Rostos, mãos, roupas

Estadão

24 de maio de 2012 | 12h49

Foto tirada no ateliê de L. C. Fattinnanzi

 

 Foto tirada no estúdio de L. C. Fattinnanzi

A composição dos retratos tirados nos estúdios de antigamente costumava ser cuidadosamente pensada – e variar segundo a preferência e a criatividade dos fotógrafos. Repare, por exemplo, nas fotos acima, feitas por L. C. Fattinnanzi, um dos profissionais italianos que trabalhavam em São Paulo no início do século passado. Não bastasse os vestidos e as botinhas das meninas cuidadosamente preparados para o instante da foto, vários objetos ajudam a formar a cena – a pose em cima da cadeira, os tapetes sob os pés, os vasos, cachorros, instrumento musical e outros objetos de decoração. 

 

Mão apoiada sobre um objeto de decoração do estúdio

As mãos eram fundamentais na composição. Muitas mulheres aparecem com elas na cintura, os dedos cruzados à frente do corpo, ou sentadas, com os punhos apoiados nos joelhos. Posar segurando objetos também era um “must”. Ramalhetes de flores – algumas flagrantemente artificiais –, guarda-chuvas (que podiam aparecer na foto fechados ou abertos) e livros (também fotografados abertos ou fechados) não podiam faltar como opção. Para as crianças, estúdios especializados costumavam oferecer triciclos, réplicas em miniatura de carrões, bolas, ursinhos, cavalinhos. O importante era fazê-las parar quietas para o instante da foto.

Criança em foto de estúdio

A expressão do rosto do fotografado é outro detalhe que merece observação atenta. O que se vê na maior parte das fotos deste blog – e nos retratos da época em geral – são fisionomias sérias e contidas. Ou ainda um semblante meditativo ou reflexivo. Poucos mostram sorrisos, talvez porque naquele tempo era preciso congelar a pose por mais tempo do que hoje para que fosse tomada a imagem. Vejam, por exemplo, as expressões desse casal de noivos. Certamente por recomendação do fotógrafo, não sorriem nem fixam o olhar diretamente na lente da câmera.  

Fisionomia séria do casal reflete hábito da época

O traje também era bem planejado. Ao contrário dos registros das ruas, que flagravam roupas de passeio, os figurinos de estúdio pareciam escolhidos especialmente para tirar a foto, sem descuidar do penteado e da pose. Como lembra Maurício Lissovsky, em seu Guia prático das fotografias sem pressa, “nas fotografias feitas em estúdio, homens, mulheres e crianças exibem suas melhores roupas ou aquelas de maior qualidade, disponibilizadas pelos fotógrafos, obrigando-nos a olhar para essas imagens com alguns cuidados. Em primeiro lugar, se a roupa exibida era a mais sofisticada ou rica que o portador possuía ou tinha acesso, constituía-se num traje de exceção: era a roupa da festa, da missa, das idas aos teatros ou das visitas às casas dos amigos”.

Algumas peças costumavam se repetir nas primeiras décadas do século: terno, gravata e sapatos geralmente bem lustrados para homens, vestidos para mulheres. Vejam, por exemplo, os figurinos do retrato abaixo. Ele foi enviado por Marcos Craveiro e tem mais de cem anos. Segundo ele, que já colaborou em outros posts do nosso blog, trata-se de uma foto rara de seus bisavós (em pé, à direita). Foi tirada no dia do noivado deles, em 1907. À esquerda estão sua tataravó Justina e o marido.

Bisavós e tataravós de Marcos Craveiro

Se você também quer ver fotos de sua família publicadas neste blog, basta enviá-las para o e-mail blogalbumderetratos@gmail.com. O envio implica automaticamente autorização para a publicação gratuita das imagens, sem qualquer ônus às partes.

Tendências: