Eraldo Peres/AP
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Somos todos Bolsonaro? No ranking mundial de combate à covid, não é surpresa ver Brasil em último

Juntamos todos os ingredientes da receita perfeita para uma performance trágica na pandemia

André Fran, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2021 | 05h00

Minha primeira coluna aqui no Estadão foi uma comparação entre o Brasil e o Japão na forma que vinham lidando com a pandemia do coronavírus. Eu tinha acabado de voltar de mais uma viagem à Terra do Sol Nascente e estava impressionado com o espírito de coletividade e o respeito às regras da sociedade japonesa. Enquanto por lá eu vi pessoas praticando o isolamento, máscaras por todos os lados e álcool gel em abundância, quando desembarquei no Brasil me deparei com políticos dando mau exemplo, praias lotadas e aglomeração com direito a baixaria nos bares da zona sul carioca. De lá pra cá, nada melhorou. Pelo contrário: a posição do governo brasileiro, que desde o início foi de menosprezo à pandemia, parece ter virado questão de honra ideológica. Ignoraram a ciência mais básica, fizeram pouco caso das medidas de distanciamento, insistiram em um elixir milagroso e chegaram ao ponto de transformar em disputa política a vacina, única luz no fim desse túnel tenebroso. Tudo bem que uma das principais medidas em uma emergência dessa proporção é a comunicação clara e eficiente partindo das principais autoridades do país, mas seria essa a única explicação para o desastre brasileiro no combate à maior crise sanitária do nosso tempo? 

Jovens liberais promoveram festinhas clandestinas por todo o Brasil. Empresários que podiam realizar campanhas de doação defenderam teorias colocando a economia acima da vida dos cidadãos. Pessoas com instrução são vítimas inocentes das fake news e se tornam disseminadores de desinformação pelos grupos de zap da família. E, com a chegada das primeiras vacinas, vemos o fenômeno dos fura-fila: a turma que consegue dar um jeito de se imunizar passando para trás idodos vulneráveis e profissionais de saúde que atuaram bravamente na linha de frente.

Revoltante, com certeza. Mas, de certa forma, previsível. Temos por essas plagas uma combinação de valores e cultura que nos tornam o ambiente perfeito para uma explosão de coronavírus. Vejamos: somos os criadores do “jeitinho brasileiro”, onde o importante não é fazer bem feito, mas dar um jeito. Temos no Brasil as tais “leis que não pegam”, as regras que só são seguidas em benefício próprio. Nossa sociedade é egoísta, acostumada a sobreviver à instabilidade e a “levar vantagem em tudo”, como dizia a Lei de Gérson. A trapaça como modo de vida. Temos uma das piores elites do mundo, a 6ª pior para ser mais exato (segundo os economistas da Fundação para Criação de Valor), um grupo excludente e individualista sem a menor consideração pelo bem comum. Fora todo o resto que a gente já sabe: a desigualdade abissal, o descaso com a educação, a saúde desprestigiada e a descrença geral com a classe política. Mas você pode argumentar: “Ah, em outros países também há desigualdade, espalham fake news, têm péssimos líderes…”. Sim, mas juntar tantos elementos que contribuem negativamente em um cenário emergencial é um feito para poucos, né? Essa conquista é do Brasil. É tetraaa!

Então, quando divulgaram um ranking mundial com os melhores e os piores países do mundo no combate à pandemia, não foi surpresa encontrar o Brasil na última colocação. A pesquisa foi realizada pelo respeitado Instituto Lowy, da Austrália, e analisou 98 países em seis critérios: casos confirmados, mortes confirmadas, casos por milhão de habitantes, mortes por milhão de habitantes, casos em proporção a testes e testes por mil habitantes. Cruzando as características nada louváveis do nosso País que elenquei acima com a metodologia da pesquisa, dá pra perceber que o Brasil é praticamente um gabarito do erro. Juntamos todos os ingredientes da receita perfeita para uma performance trágica na pandemia. 

De curiosidade, resolvi dar uma viajada pelo ranking e consultar a performance de alguns dos mais de 60 países que já visitei, como consta ali na minha assinatura ao final da coluna. Estados Unidos e Irã, tão longe em termos políticos e tão perto no negacionismo da pandemia, quase dividem a mesma posição (95º e 96º, respectivamente). O Japão, citado nesse texto, está em um inglório 45º lugar. O governo japonês fez a sua versão de privilegiar a economia, só que usando as Olimpíadas. A demora para enfrentar a realidade custa caro até hoje. A Suécia, exemplo mundial de um país que optou por uma estratégia tragicamente equivocada, poderia estar pior. O que a deixa na 37ª posição é a quantidade massiva de testes. Erraram em exagero, conforme assumido pelos seus próprios líderes, mas pelo menos atestaram com excelência o desastre cometido. A posição de seus vizinhos nórdicos (Islândia em 7º, Dinamarca em 23º e Noruega em 18º) mostra que a situação poderia estar bem melhor para os suecos. Nova Zelândia, Vietnã e Taiwan são os três primeiros colocados no ranking. Postos conquistados com uma combinação de medidas efetivas (lockdown, uso de máscaras, higienização, testagem ampla), implementação rápida e comunicação eficiente garantiram centenas de milhares de vidas salvas mesmo em regiões de alta concentração populacional. 

Colocando o Brasil em comparação direta com todos esses países do ranking, mesmo aqueles que amargam colocações vergonhosas e dramáticas, ficam ainda mais evidentes: o rumo equivocado, o descaso com protocolos sanitários e as decisões infundadas. No nosso caso, ainda temos como agravante um governo que efetivamente segue lutando contra. Contra a ciência, contra as recomendações dos maiores órgãos de saúde do mundo, contra a informação confiável, contra a verdade, contra a vacina... Mas a culpa não é exclusiva do nosso negacionista in chief. Sua influência é facilitada pelas características históricas e culturais de significativa parcela da nossa população. Se outros países pecaram em uma área específica mas em outras nem tanto ou erraram o cálculo em algum momento para logo depois corrigi-lo, o nosso buscou essa última colocação se esmerando em ter uma péssima abordagem em todos os aspectos fundamentais do combate à pandemia. Assim como em um acidente aéreo, é necessário uma combinação de vários fatores para derrubar uma aeronave. No caso da trágica performance do Brasil no combate a pandemia da covid-19, um desses componentes somos nós. Somos todos Bolsonaro?

É DIRETOR, APRESENTADOR DE TV, JORNALISTA E TEM MAIS DE 60 PAÍSES CARIMBADOS NO PASSAPORTE

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