Edison Veiga/Estadão
Irmã Dulce teve o primeiro milagre reconhecido em 2011. Dez anos antes, uma moradora do interior do Sergipe já desenganada pelos médicos se curou de uma grave hemorragia pós-parto após as orações do padre José Almir de Menezes, devoto de Dulce Edison Veiga/Estadão

Canonizada pelo papa Francisco, Irmã Dulce vira Santa Dulce dos Pobres

Além da brasileira, quatro religiosos foram oficializados santos neste domingo na Praça São Pedro, no Vaticano

Edison Veiga, especial para o Estado

13 de outubro de 2019 | 04h58
Atualizado 14 de outubro de 2019 | 12h17

CIDADE DO VATICANO - Às 10h34 (5h34 no horário de Brasília) deste domingo, 13, o papa Francisco oficialmente fez de Irmã Dulce, a Santa Dulce dos Pobres, a 37ª personalidade brasileira canonizada pela Igreja Católica. Ela é a primeira mulher nascida no País a se tornar santa.

A cerimônia, na Praça São Pedro, no Vaticano, reuniu, segundo a guarda local, cerca de 50 mil pessoas e fez outros quatro novos santos: um teólogo inglês, uma freira italiana, uma freira indiana e uma catequista suíça.

"Em honra da Santíssima Trindade, pela exaltação da fé católica e para incremento da vida cristã, com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, e Nossa, depois de refletir por muito tempo, ter invocado a ajuda divina e ouvido a opinião de irmãos bispos, declaramos e definimos santos os beatos John Henry Newman, Giuseppina Vannini, Maria Thresia Chiramel Mankidiyan, Dulce Lopes Pontes (Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes) e Marguerite Bays, e os inscrevemos no registro dos santos, estabelecendo que em toda a Igreja eles sejam devotamente honrados entre os santos", afirmou o papa, no momento solene.

O público aplaudiu fervorosamente.

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Foi visível o número de brasileiros entre os fiéis. Bandeiras do País e trajes verde e amarelo podiam ser notados em todas as partes da praça.

Agraciado pelo milagre de Irmã Dulce presente no Vaticano

Em um dos momentos mais emocionantes da cerimônia, foi exibida uma relíquia de Irmã Dulce: um pedaço de osso de sua costela, impregnado em uma pedra de ametista.

O músico José Maurício, considerado curado milagrosamente por graça de Santa Dulce, estava presente. Foi a recuperação de sua cegueira o milagre decisivo para a canonização da santa brasileira.Na homilia, o papa destacou o fato de que dos cinco novos santos, três eram freiras."Invocamos como intercessores", referiu-se aos novos santos. "Mostram-no que a vida religiosa é um caminho de amor nas periferias existenciais do mundo."

Já o primeiro milagre de Irmã Dulce ocorreu em 2001, quando a sergipana Claudia Santos, hoje com 50 anos, enfrentava uma grave hemorragia após o parto do segundo filho e chegou a ficar em coma, com insuficiência renal. Após a equipe médica usar todos os recursos que poderia, a recomendação foi que se preparassem para a morte.

Comitiva de autoridades brasileiras

A comitiva de autoridades brasileiras foi acomodada à esquerda do altar, em espaço reservado para convidados não religiosos. O vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB); os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP); da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ); o governador da Bahia, Rui Costa (PT); e o prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM), estavam entre os presentes.

Além dos políticos brasileiros, participaram da cerimônia o presidente da Itália, Sergio Mattarella, o príncipe Charles, do Reino Unido, além de autoridades da Índia, da China, da Irlanda e da Suíça.

Antes da missa, o padre brasileiro Antonio Maria, o sanfoneiro cearense Waldonys e a cantora baiana Margareth Menezes tocaram e cantaram a música oficial da canonização da freira brasileira.

Na hagiografia de Irmã Dulce consolidada pelo Vaticano, ela passa a ser apresentada como alguém que "desde a infância, se destacou por uma grande sensibilidade para com os pobres e necessitados".

"Sua caridade era maternal, carinhosa", diz o texto, impresso no livreto da canonização. "A sua dedicação aos pobres tinha uma raiz sobrenatural e do Alto recebia forças e recursos para dar vida a uma maravilhosa atividade de serviços aos últimos." 

O documento ainda afirma que, quando a freira morreu, já gozava de "grande fama de santidade".

Veja como foi a cerimônia de canonização de Irmã Dulce:

Biografia

Nascida em 26 de maio de 1914 em Salvador, Irmã Dulce foi batizada Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes. Era filha de um dentista e professor da Universidade Federal da Bahia, Augusto, e uma dona de casa, Dulce. Perdeu a mãe aos 7 anos e, por isso, decidiu homenageá-la, adotando seu nome na vida religiosa, aos 19 anos - quando ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

Sua vocação para ajudar os mais necessitados se tornou pública na adolescência. Aos 13 anos, ela começou a acolher doentes e moradores de rua em sua casa. O centro de atendimento informal acabou conhecido como "a portaria de São Francisco".

Logo depois de assumir o hábito, tornou-se professora de uma escola mantida por sua congregação. Por formação, Dulce era normalista, oficial de farmácia e auxiliar de serviço social. Deu aulas principalmente de Geografia e História. 

Criou um movimento operário cristão e, um pouco mais tarde, fundou a organização que existe até hoje, com destaque para o atendimento a doentes. 

Irmã Dulce também gostava de artes, principalmente música. Em 1948, fundou o Cine Teatro Roma, palco de shows de grandes nomes da MPB, como Roberto Carlos e Raul Seixas. A religiosa ainda criaria cinemas em Salvador

Ainda em vida, recebeu o apelido de "o anjo bom da Bahia". "Miséria é a falta de amor entre os homens", dizia a freira.

Em 1988, ela foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz.

"O amor supera todos os obstáculos, todos os sacrifícios. Por mais que fizermos, tudo é pouco diante do que Deus faz por nós", é outra de suas frases famosas.

Seus últimos 30 anos de vida foram especialmente difíceis por conta de um enfisema pulmonar, que reduziu sua capacidade respiratória em 70%. Irmã Dulce chegou a pesar apenas 38 quilos. 

Canonização

Na história contemporânea da Igreja, é o terceiro caso mais rápido de canonização: Irmã Dulce se tornou santa 27 anos depois de sua morte. O papa João Paulo II foi canonizado nove anos após a morte; já Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), 19 anos depois. 

O processo de canonização de Irmã Dulce foi iniciado em janeiro de 2000. Na ocasião, seus restos mortais que estavam na Igreja da Conceição da Praia, em Salvador, foram transferidos para a Capela do Convento Santo Antônio, na sede das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), na mesma cidade.

Em abril de 2009, o papa Bento XVI reconheceu suas virtudes heroicas. Irmã Dulce passou a ser considerada então venerável.

Em outubro de 2010, a Congregação para a Causas dos Santos atestou a autenticidade do primeiro milagre atribuído à religiosa - orações para ela, em 2001, teriam interrompido hemorragia de 18 horas de uma parturiente, em Sergipe. Em 22 de maio de 2011, Irmã Dulce foi beatificada em missa presidida pelo cardeal dom Geraldo Majella Agnelo, em Salvador.

Neste ano de 2019, veio o reconhecimento do segundo milagre: a cura de uma cegueira causada por glaucoma, em 2014. Em 14 de maio, papa Francisco anunciou que Irmã Dulce seria canonizada.

Mas o maior milagre de Irmã Dulce tem muito mais de árduo trabalho humano do que de forças divinas. Em 1959, a freira fundou uma instituição filantrópica em Salvador. A Osid é hoje um complexo composto de 17 núcleos, com uma gama de serviços gratuitos que vão de escola de ensino integral a hospital com tratamento de câncer. O centro médico atende a 2 mil pessoas por dia.

Anualmente, são realizados ali 2 milhões de procedimentos, com 12 mil cirurgias e 18 mil internações. Tudo de graça. O complexo realiza 3,5 milhões de atendimentos por ano.

 

 

 

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Autoridades brasileiras acompanham cerimônia de canonização de Irmã Dulce no Vaticano

Pelo menos 25 políticos estão no Vaticano para canonização da primeira santa brasileira; o grupo foi acomodado ao lado esquerdo do altar, espaço reservado para não-religiosos

Ana Luiza de Carvalho, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 07h02
Atualizado 14 de outubro de 2019 | 12h16

SÃO PAULO - Um grupo de pelo menos 25 autoridades e políticos brasileiros está no Vaticano na manhã deste domingo, 13, para a cerimônia de canonização de Irmã Dulce. Oficializada primeira santa brasileira, Santa Dulce dos Pobres nasceu em Salvador, em 1914, e teve a canonização autorizada em maio pelo papa Francisco após o Vaticano reconhecer seu segundo milagre.

 

O governador da Bahia, Rui Costa (PT), publicou nas redes sociais na manhã deste domingo um vídeo filmado na Praça de São Pedro. Acompanhado da mulher, Rui Costa afirma que o momento é de grande emoção para os conterrâneos.

"Este momento não é especial apenas para quem é católico, mas para todos os baianos que acreditam no poder de fazer o bem ao próximo", disse o governador. 

O prefeito de Salvador, Antônio Carlos Magalhães Neto (DEM), também está no Vaticano para acompanhar a canonização de Dulce, que é conhecida no Estado como Anjo Bom da Bahia.

"Pedi que ela continue guiando os nossos caminhos e olhando pelos que mais precisam", afirmou.

ACM Neto alega que pagará os gastos da viagem do próprio bolso. A presença de políticos e autoridades do governo brasileiro na cerimônia, porém, tem sido alvo de polêmica. 

O presidente do Senado FederalDavi Alcolumbre (DEM-AP) postou em sua conta no Twitter uma foto da Praça de São Pedro e afirmou ser 'uma honra inexplicável fazer parte deste momento'. Nas respostas ao tuíte, vários usuários questionaram os gastos com a viagem oficial. "Tá faltando alguma coisa aí? Está bem instalado? Qualquer coisa pode gastar mais!!", ironizou um deles. 

O  vice-presidente Hamilton Mourão (PRTB) também acompanha a cerimônia e postou fotos da comitiva brasileira. O grupo foi acomodado ao lado esquerdo do altar, espaço reservado para não-religiosos. "Irmã Dulce, que com grande amor e fé intercedeu pela saúde e vida de milhares de brasileiros, torna-se Santa de todo nosso Brasil e do mundo!", saudou Mourão.

 

 

Neste sábado, 12, o subprocurador-geral do Tribunal de Contas da União (TCU), Lucas Rocha Furtado, pediu à Corte que investigue os gastos da comitiva oficial do governo no evento. Além de Alcolumbre e Mourão, a comitiva é composta ainda pelo presidente da Câmara dos DeputadosRodrigo Maia (DEM-RJ), do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli, e o ministro da Saúde, Luiz Henrique MandettaVeja outros nomes:

Deputados que foram à canonização de Irmã Dulce

  • André Fufuca (PP-MA)
  • Celio Studart (PV-CE)
  • Elmar Nascimento (DEM-BA), líder do DEM
  • José Rocha (PL-BA)
  • Daniel Almeida (PCdoB-BA), líder do PCdoB
  • Adolfo Viana (PSDB-BA)
  • Arthur Oliveira Maia (DEM-BA)
  • Eduardo da Fonte (PP-PE)
  • Flávio Nogueira (PDT-PI)
  • Leur Lomanto Júnior (DEM-BA)
  • Nelson Pellegrino (PT-BA)
  • Paulo Azi (DEM-BA)

Senadores  que foram à canonização de Irmã Dulce

  • Jaques Wagner (PT-BA)
  • Angelo Coronel (PSD-BA)
  • José Serra (PSDB-SP)
  • Weverton (PDT-MA)
  • Roberto Rocha (PSDB-MA)
  • Elmano Férrer (PODEMOS-PI)
  • Ciro Nogueira (PP-PI)
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Em Salvador, terra natal de Irmã Dulce, devotos se emocionam com canonização

Fiéis se reuniram no santuário que agora leva o nome da santa brasileira para assistir à cerimônia; sergipana agraciada com o primeiro milagre reconhecido pela Igreja esteve presente

Renata Farias, especial para o Estado

13 de outubro de 2019 | 11h00

SALVADOR - O Santuário de Irmã Dulce, em Salvador, já estava cheio quando o dia começou a nascer neste domingo, 13. Devotos do "Anjo Bom da Bahia" se reuniram em vigília, iniciada na noite de sábado, 12, para assistir à canonização da primeira santa brasileira, transmitida em um telão para a comunidade. Emoção e alegria tomaram conta do ambiente, com aplausos e gritos a cada vez que o nome de Maria Rita Lopes Pontes era citado.

Entre os presentes, estava Claudia Santos, de 50 anos, que foi agraciada pelo milagre atribuído à Santa Dulce dos Pobres, como é conhecida agora.

Moradora de Sergipe, ela se recuperou de uma grave hemorragia pós-parto, cujo sangramento foi subitamente interrompido. A comprovação deste milagre levou à beatificação de Irmã Dulce, em 2011, estágio anterior à canonização.

Para Entender

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Religiosa nascida em Salvador ficou famosa pelas ações de caridade e pelo trabalho com a população carente

"Estou aqui desde as 20 horas de ontem. Eu não poderia deixar de vir. A emoção é muito grande de relembrar tudo aquilo que passou, hoje a minha fé é muito maior", afirmou ao Estado. "Depois do que passei, vi que nós realmente não somos nada."

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Depois do que passei, vi que nós realmente não somos nada
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Claudia Santos, agraciada pelo primeiro milagre reconhecido de Irmã Dulce

Claudia viajou para a Bahia acompanhada de Ana Lúcia Aguiar, 55 anos, que esteve diretamente ligada ao processo de beatificação da santa brasileira. Natural do Ceará, ela conta que conheceu Irmã Dulce durante um período que morou em Salvador e que milagres foram operados na própria vida.

"Quando meu primeiro filho tinha 1 ano e 8 meses, eu passei por um momento difícil com ele por conta de um acidente doméstico. Em um momento, com ele no colo, eu senti como se estivesse segurando mãos finas", relatou. "Quando voltei a mim, vi um vulto saindo, vestido com hábito (traje religioso)."

Anos depois, ela pode tocar as mãos de Irmã Dulce em seu leito de morte, o que deu a confirmação de quem a visitou naquela ocasião.

"Naquele momento, agradeci e disse que seria uma serva de Deus e de Irmã Dulce, para divulgar a obra e santidade dela."

Ana Lúcia passou os anos seguintes difundindo as obras da freira baiana por onde passava e foi a responsável por apresentar o milagre operado em Claudia à comissão das Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) que buscava a canonização.

"Eu sinto que Deus me fez instrumento da obra e santidade de Irmã Dulce. Ela sempre foi minha santinha. Depois de viver esse momento (da canonização), se amanhã chegar o meu dia, eu vou realizada", acrescentou.

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Ela sempre foi minha santinha. Depois de viver esse momento (da canonização), se amanhã chegar o meu dia, eu vou realizada
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Ana Lúcia Aguiar, divulgadora do trabalho de Irmã Dulce

Em todos os cantos do santuário, era possível encontrar histórias pessoais com Irmã Dulce. Devotos faziam emocionados relatos de fé - a exemplo de uma pedra nos rins que se reduziu sem intervenção cirúrgica, surpreendendo os médicos - e narrativas de convívio com a freira baiana.

É o caso da enfermeira Gildete Brasil, de 76 anos, que estudou nas Osid, a entidade filantrópica fundada por Irmã Dulce em 1959. 

"Eu tive o prazer de fazer meu curso de enfermagem com ela, nos anos de 1967 e 1968. Ela abraçava as pessoas, os doentes, conversava, beijava", disse, emocionada, Gildete. "É isso mesmo que mostram. Ela pegava os doentes no Largo de Roma e levava para o hospital dela, que era simples, bem diferente desse hospital enorme que é hoje."

Santuário Santa Dulce dos Pobres

Apesar de já reconhecido pelo público como uma homenagem a Irmã Dulce, apenas hoje o santuário passou a levar o nome da baiana. A transmissão do evento no Vaticano foi interrompida por um breve momento para a leitura de um decreto que transformava o Santuário da Imaculada Conceição da Mãe de Deus em Santuário Arquidiocesano Santa Dulce dos Pobres.

De acordo com dom Marco Eugênio, bispo auxiliar da arquidiocese de Salvador, o decreto apenas torna oficial o que já era uma realidade para o povo baiano. 

"Esse santuário foi colocado em nome de Nossa Senhora da Conceição por uma questão de não poder ter o nome de uma beata", explicou. "Essa terra da Bahia é capaz de santificar as pessoas. Ela (Irmã Dulce), que se santificou aqui na graça de Deus, convida cada um de nós a viver nessa santidade e a permitir que essa mesma graça de Deus realize em nós a obra que nela realizou."

 

 

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Irmã Dulce já trabalhava com os pobres desde noviça em Sergipe

Convento onde a religiosa passou parte da juventude fará missa em homenagem à religiosa

Antonio Carlos Garcia, Especial para o Estado

13 de outubro de 2019 | 12h37

ARACAJU - O município de São Cristóvão, em Sergipe, a quarta cidade mais antiga do Brasil, foi uma dos locais onde viveu Irmã Dulce, que, neste domingo, 13, foi canonizada no Vaticano pelo papa Francisco. Entre 1933 e 1934, quando tinha 19 anos, ela morou no Convento São Francisco durante um ano e seis meses para o noviciado na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus.

O frei Cláudio, prior do Convento dos Carmelitas, disse que Irmã Dulce "viveu a vida normal de noviça" no período de formação, uma vida dedicada a oração e trabalho. "Ela se dedicou a assimilar a identidade da congregação", contou o frei.

Ele conta que, quando Irmã Dulce chegou de Salvador, tinha uma experiência de vida eclesial e que "já trabalhava com os pobres".

Hoje, o convento onde a religiosa viveu abriga somente homens e mantém um museu com pertences da então noviça. "Nós, homens, retornamos aqui depois de dois séculos e temos 12 noviços provenientes de vários Estados, principalmente do Nordeste."

A Santa Dulce dos Pobres será homenageada às 17 horas deste domingo na Igreja do Carmo, no Convento dos Carmelitas, em uma missa presidida pelo arcebispo de Aracaju, dom João José Costa.

Embaixadora

Todo o processo de canonização teve o papel fundamental da advogada Ana Lúcia Aguiar, que hoje é uma espécie de embaixadora da freira em Sergipe.

"Estou em estado de graça, com muita emoção, muita fé. Deus me concedeu uma grande graça, com Irmã Dulce em vida, quando me protegeu em um momento perigoso com meu filho no colo", contou. "Há 27 anos, me dedico às obras para que eu possa dar esse testemunho de amor. Distribuo santinhos, acolho os pobres e os levo para atendimento médico e para um abrigo."

Além disso, ao tomar conhecimento do primeiro milagre de Irmã Dulce, Ana Lúcia atuou no processo que está levando a religiosa à canonização.

"Deus me deu a graça de revelar esse milagre que a levou à condição de beata", frisou Ana Lúcia. "Acompanhei todo esse processo, guardei esse segredo até o Vaticano reconhecer o milagre e considerá-la uma beata." Irmã Dulce tornou-se beata em 22 de maio de 2011.

 

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'Nunca faltou no Brasil a presença de pessoas extraordinárias', diz arcebispo de Salvador

Em conversa com o 'Estado', dom Murilo Krieger comentou sobre a importância da canonização de Irmã Dulce

Entrevista com

dom Murilo Krieger

Edison Veiga, Especial para o Estado

13 de outubro de 2019 | 20h10

BLED (ESLOVÊNIA) - Oito anos atrás, o religioso catarinense Murilo Sebastião Ramos Krieger foi nomeado Primaz do Brasil pela Igreja Católica. O título honorífico é conferido a quem ocupa o posto de arcebispo de Salvador - remete ao fato de que em 16 de novembro de 1676, pela bula Inter Pastoralis Officii Curas, o papa Inocêncio XI (1611-1689) fez de Salvador a primeira e mais antiga diocese do País.

Agora, aos 76 anos, dom Murilo Krieger recebe outra dádiva do Vaticano. Sua circunscrição eclesiástica é a terra natal da mais nova santa, a 37a. personalidade brasileira canonizada pela Igreja: Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (1914-1992), a Irmã Dulce dos Pobres

No Vaticano, Krieger é um dos muitos religiosos brasileiros que estarão junto ao papa Francisco na missa de canonização. Na segunda, o arcebispo celebra na Basílica Sant’Andrea della Valle, em Roma. De volta ao Brasil, ele deve comandar a missa em Ação de Graças pela nova santa marcada para o dia 20 de outubro na Arena Fonte Nova, em Salvador. 

Neste domingo, dia 13, imediatamente após a canonização, será criada na capital baiana a primeira paróquia com a nova santa como padroeira: Paróquia Santa Dulce dos Pobres. Dom Murilo Krieger conversou com a reportagem do Estado:

Estado: Qual a importância, sobretudo para as comunidades da arquidiocese de Salvador, da canonização de Irmã Dulce?

Dom Murilo Krieger: Para muitos, falar de um santo ou uma santa parecia uma referência a quem morou na Europa e em séculos passados, já que a maioria dos santos conhecidos tem essas características. De repente, a comunidade baiana está descobrindo que os santos não são seres angelicais, distantes, mas pessoas próximas, que muitos conheceram ou das quais se ouve diariamente muitos testemunhos positivos. Tenho certeza de que, a partir da canonização de Irmã Dulce dos Pobres, será mais fácil explicar a todos que santidade não é um privilégio de poucos ou de pessoas especiais, mas está ao alcance de todos, e que é obrigação de todos buscar a santidade. E que, para isso, é preciso imitar Jesus Cristo, fazer a vontade de Deus e amar apaixonadamente as pessoas que ele coloca em nossos caminhos.

Estado: Quais os valores de vida de Irmã Dulce mais devem ser lembrados pelos católicos?

Krieger: Sua simplicidade, seu foco em Jesus Cristo, sua capacidade de vê-lo no necessitado e a capacidade que teve de esquecer-se de si mesma para responder às necessidades que se apresentavam e se multiplicavam à sua frente.

Estado: Irmã Dulce será a 37a. Personalidade brasileira canonizada pelo Vaticano. Levantamentos extraoficiais dão conta que há outros 130 na fila da canonização. Podemos afirmar que o Brasil terá ainda muito mais santos?

Krieger: Em 1991, quando o papa, agora santo, João Paulo II presidiu, em Florianópolis, a missa de beatificação de Irmã Paulina do Coração de Jesus (canonizada em Roma, em 2002, numa celebração presidida pelo mesmo Papa), eu o ouvi terminar a homilia com uma observação que não estava no texto oficial, distribuído à imprensa: ‘O Brasil precisa de santos!’ E, logo em seguida, completou: ‘De muitos santos!’. Até aquele tempo, não se valorizava muito, aqui no Brasil, as canonizações. Com essa beatificação e canonização, se percebeu que os santos são muito importantes em nosso trabalho pastoral, pois eles são modelos vivos daquilo que a Igreja ensina. Em outras palavras: mesmo após seu falecimento, eles evangelizam, pois atraem as pessoas para suas palavras, para seus exemplos e, particularmente, para Jesus Cristo. Começou, então, uma corrida em torno de tais modelos; abriram-se dezenas de processos e, com surpresa, se percebeu que o que nunca faltou no Brasil foi a presença de pessoas extraordinárias - de verdadeiros santos. O difícil é comprovar sua santidade, pois há todo um processo longo e exaustivo. 

Estado: No total, quantos membros do clero brasileiros devem estar presentes à cerimônia de canonização?

Krieger: Além de cerca de 30 bispos que irão para a celebração, dela participarão os bispos brasileiros que estão no Sínodo sobre a Amazônia. Quanto ao número de sacerdotes, tudo indica que serão em torno de 100.

Estado: Como será a programação em Salvador para acompanhar a canonização?

Krieger: No próprio dia 13 a maioria das comunidades paroquiais de Salvador se reunirá a partir das 5h da manhã, para acompanhar a celebração de canonização e, em seguida, participar da santa missa. Logo após a declaração oficial de que Irmã Dulce dos Pobres é santa, no santuário onde estão seus restos mortais será lido um decreto declarando que aquele santuário passa a ser chamado de Santuário Arquidiocesano Santa Dulce dos Pobres. E no bairro Cabula estará sendo lido um outro decreto, criando a primeira paróquia em que Santa Dulce dos Pobres será a padroeira: Paróquia Santa Dulce dos Pobres. As festas se espalharão por toda a cidade e o Estado. No dia 20 de outubro, às 17h, terá lugar uma santa missa em agradecimento a Deus pela canonização. Será na Arena Fonte Nova e os 54 mil bilhetes de ingresso (gratuitos) já se esgotaram. Tivéssemos a possibilidade de colocar na arena outro tanto, também já teriam sido distribuídos... A partir das 13h, daquela tarde, haverá cantos, encenações (uma apresentação da vida de Irmã Dulce dos Pobres por 500 crianças), cânticos de um Coral de 200 pessoas, etc.

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Análise: Canonização de Irmã Dulce é o triunfo da bondade

Numa sociedade que busca maior reconhecimento para a mulher, religiosa bem representa o protagonismo feminino e a capacidade de liderar e criar num ambiente hostil

Francisco Borba Ribeiro Neto, Coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP

13 de outubro de 2019 | 16h00

Muitos querem ver as canonizações apenas como uma estratégia da Igreja para reforçar sua influência social. Mas, transcendendo qualquer cálculo, a Bahia, religiosa e sincrética, se entregou hoje a Santa Dulce dos Pobres. Ela não é apenas uma santa para os católicos, é para todos – como, aliás, devem ser todos os santos. Como explicar tal devoção?

Numa sociedade que busca maior reconhecimento para a mulher, ela bem representa o protagonismo feminino, a capacidade de liderar e criar num ambiente hostil. Mas, paradoxalmente, seu exemplo vai contra aquilo que as pessoas parecem buscar e valorizar, em nossa mentalidade atual, marcada pelo individualismo, pelo materialismo e pela ânsia por sucesso.  Não numa longínqua Idade Média, mas em pleno século XX, viveu para os pobres, com abnegação, humildade e sacrifício.

Sua biografia se assemelha a Madre Teresa de Calcutá. Seus processos, conduzidos ao longo dos pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco, estão entre as canonizações mais rápidas da história, porque “voz do povo, voz de Deus”. Santos e santas que se dedicam aos pobres e aos doentes sempre se destacam no coração das pessoas.

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Como Francisco de Assis, o santo dos pobres que deu nome ao papa, num mundo que propõe a riqueza e o glamour, a santa baiana mostrou uma outra beleza, cativante e desconcertante. Poucos, talvez, queiram abraçar tal beleza, mas todos se sentem abraçados por ela. Em tempos de polarização e ressentimento, a raiva pode conquistar um poder transitório, mas Santa Dulce mostra que o amor e a bondade permanecem no tempo, fortalecem um povo e abrem o caminho da esperança.

O grande sentido de sua canonização, para os católicos e para o mundo, é o triunfo da bondade. Não porque foi canonizada, mas sim pelo amplo reconhecimento popular e pelos sinais de afeto que tem recebido. Bento XVI escreveu que jamais haveria uma sociedade tão perfeita que tornasse o amor desnecessário. Essa é a mensagem que essa canonização deixa para todos.

 

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Análise: Canonização de Irmã Dulce é símbolo do trabalho da Igreja na América Latina

Santa dedicou a vida aos pobres, público para o qual a igreja se voltou há 50 anos no continente

Maria Clara Bingemer*, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 18h24

O Brasil recebe da Igreja liderada pelo Papa Francisco um presente notável. É canonizada a primeira santa brasileira, Irmã Dulce, o Anjo Bom. A proclamação oficial da santidade desta baiana é forte e simbólica em muitos aspectos.

Em primeiro lugar, Irmã Dulce é a encarnação de tudo o que a Igreja da América Latina vem vivendo e propondo há mais de 50 anos. Em 1968, os bispos reunidos em Medellín voltaram o olhar da comunidade eclesial preferencialmente para os pobres e oprimidos, propondo então o que se chamou de uma opção preferencial pelos pobres. Tratava-se de uma virada radical que levava a Igreja para as margens da sociedade e privilegiava o trabalho evangélico, unido indissoluvelmente à transformação social. Fé e justica passaram a ser um binômio inseparável, como o foram desde sempre na tradição bíblica judaico-crista. 

Irmã Dulce dedicou sua vida aos pobres. Voltou toda a sua vocação e vida religiosa para aqueles que não tinham direitos, que eram fracos e vulneráveis. A tal ponto que foi conhecida como o anjo dos pobres. Além disso, é uma mulher.

A Igreja tem canonizado muitas mulheres. Mas chama a atenção que, juntamente com Irmã Dulce, o papa Francisco haja canonizado várias outras. Aumenta o número de mulheres reconhecidas oficialmente pela Igreja como santas. Isso se encontra em perfeita sintonia com as posições que o papa Francisco tem tomado últimamente, de palabra e de obra. Sem cessar, ele tem sublinhado a importância da mulher para a vida da Igreja.

Com Irmã Dulce, a Igreja do Brasil ganha sua primeira santa canonizada, a America Latina  vê reconhecida uma testemunha privilegiada da opção continental pelos pobres, e a santidade de uma mulher é reconhecida e proclamada oficialmente pelo Sumo Pontifice.

Parabéns, Bahia. Parabéns, Brasil. Irmã Dulce interceda pelo seu povo. Ajude-o a viver sempre mais a opção pelos pobres que você encarnou com tanta radicalidade.

* É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE TEOLOGIA DA PUC-RIO

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Enquete: Quem deve ser o próximo santo brasileiro?

Depois da canonização da Irmã Dulce, outros brasileiros podem ser santificados pelo Vaticano

Redação, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2019 | 17h09

 

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