa Senhora da Conceição. Minutos depois, já havia tanto peixe que mal conseguiam carregar. Décadas depois, a escultura negra de 37 centímetros se tornaria um dos símbolos do País e, já como Nossa Senhora Aparecida, ganharia do papa Pio XI em 1930 o título de Padroeira do Brasil.

Hoje, o Santuário Nacional de Aparecida é o maior centro mariano do mundo em tamanho e o segundo em frequência – só perde para o de Nossa Senhora de Guadalupe, no México. A cada ano, cerca de 12 milhões de romeiros visitam o município de Aparecida, à margem da Via Dutra, distante 180 km de São Paulo. Ali, católicos do Brasil todo se misturam a estrangeiros, que se multiplicaram após a visita de Bento XVI, em 2007. 

A maioria segue a mesma rotina: assistir à missa – são seis por dia de segunda a sexta-feira e sete ou oito aos sábados e domingos – e rezar na basílica, antes ou depois de passar diante da imagem original de Nossa Senhora. É uma fila constante. Devotos contemplam em silêncio a padroeira de manto colorido e coroa de ouro dada pela princesa Isabel, fazem pedidos, agradecem favores e milagres. No subsolo, visitam a Sala das Promessas e podem batizar crianças (e adultos) se pais e padrinhos tiverem feito curso de preparação em suas paróquias. 

O Santuário-Basílica, que é também a catedral da Arquidiocese, está em construção desde 1946. A terraplenagem começou em 1952 e o primeiro atendimento a romeiros foi em 1959. Atividades religiosas só passaram a ser feitas em 1982, quando a imagem foi levada da Basílica Velha para a Nova. Em 1984, quatro anos após ser consagrado por João Paulo II, o local virou Santuário Nacional.

Já a data em que a imagem foi resgatada do Paraíba no século 18 é controversa. O livro História de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, publicado em 1979 por Júlio Brustoloni, diz que é certo que dom Pedro de Almeida, o conde de Assumar, governador de São Paulo e Minas que motivou o pedido dos peixes, ficou em Guaratinguetá de 17 a 30 de outubro de 1717. Outro livro – Senhora Aparecida, de Tereza Galvão Pasin – conta que a imagem foi levada para a casa de Felipe Pedroso, o mais velho dos três pescadores. Seu filho Atanásio fez um altar para Nossa Senhora numa capelinha perto da estrada entre São Paulo e Minas. Todo sábado, alguém aparecia ali para rezar. Logo começaram relatos de milagres, como o das velas que se acenderam sozinhas, do escravo cujas correntes se arrebentaram quando pediu proteção da Virgem Maria e o do cavalo (ou mula) que grudou as patas dianteiras nas pedras da escadaria, quando o dono ameaçou entrar montado na Matriz. Num quarto milagre, uma menina cega de Jaboticabal começou a enxergar. Houve ainda o resgate milagroso de um menino que se afogava no Paraíba.

Segundo anotações guardadas na Cúria Metropolitana de Aparecida, a imagem da padroeira tinha originalmente “tez branca no rosto e nas mãos, manto azul escuro e forro vermelho-granada”. E por que então ficou negra? Documento transcrito por Tereza Pasin levanta uma hipótese: “Pelo fato de ficar por muitos anos submersa no lodo das águas e, posteriormente, exposta ao lume e à fumaça dos candeeiros, velas e tochas, (a imagem) adquiriu a cor que hoje conserva”.

Devoção que se espalha. Em três séculos, a devoção a Nossa Senhora Aparecida, que ganhou esse nome por ter “aparecido” aos pescadores, espalhou-se Brasil afora. Chegou com os tropeiros da Feira de Muares de Sorocaba a Curitiba, Viamão e Laguna no Sul, atingiu as minas de Cuiabá com mineradores, alcançou Goiás com sertanistas. Por 145 anos, até 1888, multidões rezaram aos pés da imagem numa capela de paredes de taipa e pilão erguida pelo padre José Alves Vilella nas encostas do Morro dos Coqueiros. Só em 1888 ela foi reinaugurada como Matriz Basílica. Sem ostentar a riqueza dos altares dourados da época colonial, o primeiro santuário de Aparecida foi tombado pelo interesse histórico, religioso e arquitetônico em 1982. Após restauro, foi reinaugurado em 2015. É a atual Matriz Basílica ou Basílica Velha.

Já a grande basílica às margens da Dutra, que deve lotar neste feriado, ainda continua em obras. A previsão é terminar o revestimento da cúpula central neste mês. Todas as paredes exibem pinturas bíblicas do artista plástico Cláudio Pastro. Ao morrer, em outubro de 2016, ele deixou esboços dos desenhos que faltam. Padres da Congregação do Santíssimo Redentor, que dirigem o santuário e cuidam da pastoral de devoção mariana desde 1894, vão iniciar agora o acabamento externo. Ex-ecônomo, reitor e bispo auxiliar de Aparecida, d. Darci Nicioli afirma que as obras do Santuário não terminarão nunca, “pois sempre haverá trabalho de manutenção e melhorias”.  

O dinheiro chega como doações depositadas em cofres ou depósito bancário. Os padres e o arcebispo de Aparecida, d. Orlando Brandes, pedem contribuição por rádio e televisão. Serviços a romeiros são prestados por empresas terceirizadas, como restaurantes e lojas do Centro de Apoio ao Romeiro, que não podem vender artigos contrários à doutrina católica. A farmácia não vende preservativos, porque a Igreja proíbe controle artificial de natalidade. “Toda a obra do Santuário é bancada por doações dos devotos”, informa o padre João Batista de Almeida, sucessor de d. Darci no cargo de reitor.

O dinheiro arrecadado paga ainda programas sociais e de evangelização. Na comunicação, o Santuário mantém uma rede de rádio, a TV Aparecida, portal, revistas, jornal e a editora Santuário. Um centro de evento para 8 mil pessoas sentadas recebe show, peça, esporte e celebração religiosa. Além de João Paulo II e Bento XVI, o papa Francisco visitou Aparecida em julho de 2013, em sua primeira viagem ao exterior. Prometeu voltar nos 300 anos, mas cancelou por questão de agenda. O presidente Michel Temer insistiu, mas recebeu um não diplomático do Vaticano.

 

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Rio onde imagem foi descoberta ainda sofre com poluição

Cidade de Aparecida lança esgoto no Rio Paraíba, onde pescadores encontraram imagem de Nossa Senhora

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

O Porto de Itaguaçu é a principal atração de Aparecida, depois do Santuário Nacional, com suas duas basílicas. Foi ali, à margem direita do Rio Paraíba, que os três pescadores içaram das águas barrentas a pequena imagem de Nossa Senhora, em outubro de 1717 – primeiro o corpo, em seguida a cabeça. O trecho do rio é esse, embora não seja possível precisar o local exato da pescaria. A cerca de três quilômetros da portaria da basílica nova, que se pode ver no horizonte da cidade, o Porto de Itaguaçu é um parque de 129.337 metros quadrados, com vários atrativos.

Um barco de turismo, com 60 assentos, que sempre navega cheio nos feriados e fins de semana, faz um passeio de 20 minutos com romeiros e turistas, rio acima e rio abaixo, a partir do ancoradouro, onde se compram os bilhetes. Ao longo da viagem, um guia conta a história do encontro da imagem. Foi depois de horas sem nada pescar, porque os peixes eram escassos no mês de outubro, como acontece agora, quando o nível das águas está baixo.

“O rio só enche mais no fim do ano, nos meses de verão”, informa o pescador Sérgio de França Mota, de 41 anos, que lança sua rede no Paraíba desde rapazinho para pescar piaba, lambari, traíra e cascudo. Pesca para consumo, pois o camarão e os peixes mais nobres que ele serve em seu restaurante na marginal direita do rio vêm do mercado. Sérgio tem uma canoa atracada ao lado do barco de turismo e costuma embarcar com romeiros nos passeios pelo rio, quando convocado pelo pessoal da Santo Rio, empresa parceira dos padres redentoristas para exploração do porto.

“O passeio mais emocionante de sua vida”, anuncia uma placa na bilheteria da concessionária, com evidente exagero. Na área do porto, há esculturas dos três pescadores mostrando a cena do encontro da imagem e uma capela. A rua de acesso tem várias lojas de artigos religiosos, predominando as imagens de Nossa Senhora Aparecida.

O pescador e dono de restaurante nasceu e cresceu ali, bem ao lado do rio, que foi dragado e tem oito metros de profundidade naquele trecho, casas modestas na margem direita e mata ciliar na esquerda. Pesca com anzol quase o ano todo, pois rede só é permitida de novembro a fevereiro. A água parece limpa, mas de fato está poluída, com sujeira vinda das cidades vizinhas, apesar de estações de tratamento em São José dos Campos, Taubaté e Pindamonhangaba. Em tese, a água tratada não deveria ter poluição, mas há esgotos clandestinos que escapam à fiscalização.

Aparecida, que tem uma estação de tratamento de construção recente, mas ainda não ativada por causa de supostas irregularidades técnicas, segundo Osmair Toledo, assessor administrativo do Serviço de Água e Esgoto (SAE), lança o esgoto no Rio Paraíba, mas quilômetros abaixo do Porto de Itaguaçu. A empresa espera corrigir as falhas e inaugurar as estação de tratamento nos próximos meses.

É muita sujeira lançada no rio, pois a cidade, de 35 mil habitantes, multiplica a população nos fins de semana, quando recebe em média mais de 200 mil romeiros. “Temos cerca de 300 hotéis, pensões e pousadas em Aparecida, ou 425 somando 18 municípios vizinhos”, informa o presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes, Francisco Viviani, proprietário de um hotel-fazenda em Cunha, perto de Guaratinguetá. São estabelecimentos modestos, cujo nível começou a melhorar após a inauguração do Hotel Rainha do Brasil, de quatro estrelas, construído pelo Santuário. O hotel, de 330 quartos, hospeda os bispos na assembleia anual da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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Policial ferido na perna lidera romaria até Aparecida

'Estado' acompanhou grupo que partiu de Minas Gerais até Aparecida em uma caminhada para agradecer Nossa Senhora Aparecida

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

No começo da noite de uma sexta-feira de carnaval, em 1997, ladrões dirigindo um Santana roubado em São Paulo atacaram um carro-forte que trafegava de Itajubá para Pouso Alegre, na altura de Piranguinho, em Minas Gerais. Horas depois, na madrugada de sábado, os assaltantes em fuga foram parados na cidade vizinha de Consolação. No cerco, houve tiroteio e o sargento da PM Mário Luís Ferreira, que estava na barreira policial, foi baleado na perna direita e na altura do quadril. Depois de 20 anos de tratamentos, cirurgias e orações em busca de recuperação, Ferreira, hoje com 55 anos, percorre a pé os cerca de 120 quilômetros entre a Paróquia de São João Batista, de Cachoeira de Minas, também na região do confronto, e o Santuário de Nossa Senhora Aparecida, que completa 300 anos. 

“É um agradecimento”, diz Ferreira durante a caminhada na madrugada enluarada do último dia 7 de setembro. Ele mostra as cicatrizes das balas, lembra da violência do episódio que quase o matou e conta da agonia de sua luta para sobreviver. “Nossa Senhora pôs a mão em mim naquela hora”, declara. Reformado da Polícia Militar em razão das sequelas dos tiros, nos últimos quatro anos Ferreira tem rezado fervorosamente estrada afora, por três dias e duas noites, acompanhando romeiros na travessia de devotos da santa de Aparecida.

Integrante do grupo de fiéis marianos Movimento Terço dos Homens, Ferreira explica que “o Terço busca o resgate dos homens para a religião”. No fresco amanhecer, quando peregrinos aproveitam o clima ameno das manhãs e o feriado da Semana da Pátria para se pôr na estrada em agradecimento de graças recebidas ou a receber, o PM é seguido por um grupo de mais 11 pessoas, todas em peregrinação. Seguem pela Rodovia Presidente Washington Luís, passando perto da cidade de Roseira, depois de terem percorrido mais de 100 quilômetros num trajeto que consome dois pousos – o primeiro deles em Santo Antônio do Pinhal, já no Estado de São Paulo, e o segundo em Moreira César. 

Com eles pela rodovia deserta, entre as fazendas do Vale do Paraíba, segue o casal de jovens namorados Aline Barbosa, de 33 anos, peregrina de segunda viagem, e o empresário Rodrigo Oliveira Costa, de 31, já na sétima jornada. Outros romeiros, mais reservados, abandonaram os calçados fechados e partilham a ladainha da marcha católica com pés machucados, protegidos apenas com meias e chinelos.  

Um dos mais animados é o aposentado João Batista de Souza, de 70 anos, que vive em Cachoeira de Minas, onde é conhecido pela dedicação à romaria. Seu João organiza o grupo, conhece todas as rezas e sabe cada passo da jornada – faz esse exercício de espiritualidade há quase meio século. Ponteando o grupo à beira da SP-065, ele conta que já fez a travessia 45 vezes, algumas vezes duas por ano. “Quem sabe chego a 50 viagens até a mãe Aparecida”, declara. “Antigamente era tudo por estrada de terra. Agora, é quase tudo asfalto, 85% da romaria é por asfalto.” 

Morungaba. Na mesma noite, tentando chegar à Basílica a tempo de participar da missa das 9 horas, outro grupo de romeiros saiu da pousada dos peregrinos às 3 horas. São 22 pessoas. Caminhando desde Morungaba, na região de Campinas, a 210 quilômetros de Moreira César, estavam havia cinco dias na estrada e não escondiam a alegria e a devoção. Antes da partida para os últimos 17 quilômetros até o Santuário, formaram um círculo diante da pousada e rezaram juntos. Mesmo acompanhados por um carro de apoio, muitos fizeram questão de carregar os próprios pertences em mochilas nas costas. No carro, havia água, mantimentos e calçados extras para eventuais necessidades de trocas durante o trajeto. 

Adilson Roberto Poli, de 55 anos, peregrino na sexta viagem, em agradecimento à santa por promessa feita por caso de doença na família, se emociona a cada vez que fala sobre a caminhada. “Agora falta pouco para ver a mãe Aparecida”, diz ele ao parar para beber água no carro de apoio na altura do km 167 da SP-065. Ao lado dele, Vantuir André da Cruz, de 39 anos, casado, 4 filhos, que repete a romaria pela terceira vez, conta que só tem a agradecer à santa. “Eu cheguei em Morungaba só com a roupa do corpo. Só tenho a agradecer”, diz emocionado. 

No grupo, andam ainda Ana Maria Araújo, de 39 anos, que estreia na romaria “para agradecer”, e Maria Aparecida da Cunha, de 59. Carregando a santa no próprio nome, ela revela que a peregrinação é um agradecimento. “Pelo meu filho, que passou na faculdade.”

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Na sala de promessas do Santuário, fiéis deixam de foto a prótese

Por mês, mais de 19 mil devotos deixam objetos local; administração faz rodízio das peças

José Marua Mayrink, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

São tantos os devotos, mais de 19 mil por mês, na Sala das Promessas, no subsolo da Catedral-Basílica, que a administração é obrigada a substituir as peças menores, em rodízio, para mostrar o maior número possível das provas de gratidão dos devotos. Há cerca de 87 mil fotos grampeadas no teto e centenas de objetos expostos nas vitrinas,  numa área de 1.300 metros quadrado. Manequins de noivas, fardas militares, armas de fogo e maquetes de casas e igrejas testemunham graças e milagres, sem contar a história dos beneficiários que ali deixaram tantas lembranças. Um capacete e um par de luvas de Ayrton Senna, levados pela família, são uma das principais atrações, ao lado de uma mochila que o ator Renato Aragão ofereceu, após uma peregrinação a pé, de São Paulo a Aparecida, em 1999. Um militar identificado como Ornellas no crachá deixou seu uniforme camuflado do Exército dos Estados Unidos, sem mais informações.Os ex-votos chegam a 25 mil nas temporadas de mais movimento. Próteses de órgãos do corpo curados por supostos milagres chegam à recepção e são registrados na secretaria,  antes de serem mostrados ao público.

No corredor de entrada da Sala das Promessas, réplicas da canoa com os três pescadores reproduzem o encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição. Quadros grandes contam os milagres que marcaram a história de Aparecida no século 19 – o cavaleiro sem fé de Cuiabá, cuja montaria ficou com as patas grudadas na pedra da escadaria, quando ele tentou invadir a Matriz Basílica, a ceguinha de nascença que ficou curada ao chegar à igreja, o escravo cujas correntes se soltaram  por intercessão da Virgem Maria, o resgate do menino Marcelino das águas do Rio Paraíba e o fenômeno das velas que se apagaram e voltaram a se acender sozinhas. As correntes originais do escravo, de 7 metros de comprimento e 3,2 quilos de peso, estão expostas no Museu de Nossa Senhora Aparecida, localizado no primeiro e segundo andares da Torre Brasília, cujo mirante, no 16º andar, oferece vista panorâmica da cidade e arredores. 

No mesmo subsolo da Sala das Promessas, os devotos encontram livrarias, lojas e banheiros. Um amplo refeitório, com dezenas de mesas e cadeiras, está sempre aberto para quem traz lanches e marmitas de casa para não ter de comer nos restaurantes do Centro de Apoio aos Romeiros, que servem refeições a quilo. Os preços são camaradas, nada de sofisticado. Uma passarela coberta liga  o Centro de Apoio à Basílica. Entre as construções,  um pátio aberto, pelo qual se precisa caminhar ao relento, sujeito a sol quente e chuvas.

Complemento da Sala das Promessas, a Capela das Velas queima, dia e noite, velas enormes  trazidas pelos romeiros para pedir ou agradecer milagres ou ajuda de Nossa Senhora Aparecida. Devotos caminham com as velas em procissão, cantando e rezando, antes de depositá-las junto ao uma cruz de aço, de 4 metros de altura, obra do artistas sacro Cláudio Pastro, falecido este ano, autor de toda a decoração do interior da basílica. Nos finais de semana mais movimentados, são retiradas em média 10 toneladas de cera derretida na capela.

Museu de Cera. Inaugurado em fevereiro de 2016, o Memorial de Devoção é um centro de entretenimento imperdível para os romeiros que quiserem conhecer um pouco mais a história de Aparecida. O prédio moderno, de 6 mil metros quadrados,  tem 20 cenários e mais de 70 estátuas em tamanho natural, entre as quais as de Padre Cícero e da Beata Irmã Dulce, logo na entrada do complexo. Mais uma vez, a cena do encontro das imagem no Rio Paraíba sobressai entre as atrações, ao lado da reprodução dos milagres históricos do século 19.

Antes de percorrer as galerias e salas de exposição, os visitantes assistem a um documentário de 15 minutos no Cine Padroeira, com dez projetores laser de alta definição,  exibição em 3D, sem necessidade da óculos. O imperador Pedro I, teria visitado a capela primitiva do atual Santuário Nacional dias antes do grito da independência às margens do Ipiranga,  é uma das figuras em destaque do Museu de Cera do Memorial de Devoção.

 

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Após atentato, imagem de Nossa Senhora foi restaurada no Masp

Artista plástica responsável pelo trabalho retornou anualmente para manter à Aparecida para preservar imagem

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

08 Outubro 2017 | 03h00

A pintora, escultora e restauradora Maria Helena Chartuni tinha dez anos de profissão, em junho de 1978, quando o Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo (Masp), onde ela trabalhava, lhe comunicou que deveria restaurar, sozinha, a imagem de Nossa Senhora Aparecida, despedaçada, um mês antes, num atentado. A escolha de seu nome era de Bardi, a quem o brasileiro Deoclécio Redig de Campos, diretor do Museu do Vaticano, indicou para cuidar da restauração em São Paulo, em vez de mandar a imagem para Roma, como pretendiam os padres redentoristas guardiães do Santuário de Aparecida.

“Você vai restaurar esta imagem”, disse Bardi a Maria Helena. A decisão foi tomada sem consulta prévia. A restauradora quase entrou em pânico, quando recebeu na manhã de 28 de junho de 1978, numa caixa de madeira revestida de fórmica branca e forrada de cetim branco acolchoado, os fragmentos da imagem, levados ao Masp pelo então arcebispo de Aparecida, d. Geraldo Maria de Morais Penido, acompanhado dos padres Antônio Lino Rodrigues e Isidro de Oliveira Santos, reitor do Santuário. A santa – de 37 cm de altura, sem a base de prata, ou 39,5 cm com a base – estava esfacelada em mais de 200 pedaços, dos quais apenas 165 aproveitáveis para a reconstrução, sem falar nas partes que se reduziram a pó.

O atentado ocorrera por volta das 20h30 de 16 de maio de 1978, quando um rapaz de 19 anos, Rogério Marcos de Oliveira, supostamente doente mental,  aproveitou a escuridão, em meio a um temporal que deixou a cidade sem luz, para quebrar o vidro do nicho da Padroeira do Brasil no altar-mor da Basílica Matriz e roubar a imagem. Deixou-a cair ou jogou-a ao chão, ao ser perseguido pelos  seguranças do templo. A notícia do atentado causou enorme comoção no País. Os fragmentos foram recolhidos pelos padres, na expectativa de restauração.

Maria Helena iniciou seu trabalho no dia 29 de junho. Fechou-se numa sala do Masp, à qual só tinha acesso o professor Bardi, que mandou trocar o segredo da fechadura da porta e recomendou sigilo aos funcionários. Para a imprensa, constava que técnicos do Vaticano viriam a São Paulo para recuperar a imagem. A informação correta só foi dada no dia 31 de julho, após 33 dias ininterruptos de trabalho. Nossa Senhora Aparecida voltou ao Santuário Nacional em carreata ou procissão. A restautadora descreve como foi essa volta em seu livro A História de Dois Restauros – Meu encontro com Nossa Senhora Aparecida (Editora Santuário, 2016):

“Depois que a imagem saiu de minhas mãos, ela foi conduzida a um caminhão do Corpo de Bombeiros e levada, triunfalmente, até Aparecida, pela Rodovia Presidente Dutra, ladeada por um corredor humano ininterrupto, da Avenida Paulista, desde o Masp, até Aparecida, onde as pessoas a saudavam, rezando e se emocionando às lágrimas, na maior demonstração de fé espontânea que jamais havia visto em toda a minha vida. Naquele momento, a emoção tomou conta de mim e senti , pela primeira vez, que havia tocado em algo sagrado e inexplicável.”

Maria Helena considera ter feito um trabalho perfeito, apesar das dificuldades da restauração, um desfio profissional. A restauradora relata, com detalhes, em seu livro, a técnica empregada, usando material adequado, sempre respeitando o original. “Uma imagem sagrada, de culto, não poderia ser tratada apenas como obra de arte, deixando expostas todas as marcas da destruição, pois chocaria o público devoto e, assim, em conjunto com os padres, decidi assumir uma postura diferente”, informa a restauradora.

O trabalho começou com a identificação dos fragmentos, separando-os em um papel branco encorpado para depois iniciar a montagem. Cada fragmento foi limpado de uma resina de silicone vermelha, usada em passado recente para tirar e vender cópias da imagem. Foi preciso limar pequenos excessos na colagem de escamas internas para iniciar a junção do corpo à base. Com o impacto da queda, as medidas tinham-se alterado.

A imagem de terracota ia adquirindo sua aparência original , à medida que os fragmentos se ajustavam. Maria Helena montou tudo com fita adesiva transparente, antes da colagem definitiva. Usou uma cola argentina (Poxipol), à base de epóxi,  que resiste à corrosão, a ácidos, solventes, produtos químicos e a temperaturas de até 180 graus, produto sem similar no mercado nacional na época.

A restauradora recuperou a cor acanelada que a imagem tinha quando foi pescada no Rio Paraíba. A policromia que provavelmente cobria a pequena Nossa Senhora de terracota havia desaparecido por causa das águas barrentas e pela fumaça do fogão de lenha e dos candeeiros das casas dos pescadores. O reitor do Santuário, padre Isidro de Oliveira Santos, que se considerava um artista, se meteu a retocar a imagem, após a restauração, anulando o trabalho. Alertada por outros padres, que lhe pediram socorro, Maria Helena correu a Aparecida para reparar o mal.

Padre Isidro havia pintado a imagem com tinta de automóvel. Ela foi quatro vezes à cidade da Padroeira para remover a Pintura. O reitor também substituíu o pino de prata que a restauradora havia envolvido em gaze e ceras de abelha e carnaúba para juntar o corpo à cabeça da imagem. Maria Helena achou prudente não mexer em nada, com receio de quebrar a peça. Aconselhou os padres a manusear a imagem o menos possível.

Doze anos após ter deixado o Masp, a restauradora notou algo estranho, ao voltar ao Santuário em 1993. A pátina da imagem estava manchada, como se fosse a pele de onça pintada. O que provocou essa aparência tinha sido a tentativa de fazer forma para a reprodução de cópias. Maria Helena propôs ao novo reitor, padre Jadir Teixeira da Silva, voltar uma vez por ano a Aparecida para fazer manutenção preventiva da imagem. Ela faz essa viagem regularmente, antes da festa de 12 de outubro. Sem  nada cobrar, como ocorre desde  1978, pois nem ela nem o professor Bardi nada receberam pela restauração.

Maria Helena atribui a Nossa Senhora Aparecida uma intervenção, que não chama de milagre, para mudar o rumo de sua vida. Ao explicar o título do livro A História de Dois Restauros, escrito em 2016, a restauradora escreveu: “... o primeiro, evidentemente, foi a reconstrução da imagem, destruída em mais de 200 pedaços, e o segundo foi o restauro de minha vida, que Nossa Senhora, paciente e amorosamente, fez comigo, libertando-me de um caminho tortuoso, por onde eu tinha enveredado”. Católica, Maria Helena disse que sua fé estava adormecida, quando iniciou o trabalho.

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