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Professor de escola particular de SP é preso em operação contra pornografia infantil

Escola internacional St Nicholas mandou comunicado aos pais se dizendo "em choque". Pais estão consternados e aguardam mais informações; docente dava aulas de História

Felipe Resk e Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 15h59
Atualizado 19 de fevereiro de 2020 | 16h59

SÃO PAULO - A Polícia Civil de São Paulo prendeu nesta terça-feira, 18, um professor de História e Teatro da St. Nicholas School em Pinheiros, na zona oeste paulistana, suspeito de produzir e armazenar material de pornografia infantil. Segundo a investigação, ele confessou filmar as alunas, entre 10 e 14 anos, por baixo da saia do uniforme em sala de aula, sem que elas soubessem. A escola internacional, em comunicado aos pais, se disse “chocada”.  

Ivan Secco Falsztyn, de 54 anos, foi detido na sexta fase da Operação Luz da Infância, feita pelas Polícias Civis de 12 Estados, sob coordenação do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Foram presas 43 pessoas. Os policiais chegaram à casa do professor, também em Pinheiros, por volta das 6 horas. “Ele tentou esconder o computador. Nós achamos vários vídeos de meninas de 10, 12, 13 anos e percebemos que tinham uniforme. Isso chamou a atenção”, disse a delegada divisionária da Delegacia de Capturas, Ivalda Aleixo. 

Falsztyn, então, segundo a polícia, confessou que fazia as imagens no próprio colégio, onde também foram apreendidos materiais. Ele dá aulas na instituição há 20 anos.

Em comunicado aos pais, a escola informou que todos “foram surpreendidos com uma operação policial que prendeu um dos nossos professores da unidade Pinheiros”. E que abriria uma sindicância interna para investigar o caso. A St. Nicholas completa este ano 40 anos e tem mensalidades em torno de R$ 7 mil. Entre os alunos há filhos de estrangeiros, empresários e artistas. 

“A escola franqueou a entrada e nos ajudou em tudo que foi possível. Eles não sabiam dessa prática”, disse o delegado  Osvaldo Nico Gonçalves, diretor de Operações Policiais Estratégicas. Segundo a polícia, Falsztyn confessou que escondia câmeras em caixas de remédios, com furos, para fotografar e filmar as alunas. A escola tem uniformes tradicionais, com saias para as meninas. As caixas eram colocadas em carteiras ou no chão.

Houve apreensão de diversos vídeos em computadores e HDs com imagens de partes íntimas de meninas usando uniformes. Algumas tinham sido guardadas na sala do professor na própria escola. Segundo a polícia, haveria até uma lista de alunas preferidas. Ele teria começado a fazer imagens na escola havia três anos, mas foram encontrados materiais datados de 2009.

Falsztyn se disse “doente” e pediu ajuda. A polícia não sabe estimar quantas seriam as vítimas. O Estado conversou com pessoas que o conheciam, sob condição de anonimato, e ele foi descrito como um professor “carismático e querido pelos alunos e professores” e que dava “aulas divertidas”.

A polícia pediu a prisão preventiva do docente, que não tem antecedentes criminais e vai responder por produção e armazenamento de material pornográfico. “Nós ainda não temos provas de que ele compartilhava o material”, disse o delegado. A defesa do acusado não foi localizada.

Segundo a polícia, o professor foi encontrado por meio de rastreamento de IP de computador. Não houve denúncia da escola ou de alunas. 

A prisão deixou pais e estudantes abalados. “A situação está muito difícil, muito complicada. O abuso está mais perto do que a gente imagina”, afirmou a mãe de um aluno do ensino fundamental, que pediu para não ter seu nome publicado.

O filho dela estuda na unidade da St. Nicholas em Alphaville, aberta em 2016. Ela diz que gosta muito da escola e quer entender melhor o que houve antes de fazer qualquer julgamento. “É preciso ter cuidado com esse tipo de informação.” 

A St. Nicholas é uma escola internacional, que usa um currículo conceituado no mundo todo e aceito em universidades fora do Brasil. É uma instituição pequena, que surgiu como uma escola internacional para crianças com menos de 5 anos e encaminhava estudantes para as tradicionais Chapel School, St. Paul’s e Graded. Há anos, ela foi ampliada e atende da educação infantil ao ensino médio. 

Na operação Luz da Infância foram apreendidos 187 mil arquivos suspeitos de pornografia infantil nos 12 Estados. 

Pais até cobram mais rigor, mas não há consenso

O escândalo de pornografia infantil fez com que pais já reivindicassem mudanças nas políticas de segurança da St. Nicholas. Segundo o Estado apurou, eles começaram a discutir em grupos fechados que os funcionários fossem impedidos de levar celulares à escola e até que professores não mais pudessem ficar sozinhos com os alunos.

“Foi uma tragédia, mas reflete nossa sociedade. Não se pode cercear a liberdade dos outros professores e acabar com a harmonia da escola, que é o que ela tem de melhor”, disse Frederico Pessoa, de 39 anos, pai de um aluno de 5 anos. Ele se disse muito satisfeito com a escola e acha que é preciso apurar bem o caso. “Mas não podemos ser paranoicos, poderia ter acontecido em qualquer outra escola pública ou particular”, completa. 

O professor preso não dava aulas para seu filho e ele não o conhecia. “Alguns pais agem com a escola como se fossem consumidores e só porque pagam caro querem cobrar certas coisas, não concordo.”

Operação contra pornografia infantil foi realizada em 12 Estados

Falsztyn foi detido na sexta fase da Operação Luz da Infância. A ação prendeu 43 pessoas em flagrante e foi coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. A operação foi desencadeada pelas polícias civis de 12 Estados para identificar autores de crimes de abuso e exploração sexual contra crianças e adolescentes. Em São Paulo, ocorreram 19 prisões, em Santa Catarina, 9, no Paraná, 6, em Mato Grosso do Sul, 4, e outras duas no Ceará, uma no Rio Grande do Sul, uma em Mato Grosso e uma em Goiás.

Foram cumpridos 112 mandados de prisão e busca, incluindo ações na Colômbia, nos Estados Unidos, no Paraguai e no Panamá. Quanto aos países, o ministério disse que houve cooperação para capacitação técnica conjunta de agentes policiais, intercâmbio de boas práticas, além de treinamento sobre como coletar evidências, com cada país coletando seus respectivos dados  Com isso, diz a pasta, houve integração para deflagrar a ação de forma simultânea.

Marca de investigação é integração entre polícias

A operação desta terça foi a sexta ação que atacou crimes com características similares. A Luz na Infância foi deflagrada pela primeira vez em outubro de 2017, quando prendeu 108 pessoas em 24 Estados. A sua marca desde então tem sido a integração entre as polícias brasileiras, que agem no mesmo dia para combater crimes relacionados à pornografia infantil. 

A segunda operação foi realizada em maio de 2018 e foi divulgada como a maior operação integrada contra abusos infanto-juvenis em todo o mundo. Naquela data, ocorreram 251 prisões em flagrantes em 284 cidades de 24 Estados. 

Em novembro de 2018, os policiais voltaram a campo e prenderam, em 20 Estados, 45 pessoas suspeitas de exploração sexual contra crianças e adolescentes. Os investigadores se debruçaram sobre mais de 500 mil arquivos para chegar aos pedidos de busca e apreensão, revelou o Ministério da Justiça naquela oportunidade. 

A quarta operação, em março de 2019, foi marcada pela prisão de um aluno dentro da sala de aula da Universidade de São Paulo (USP). Ao todo, foram mobilizados mais de 1.500 policiais para o cumprimento da missão em todo o Brasil.

A quinta operação ocorreu em setembro de 2019 e envolveu a atuação dos Estados Unidos, Panamá, Paraguai, Chile, Equador e El Salvador. A cooperação internacional se repetiu na sexta operação, nesta terça. /COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO

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