Odair Leal/Estadão
Odair Leal/Estadão

Previsão indica que mil novos venezuelanos devem chegar a Assis Brasil nos próximos 30 dias

Moradores locais relatam o aumento de pessoas em situação de miséria na cidade: 'Isso é uma bomba-relógio', diz comerciante

João Renato Jácome, especial para o Estadão

06 de novembro de 2020 | 11h00

A situação dos imigrantes, em sua maioria da Venezuela, que estão no abrigo improvisado em Assis Brasil está insustentável. Apesar das doações de instituições filantrópicas, do governo do Acre, e do suporte da prefeitura da cidade, a previsão é que cerca de mil novos venezuelanos cheguem à cidade nos próximos 30 dias.

O “êxodo venezuelano” está provocando uma série de problemas na cidade. O comerciante brasileiro Antônio Lisboa, de 44 anos, conta que além dos conflitos entre os próprios estrangeiros, por ciúmes ou divisão de espaços no abrigo, a quantidade de pessoas pedindo nas ruas também aumentou. E isso não se via antes na cidade.

“A cada dez minutos, tem gente pedindo na nossa porta, e a gente não tem nada para dar. A cidade aqui é pequena, carente, e o que temos dá mal para a gente mesmo. Isso é uma bomba-relógio, porque vai explodir a qualquer momento se as autoridades do nosso país não fizerem nada para resolver essa situação”, acredita.

A assistente social Madalena Moraes, que acompanha os imigrantes desde o início da crise, em março deste ano, relata que a situação dos estrangeiros é bastante precária, e o mais complicado é dar conta de suprir a alimentação. Além disso, o abrigo já não tem espaço para mais gente, o que aumenta a tensão das autoridades da cidade.

“É uma situação muito difícil para os imigrantes. Eles vêm de uma situação pior, fugindo da fome. Hoje, por exemplo, estamos numa situação muito mais difícil. A situação é precária porque tem muitas crianças, idosos, pessoas doentes e inclusive uma idosa cega”, conta a assistente social.

Madalena destaca que os estrangeiros chegam a Assis Brasil com muita fome e sede, e que alguns deles só têm a roupa que estão vestindo. “Chegamos a servir comida aqui, e as famílias começaram a chorar, tamanha fome e lembrança de como era no país deles ou como estão os familiares deles na Venezuela, principalmente”, conta.

Madalena explica que a insalubridade do local é consequência dos problemas com o abastecimento de água e a falta dela inviabiliza a higienização do espaço e deixa os ânimos dos abrigados ainda mais exaltados.

“Há cerca de dois meses, nós tínhamos um grande problema com a água, mas foi colocada uma nova bomba pelo Depasa. Só que estamos tendo muita falta de energia, então a bomba queimou e todos ficam sem água na cidade, o que piora ainda mais a situação, porque não se consegue tomar banho ou limpar a escola”, explica a assistente social.

Além das crianças autistas e dos idosos doentes, alguns recém-chegados a Assis Brasil, cerca de 10 pessoas, testaram positivo para o vírus HIV. Não bastasse isso, já houve casos positivos de covid-19 dentro do abrigo, o que causou corre-corre entre as autoridades para evitar um surto da doença no local. Em Assis Brasil, só é feito teste em quem apresenta sintomas característicos da contaminação pelo coronavírus.

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