Marcelo Camargo/Agência Brasil via AP
Marcelo Camargo/Agência Brasil via AP

Caso João de Deus: acusado de abuso sexual, médium se entrega em Goiás

Quem é João Teixeira de Farias? O que se sabe sobre os abusos sexuais? Confira as respostas a essas e outras perguntas com as últimas notícias do 'Estadão' sobre o assunto

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2018 | 18h09
Atualizado 03 de fevereiro de 2019 | 16h57

No último domingo, 16, o médium João Teixeira de Freitas, conhecido como João de Deus, se entregou à Justiça em uma estrada de terra perto de Abadiânia, no interior de Goiás. Ele é acusado de ter cometido uma série de abusos sexuais com mais de 330 mulheres durante seus atendimentos espirituais. 

Na madrugada do sábado, 8, o Jornal da Globo e o programa ‘Conversa com Bial’, ambos da TV Globo, trouxeram à tona as primeiras denúncias de abuso sexual. Nos 10 depoimentos exibidos, mulheres disseram que o médium abusou delas em Abadiânia. Em nota, ele negou as acusações.

Em entrevista ao Estado, uma das vítimas conta que não denunciou os abusos do médium antes por sentir medo, culpa e vergonha. "Eu guardei isso por anos. Primeiro porque você se sente culpada, se questiona porque deixou que isso acontecesse. Vergonha, medo, como eu iria denunciar uma pessoa que tem uma legião que o acompanha e que tem uma enorme força em todos os sentidos?". 

O Ministério Público de Goiás e a Polícia Civil afirmaram, na segunda-feira, 10, que já apuram há meses as denúncias de abuso sexual. Segundo o MP, elas foram encaminhadas à Polícia Civil do Estado de Goiás no primeiro semestre de 2018. O delegado-geral da Polícia Civil André Fernandes de Almeida afirmou que a Delegacia Estadual de Investigações Criminais (Deic) abriu investigações em outubro.

O MP também declarou ter registros de casos de assédio desde 2010. Já o programa de Pedro Bial apresentou acusações desde os anos 1980. Em apenas um dia, uma força-tarefa montada pelo órgão reuniu 40 denúncias. Segundo o delegado-geral da Polícia Civil de Goiás, André Fernandes, a investigação irá se concentrar em 15 casos.

Na sexta-feira, 14, a Justiça decretou a prisão preventiva de João de Deus. Depois de não cumprir o prazo para que se entregasse até às 14h do sábado, 15, o médium foi considerado foragido e entrou na lista da Interpol

A defesa deve apresentar na segunda-feira, 17, o pedido de habeas corpus para tentar suspender os efeitos da prisão preventiva do médium. O criminalista Alberto Toron, que representa o João de Deus, usou o 'passado' das vítimas para questionar 'crédito' dos depoimentos

Quem é João de Deus?

João Teixeira de Farias tem 76 anos e é médium. Desde 1976, ele oferece supostos tratamentos mediúnicos na Casa Dom Inácio de Loyola, autodenominada “hospital espiritual”, em Abadiânia, em Goiás. Apesar da formação católica, ele começou os seus trabalhos no fim da adolescência peregrinando pelo País.

Segundo o site da instituição, são oferecidos serviços como passes e cirurgias espirituais baseados nas entidades recebidas pelo médium. O atendimento é gratuito e a cobrança só é feita caso seja necessária medicação. Entre as cirurgias, há as opções: invisível (sem corte) e visível (com corte), sendo que, de acordo com o site, as últimas só ocorrem caso seja o desejo do paciente.

Relação com famosos

João de Deus ficou conhecido como apadrinhado do também médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier. Segundo o site de João, a escolha da cidade de Abadiânia para instalar o seu hospital espiritual se deu após uma mensagem psicografada por Chico e ditada pelo espírito Dr. Bezerra de Menezes, recomendando o local.

A Casa Dom Inácio de Loyola já recebeu personalidades, como os ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e outros políticos famosos, como Hugo Chávez e Bill Clinton.

Após as denúncias, Janaina Paschoal, a deputada estadual eleita com mais votos na história postou em suas redes sociais uma mensagem sobre as acusações contra o médium. Ela aproveitou para ressaltar a importância do trabalho espiritual. A apresentadora Xuxa também usou as redes sociais para pedir desculpa ao público por ter divulgado o documentário de João de Deus e pediu compreensão para as vítimas de abuso sexual.

João de Deus e Oprah

A apresentadora americana Oprah Winfrey esteve com o médium na casa de Abadiânia em 2012 para gravar entrevistas e acompanhar atendimentos espirituais. Após saber das denúncias contra João de Deus, ela retirou do ar os vídeos e declarou ter empatia pelas mulheres que o denunciaram.

Acusado pela filha

Dalva Teixeira, de 45 anos, filha de João de Deus, declarou em um vídeo ter sofrido abuso sexual por parte do pai entre os 9 e 14 anos. O depoimento foi gravado em 2016 e, por medo de represálias, só foi divulgado na última terça-feira, 11, pela TV Record. No relato, Dalva afirma que os abusos acabaram apenas quando ela se casou, aos 14 anos.

Editora e distribuidora suspendem produtos com João de Deus

Após a divulgação das acusações, a editora Companhia das Letras suspendeu a distribuição do livro João de Deus: Um Médium no Coração do Brasil, publicado em 2016. Já a distribuidora Paris Filmes cancelou a comercialização do documentário João de Deus - O Silêncio É uma Precelançado em maio, em todas as plataformas digitais.

Vítimas de abuso sexual criam rede de apoio

Para acolher as denunciantes do médium, foram criados grupos de apoio às vítimas. Um deles foi criado pelas mulheres abusadas sexualmente pelo ex-médico Roger Abdelmassih e outro é liderado pela ativista Sabrina Bittencourt, que recebeu ao menos 185 denúncias contra 13 líderes espirituais brasileiros, incluindo o guru Sri Prem Baba.

Fiéis e funcionários esperam em Abadiânia

Mesmo após as denúncias, fiéis de outros Estados e do exterior foram para a cidade goianiense para serem atendidas por João de Deus, ainda que o movimento tenha caído. Com apenas 17 mil moradores, Abadiânia tem a economia centrada na figura de João e teme um colapso.

Funcionários e voluntários da Casa Dom Inácio de Loyola também disseram manter a confiança no médium.  Mulheres ouvidas pelo Ministério Público afirmaram que alguns funcionários eram coniventes com os abusos sexuais.

João de Deus volta à Casa Dom Inácio de Loyola

Na quarta-feira, 12, o médium apareceu pela primeira vez em seu hospital espiritual desde que as denúncias vieram à tona. Depois de passar menos de 10 minutos em uma sala de atendimento, João de Deus fez um rápido pronunciamento e disse que está “na mão da lei brasileira”.

Ouça o podcast do 'Estadão Notícias' sobre o caso João de Deus.

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