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Bilhete liga Marcola à morte de Gegê

Polícia acredita que assassinatos de líderes do PCC no Ceará, acusados de ‘roubar’ quadrilha, tenham sido orquestrados pelo chefe da facção

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2018 | 13h20
Atualizado 23 Fevereiro 2018 | 11h23

Um bilhete apreendido por agentes penitenciários com o parente de um preso da Penitenciária 2 de Presidente Venceslau (SP), é a principal prova da polícia de que Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, mandou matar Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca. Esse fato, ligado à morte de mais um integrante da facção ontem na capital pode indicar um racha na facção.

Os dois líderes da facção criminosa paulista foram assassinados na última sexta-feira, 16, em Lagoa Encantada, na reserva indígena Jenipapo-Kanindé de Aquiraz, no Ceará. O bilhete apreendido no presídio que reúne a cúpula da facção mostra que os chefes do PCC decidiram contar aos demais escalões da organização o suposto motivo do acerto de contas com Gegê e Paca. Eles são acusados de “roubar” o grupo. Os dois teriam desviado mais de R$ 20 milhões, comprando imóveis no Ceará e fazendas na Bolívia.

Segundo o bilhete, a operação para matar os dois foi organizada por Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho. Antigo gerente dos negócios de Marcola no Paraguai, Fuminho é hoje sócio do líder do PCC. O bilhete dizia: “Ontem, fomos chamados em umas ideias, aonde nosso irmão Cabelo Duro deixou ‘nois’ ciente que o Fuminho mandou matar o GG e o Paka. Inclusive, o irmão Cabelo Duro e mais alguns irmãos são prova que os irmãos estavam roubando (sic)”.

Segundo a inteligência da polícia, a facção ainda vai divulgar um salve, um aviso para os subordinados, no qual dirá que havia determinado a “investigação” sobre os supostos roubos de Gegê e Paca. Cabelo Duro seria o traficante morto nesta quinta-feira, 22. 

Os líderes mortos no Ceará haviam comprado nos últimos meses quatro imóveis no Estado, incluindo uma casa no condomínio Alphaville, em Aquiraz. Só ali a dupla gastou R$ 2 milhões. Paca passou férias em Fortaleza em 2017. Ele e Gegê fretaram um ônibus para levar os familiares até Fortaleza. Na sexta, se despediram dos familiares – que apanharam o ônibus – e embarcaram em um helicóptero. 

A aeronave havia saído de São Paulo, levando pelo menos cinco homens. O piloto seria conhecido como Felipe. Os demais integrariam a facção. A inteligência da polícia acredita que o grupo partiu para o Ceará já com a missão dada pela cúpula para matar os chefes.

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Depois do embarque em Fortaleza, o helicóptero pousou, por volta das 10 horas, em Alquiraz, onde os dois foram executados. Gegê e Paca levaram tiros no rosto e facadas nos olhos. Era um recado: demonstraram ter olho grande demais.

Marcola teria ainda outros motivos para matar Gegê. Este teria desafiado o chefe e Daniel Vinícius Canônico, o Cego – outro líder da facção –, quando decidiu mandar matar em 2017 o traficante Edílson Borges Nogueira, o Biroska. A ordem teria sido cumprida pelo braço direito de Gegê, o preso Patrick Wellington Salomão, o Forjado, na penitenciária 2 de Venceslau.

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Biroska era afilhado de Marcola. Na época do crime, ele e Cego estavam isolados no Regime Disciplinar Diferenciado. Gegê também teria obrigado os transportadores de drogas do PCC a arcar com o prejuízo das remessas apreendidas pela polícia e teria torturado na Bolívia um piloto ligado a Fuminho. Tudo sem autorização de Marcola. Forjado e o irmão de Gegê – Ronaldo de Simone, o Elefante Branco – continuam na cúpula da facção.

Perfil

Com a morte de Paca e Gegê, Fuminho se tornou o chefe do PCC nas ruas. Só com o tráfico de maconha na Grande São Paulo, ele estaria lucrando R$ 22 milhões por mês. Para cada região do País e para cada tipo de droga, o grupo teria um gerente. Fuminho controlaria pessoalmente o esquema no Paraguai e na Bolívia, o que garantiu para a organização o virtual monopólio da maconha para o Brasil. Ele é o responsável ainda pela gestão do envio de cocaína para o País, por controlar a frota de aviões e helicópteros do grupo, além de estabelecer a logística da facção para mandar a droga para a Europa e a Ásia.

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Além do porto de Santos, o PCC está usando portos do Nordeste para embarcar a cocaína para Espanha, Montenegro, Holanda e Itália. Fuminho recebe as encomendas de organizações criminosas, como a ’Ndrangheta (Itália), na Bolívia. “Ele está se tornando o Pablo Escobar brasileiro”, disse um delegado que o investiga há quatro anos. Em São Paulo, é suspeito de ser o mandante da morte de Eduardo Ferreira da Silva, de 40 anos, executado em fevereiro por três encapuzados quando dirigia uma Mercedes-Benz, na zona leste.

Com um mandado de prisão por tráfico de drogas, Fuminho é procurado pelas Polícias Civil e Federal desde 2014, quando organizou o plano de fuga de Marcola da Penitenciária 2 Venceslau. Marcola seria resgatado por um helicóptero blindado – a ação foi abortada pela facção. A inteligência da polícia desconfia que o aparelho que retiraria Marcola do presídio foi o mesmo usado na execução de sexta-feira. Depois do Ceará, ele pousou no Rio Grande do Norte. Ali os bandidos se desfizeram das malas e documentos de Paca e de Gegê.

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