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Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

A morte do líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, desencadeou uma investigação que descobriu novos segredos da maior facção criminosa do País. Documentos encontrados pela polícia revelaram parte da estrutura montada pelos líderes do PCC para o tráfico internacional de drogas, a lista de seus integrantes em cada região de São Paulo, nos Estados e em cinco países da América do Sul - Colômbia, Paraguai, Bolívia, Peru e Guiana. A inteligência policial tem provas da evolução das rendas do grupo e sua ligação com o primeiro cartel de drogas chefiado por um brasileiro: Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho.

Os negócios particulares dos líderes e da própria facção têm um faturamento estimado pela inteligência policial em, no mínimo, R$ 400 milhões por ano. Alguns policiais acreditam que esse número pode chegar a cerca de R$ 800 milhões, o que colocaria o PCC entre as 500 maiores empresas do País. Seu tamanho dependeria da quantidade de drogas que o cartel liderado por Fuminho e os líderes do PCC conseguem exportar nos Portos de Santos, Itajaí, Rio e Fortaleza. Estimativas conservadoras fixam em 1 tonelada por mês, enquanto analistas policiais consideram que esse número corresponde apenas ao movimento de uma semana.

Entre as descobertas feitas pela inteligência policial estão remessas da facção para um doleiro da capital paulista. Em 9 de dezembro de 2017, um dos grupos responsáveis pelo tráfico internacional de drogas entregou R$ 1.464.118 ao doleiro. Em 16 de dezembro, foram enviados mais R$ 1.522.374 e no dia 21, R$ 1.105.651. Em duas semanas, a soma chega a mais de R$ 4 milhões. A contabilidade mostra que em uma única vez, em dezembro de 2017, o bando gastou R$ 2,5 mil para comprar malas para entregar o dinheiro.

As remessas continuaram em janeiro deste ano. Segundo as investigações, a facção entregava reais ao doleiro e recebia dólares, por meio do sistema dólar cabo, na Bolívia e no Paraguai, para pagar a produção das drogas - cocaína e maconha. O sistema de lavagem da facção inclui ainda a compra de postos de gasolina (200 deles estão nas mãos de laranjas que trabalham para um bandido conhecido como Flavinho).

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Esta não foi a primeira vez que a polícia descobriu um esquema de lavagem de dinheiro da facção. Para o promotor de Justiça Lincoln Gakiya, o PCC ainda é uma organização de tipo pré-mafiosa, pois lhe falta conhecimento para fazer a lavagem de dinheiro. Essa seria a última barreira que separa o grupo das demais máfias pelo mundo. "Muitas das operações da facção são feitas em dinheiro vivo, guardado em lugares seguros", diz.

Em 2014, a polícia detectou um esquema que envolvia uma transportadora de cargas fantasma que movimentou R$ 100 milhões por meio de duas corretoras de valores, que enviavam o dinheiro do crime organizado para a China e para os Estados Unidos. As contas da transportadora eram movimentadas pela internet. Essa tarefa era executada por meio de sete IPs com base no Paraguai.

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Mortos

Foi no apartamento de José Adinaldo Moura, o Nado, no Tatuapé, zona leste de São Paulo, que o Departamento Estadual de Prevenção e Repressão ao Narcotráfico (Denarc) encontrou os papéis. Nado era o braço direito de Wagner Ferreira da Silva, o Cabelo Duro. Os dois eram acusados de participar no Ceará do assassinato de Gegê do Mangue em fevereiro e acabaram mortos pela facção a mando da cúpula.

Nado morava em um apartamento de cobertura e teria sido executado um dia antes do assassinato de Cabelo Duro, em 22 de fevereiro. No dia 15 de maio, a polícia achou um corpo que seria de Nado. Ele estava enterrado de ponta-cabeça e amarrado em um terreno na região de Americanópolis, zona sul da capital.

Nado e Cabelo Duro trabalhariam para Fuminho, que era apontado como sócio do líder do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. Gegê do Mangue, que havia saído da cadeia em 2017, teria descoberto que eles usavam a logística montada pelo PCC para traficar drogas sem pagar à facção.

Gegê começou a cobrar um pedágio de Fuminho e usou o dinheiro para comprar imóveis no Ceará, em vez de entregá-lo para o caixa do grupo. Ao descobrirem o desvio, Gegê teve o destino selado. Fuminho mandou assassiná-lo. A cúpula reagiu e decidiu matar os envolvidos na execução. Só depois de Fuminho apresentar as provas de que Gegê estava roubando o grupo é que a cúpula decidiu perdoá-lo. Os pontos de varejo de drogas dominados por ele em São Paulo - região da Avenida Presidente Wilson e na Favela de Heliópolis -, que haviam sido tomados pela facção, foram devolvidos recentemente pelo PCC.

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Sucesso

O sucesso de Fuminho no tráfico atraiu outros bandidos para a atividade. "Grupos de ladrões de carga, de carro-forte e de banco passaram a se juntar para investir no tráfico internacional de drogas", disse o delegado Ruy Ferraz Fontes, diretor do Denarc. Para conseguir grandes quantidades da droga e enviá-la para a Europa - os Estados Unidos são um mercado cativo dos cartéis mexicanos -, os bandidos aproveitam a logística do PCC. Os ladrões se unem em grupos e compram a cocaína para montar um carregamento e embarcá-la em contêiner. Esse movimento começou a tirar o espaço no Brasil da máfia nigeriana no tráfico.

Em 18 de abril, policiais civis que vigiavam o galpão no Guarujá surpreenderam uma dessas partidas. A droga chegou em picape S-10. Uma hora depois, o portão se abriu e saíram a picape, um Fiorino e um caminhão que transportaria um contêiner. Quando o grupo foi abordado pelos policiais, a escolta do caminhão reagiu a tiros de fuzil, ferindo um investigador. Sete acusados foram presos e 213 quilos de cocaína apreendidos - outros três bandidos fugiram, deixando para trás um fuzil e uma pistola calibre 45.

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Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

Em quatro anos, o total de integrantes do PCC mapeados pelo censo da organização em outros Estados foi multiplicado por seis. Além de São Paulo, onde o aumento foi quase de 100%, os Estados que concentram o maior número de bandidos inscritos na facção - os chamados batizados - são Paraná e Ceará. Cada um tem mais de 2 mil soldados, número equivalente ao total de integrantes que existia fora do Estado de São Paulo em 2012.

Os números mostram que o crescimento da facção é contínuo. Em 2014, ela tinha 3.261 integrantes em outros Estados; em 2017, já eram 18.538 e, no País, o total chegava a 29.460. De lá para cá, mais 2 mil bandidos se filiaram fora de São Paulo ao grupo, que tem agora - dados de março - 20.448 homens e mulheres em outros Estados. O total no País já ultrapassa a casa dos 30 mil.

Os documentos da inteligência do Ministério Público de São Paulo mostram ainda que no Estado, apesar da repressão sofrida, o grupo passou de 6 mil integrantes em 2012 para 10.922 em 2018. A precisão dos dados é possível por causa da apreensão dos registros da chamada cebola, a mensalidade paga à facção pelos seus integrantes. Ela é gratuita para quem está preso, mas criminoso que está em liberdade deve contribuir com R$ 950.

Rendas

De acordo com o promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), o PCC estabeleceu metas para a expansão interestadual. Para tanto, a facção está promovendo a estruturação do chamado "progresso", que são as fontes de renda da organização: a caixinha, a rifa e o tráfico. É como se a organização desse uma espécie de curso para os novatos que querem entrar no negócio. Como se fosse uma franquia, o grupo fornece ainda droga em consignação para quem vai começar e faz uma pregação sobre sua visão de mundo. É o que Gakiya chama de "fortalecimento da doutrina e da ideologia do crime".

Nessa expansão para outros Estados, o PCC enfrentou a resistência de organizações locais, como a Família do Norte (FDN) e o Comando Vermelho, provocando uma guerra no submundo e nas prisões, com conflitos intensos em 11 Estados e moderados, segundo o MPE, em outros seis. Somente no Piauí, em Pernambuco, Alagoas, Goiás, Distrito Federal, Paraná e na Região Sudeste não foram registrados conflitos entre as três facções.

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No Estado de São Paulo, a organização conta com 1.589 pessoas em liberdade pagando mensalidade. A zona leste é a região que concentra o maior número de membros (500), seguida pela zona sul, com 193. Outros 9.333 integrantes estão no sistema prisional. Para tentar conter a facção, o governo paulista instalou bloqueadores de telefonia celular em 23 penitenciárias. "A facção funciona como uma rede. Ela não é vertical", afirma o pesquisador Bruno Paes Manso, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP).

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Monopólio

Para Leandro Piquet Carneiro, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP, o crime organizado, ao contrário do crime comum, não busca uma transferência pontual de renda (o roubo, o estelionato, o furto etc). "O que é típico dessa atividade é a busca de renda monopolista em nichos e espaços. Por isso, o crime organizado é tão violento, pois o seu primeiro desafio é atingir o monopólio nas áreas em que atua."

Para Piquet, a expansão do PCC lança um desafio aos estudiosos, pois essas organizações criminosas só funcionam quando têm uma atuação local, em um pequeno nicho e território, e ficam "fragilizadas à infiltração policial e à detecção quando tentam integração vertical (forma de organização empresarial com uma hierarquia em que cada setor da organização tem uma função distinta), expandindo suas áreas de atuação e negócios". "Isso ocorreu com Pablo Escobar, na Colômbia." No caso do PCC, o grupo expandiu-se para todo o País sem - até agora - se fragilizar. 

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Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho, vive há mais de dez anos na Bolívia. Estabeleceu-se na região de Santa Cruz de la Sierra. "Ele organizou um cartel, o primeiro chefiado por um brasileiro", disse um dos policiais envolvidos na investigação de seu grupo. Fuminho domina a produção da droga. Da Bolívia, ele envia drogas e armas para o PCC. Usa contêineres nos Portos de Santos, Itajaí e Rio e veleiros no Nordeste para enviar cocaína para a África e para a Europa.

Aliou-se à 'Ndrangheta, a máfia calabresa, para abastecer a Europa. Em 2016, um veleiro enviado da Bahia por Fuminho foi apreendido pela Diretoria Antimáfia da Itália ao se aproximar de Gioia Tauro, o gigantesco porto de contêineres da Calábria, no sul da Itália. Arrastava 500 quilos de cocaína em uma rede embaixo do casco.

"Se você revistasse o barco não encontraria nada", contou o policial. De acordo com ele, a máfia calabresa é a principal compradora da droga de Fuminho. "Um quilo de cocaína em São Paulo vale US$ 5 mil. Na Europa, vale até US$ 40 mil. Quase metade do lucro fica com os integrantes da facção." Além de atrair a atenção da política italiana, Fuminho e o líder máximo do PCC, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, despertaram interesse da agência antidroga americana, Drug Enforcement Administration (DEA).

Agentes da DEA tentaram prender Fuminho pela primeira vez em 2014, quando o chefão foi localizado nos Estados Unidos por meio de escutas no telefone de Wilson José Lima de Oliveira, o Neno, que cuidava da arrecadação da mensalidade dos filiados à facção. Pouco antes de os agentes americanos chegarem à mansão de Fuminho, os dois embarcaram em um avião e foram para o Panamá.

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De lá, Fuminho voltou à Bolívia e Neno veio ao Brasil, onde seria preso três anos depois na Grande São Paulo. Para a polícia, além de mandar matar os líderes do PCC Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, e Fabiano Alves de Souza, o Paca, em fevereiro, no Ceará, Fuminho é o mandante do assassinato de Eduardo Ferreira da Silva, também em fevereiro, no Tatuapé, zona leste. Silva estava em uma Mercedes quando foi cercado por três pistoleiros encapuzados. Ele era o responsável pela escolta da mulher de Marcola e era suspeito de desviar dinheiro da facção.

Bancos 

Fuminho começou no mundo do crime como ladrão de banco. E atuou nos anos 1990 ao lado de Marcola. Nunca entrou para a facção e se transformou no mais importante aliado do grupo. "Vou repetir o que eu já disse: ele está virando o Pablo Escobar brasileiro", disse um outro delegado. Para a polícia paulista não há dúvida: Fuminho é o maior traficante do País. 

 

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Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 06h00

Além de arrecadar com o tráfico local e internacional de drogas, os integrantes do PCC contam com R$ 1,9 milhão com a chamada cebola (a mensalidade paga pelos integrantes da facção) e vendem 45 mil números de rifa a cada dois meses no sistema prisional. O valor de cada número é de R$ 40 (R$ 1,8 mi/mês). Já a contribuição de "associados" é de R$ 950 por mês, mais do que o dobro do valor pago por um sócio do Clube Pinheiros, na zona oeste de São Paulo (R$ 420), por exemplo.

Cada um desses setores é cuidado por um representante da cúpula da facção, a Sintonia Final Geral, dirigida por Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola. A facção tem ainda departamento jurídico - a sintonia dos gravatas -; departamento de transportes - a sintonia dos pés de borracha; e outros setores, como o dos ônibus (para levar as visitas dos presos). A organização conta até com uma área que exerce a função de compliance: a chamada "disciplina", que cuida das "boas práticas baseadas na ideologia da facção".

Propostas

Para combater o crime organizado, o Ministério Público Estadual de São Paulo defende os investimentos na inteligência policial, a fim de prever tendências da criminalidade e identificar desdobramentos do crime. Essa seria a única forma de identificar líderes e seus auxiliares mais importantes.

Os promotores do Gaeco também consideram essencial aprofundar o monitoramento da movimentação da organização para identificar sua rotina. Para os promotores, a ação controlada, a captação ambiental de conversas, a intercepção telefônica e telemática, a colaboração premiada e a infiltração e a vigilância de campo são outros instrumentos importantes para combater o grupo.

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Por fim, eles defendem quatro medidas que deviam ser adotadas contra o Primeiro Comando da Capital: o isolamento dos principais líderes no Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), a transferência dos líderes para o Sistema Penitenciário Federal, o aumento de prazo de internação do RDD de 6 meses para 3 anos e a criação de um regime intermediário de cumprimento de pena a ser reservado aos presos ligados a facções criminosas no País.

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